
José Augusto Fontes
Era um seminário de Direito, um importante encontro, um simpósio imperdível, uma semana de palestras. Muitas atrações e a possibilidade, para os jovens alunos do curso, além de fazer silêncio, fazer várias perguntas. Todos interessados na ordem natural das coisas - entendida como a ordem jurídica, pelas pessoas ali presentes -, na justiça e na lei dos homens, nas relações comunitárias e na política local. A pequena cidade precisava de eventos, para movimentar as pessoas e os assuntos. Aquele congresso era um momento para isto. Os estudiosos das regras de comportamento coletivo que incidem na vida dos homens em sociedade, lá estavam. Códigos e expectativas bem visíveis, cada um via no outro a importância do evento. Estar ali era participar dos destinos da cidade, do futuro dos homens, que se desenhava pacífico e ordeiro. Era mais do que interessar-se pelo próprio destino, já entregue às leis naturais, ainda que inconscientemente.
E ali estavam todos, principalmente os alunos do curso de Direito daquela pequena cidade, os mais sérios e interessados, que não arredavam os pés nem os ouvidos, todos sabendo que a presença valia pontos para a avaliação mensal. O chefe de departamentos, o coordenador do curso, os professores, parecia que todos ali estavam conferindo as presenças, fazendo a chamada com os olhos, muitos olhos. O auditório ficou pequeno.
Ministrando palestras, os expoentes máximos da localidade. Desembargadores, advogados renomados, juízes eloqüentes, professores formados em grandes centros, alguns com mestrado, parecia que aquela mesa, no alto, integrava o céu. Era um congresso de notáveis, os alunos estavam eufóricos, deslumbrados e querendo participar, perguntar sobre tudo, perguntar até as horas. Afinal, era um grupo politizado, consciente do seu papel de agente de mudanças sociais. Ainda não estava na moda o operador do Direito. Corria o evento, vários temas e vaidades.
Palestrante para todo gosto, geralmente, defensores da ordem constituída, às vezes parecia que inibiam as novas idéias, seriam acomodados ou reacionários? Era o termo do momento. Palavra difícil e bonita. Aqueles palestrantes cheios de blazeres e paletós davam o que falar. Na época, muitos professores integravam o partido local dominante, os outros eram admiradores, participavam indiretamente, era o que os alunos queriam dizer uns aos outros, alguns cochichavam, muitos achavam natural. Aliás, aquilo não era coisa para ficar falando. Mas ali, estavam tão próximos, coçava a língua, era uma tentação...
A idéia do Direito como norma impositiva. Todas aquelas regras obrigatórias. A justiça era só um ideal, que morava longe e não enxergava direito. Devia mesmo, essa justiça, andar de ônibus, em pé, em estrada de chão. Alguns alunos começavam a fazer perguntas fora do padrão. Começavam a querer questionar demais. Alguma vez, parecia que enfrentavam os palestrantes, quase de igual para igual. Aquilo foi enervando um dos rapazes, cujo nome talvez fosse Manoel. Aquilo foi lhe dando impaciência, ficou meio ansioso, com vontade de interceder.
Aquela era a hora de mostrar-se politizado, de mostrar-se de esquerda, entendido em todas aquelas internacionais que os caras falavam lá no DCE.
Aqueles caras pensavam que ele, por ser humilde, por ter vindo da área rural, da colônia, não entendia de Socialismo, nem podia ser de esquerda.
Não e não. Sabia das coisas e ia mostrar prá todos. A começar por aquela professora sabe-tudo, que ele considerava enjoada e direitona. Com ela, já entraria rasgando, chegaria batendo, não daria chance, ali, prá todo mundo ver, estariam frente-a-frente, e ele falaria grosso. O poder é do povo e para o povo, pensou. Todos são iguais perante a lei, sintetizou. Era uma tentação.
E ele cursava Direito, o curso mais concorrido daquela universidade, estava na elite. Sabia que a esquerda tomaria o poder, ainda que fosse pela revolução das massas. Precisava mostrar suas idéias, como membro do proletariado e como estudioso do Socialismo. Era um agente modificador de comportamentos e idéias, um integrante qualificado da nova ordem social a surgir, em breve, muito breve. Era agora, perguntaria direto, cabeça erguida, pouco importando o assunto. Pouco ou nada, pois sequer sabia qual o tema em desenvolvimento pela palestrante que o incomodava. Enebriado, com a interpretação das próprias idéias, e revolucionário, com a possibilidade de revelar sua tendência esquerdista, levantou o dedo, zangou-se com a própria aparência de serenidade, ergueu-se, sem esperar que lhe dessem a palavra. Sem dizer data vênia, lançou a pergunta, que poderia ser qualquer outra:
- Professora, quero que a senhora explique isso e aquilo!
- Meu filho, ocorre isso quando não ocorre aquilo. Aquilo é o que está
previsto no artigo tal, do código X.
Sem querer intimidades nem simpatias, e querendo enfatizar sua resistência àquele discurso que considerava direitista e reacionário, da professora que chamava de sabe-tudo, verberou:
- Não sou seu filho, quero uma resposta clara sobre o que é isso e qual é o conceito daquilo, será que é tão difícil?
- Meu preclaro, disse a professora, isso e aquilo são entendidos como....
A professora foi interrompida por Manoel, zangado e imponente:
- A senhora me respeite! Saiba que sou pobre mas sou isso e aquilo.
Precário é a senhora. Precário é a vovozinha!