
Jornalismo no Acre é coisa de gente branca
Negros são pequenas minorias nas redações das empresas de comunicação em Rio Branco
J. Guimarães
Dos 120 profissionais credenciados pelo Ministério do Trabalho filiados ao Sindicatos dos Jornalistas do Acre (Sinjac), apenas cinco são de cor negra, o que representa menos de 5% da categoria.
Num Estado com 28.083 negros, algo em torno de 20% de sua população (dados do IBGE), a ausência de representantes da raça negra nas redações pode estar ligada ao preconceito racial ou ao sentimento de inferioridade ainda remanescente do tempo da escravidão.
Sebastiana de Jesus Sampaio, 25 anos, prestou o vestibular pela primeira vez este ano. A princípio não teve dúvida na hora de escolher o curso, mas ao fazer a inscrição acabou desistindo da faculdade que pretendia por causa do comentário preconceituoso. “A caminho da Ufac ouvi uma amiga minha dizer para a colega que eu pretendia me inscrever para jornalismo [Comunicação]. A outra respondeu que, pela minha cor, seria melhor eu procurar outra profissão que exigisse menos da aparência. Minha amiga tentou contestar e ouviu a seguinte resposta: “Na televisão do Acre eu só conheço um repórter negro. Você conhece mais?”.
A conversa das estudantes no ônibus fez Sebastiana repensar na profissão que pretendia seguir, e antes de chegar à Copeve acabou optando pelo curso de História.
As palavras da colega, embora preconceituosas, não deixaram de refletir uma realidade: de fato existem poucos profissionais negros na imprensa acreana. Um conceituado jornal do Estado tem 16 jornalistas em sua redação, mas nenhum negro. Na maior emissora de televisão de Rio Branco, todos os repórteres são brancos. O mesmo se repete no mais amplo sistema de radiodifusão do Acre, onde as pessoas de cor escura estão lotadas em funções singulares e até hoje apenas um negro assumiu o cargo de diretor-geral.
Para o presidente do Sinjac, Raimundo Afonso, a categoria não é preconceituosa. Para ele, se hoje os negros são pequena minoria na imprensa acreana, isso se deve à política de admissão adotada pelos empresários de comunicação até bem pouco tempo. “Os patrões não tinham critério de admissão. Eles contratavam um novo repórter mediante a indicação de um parente importante do candidato à vaga ou por simpatia ao ‘foca’ [repórter iniciante]. Dessa maneira, é claro que muitas vezes eles ignoravam a capacidade profissional para ficar com apenas mais um rosto bonito nas redações ou estúdio”, justifica.
Embora alguns empresá-rios e editores aleguem que a ausência de negros nas redações deva-se ao fato de não existir essa mão-de-obra na praça, o setor de estatística da Ufac demonstra o contrário - os números revelam que cerca de 18% dos profissionais que aquela entidade forma anualmente são negros.
Segundo o assessor de comunicação Francisco Dandão, esses profissionais saem da academia com o mesmo nível técnico em relação a outras raças. “O negro formado aqui tem o mesmo potencial para concorrer a qualquer vaga em sua área de formação ou até mesmo em outra profissão que não exija diploma específico para exercê-la, no caso o jornalismo”, afirma.
O preconceito é sentido na pele
“Quando um jornalista erra, logo ouve dos colegas a seguinte frase: ‘Tinha que ser preto!’”. A declaração do rádio-repórter da Gazeta FM 93.3, Elias Daier, revela o cotidiano de quem corre atrás da notícia e ainda tem que driblar a discriminação de sua cor partida dos próprios colegas.
Há dez anos embrenhado no jornalismo acreano, Daier já militou na imprensa escrita e hoje se dedica ao rádio. Durante todo esse tempo ele guarda muitas histórias constrangedoras, por causa de sua cor, para contar. A começar pelo fato de ter sido por longo tempo o menor salário da empresa que trabalhava e sempre motivo das piadas entre amigos de redação.
“Ainda hoje, sempre que alguém vai contar uma piada de preto, cita meu nome como exemplo. É claro que em tom de brincadeira, mas no fundo eu sei que existe uma certa discriminação pessoal. No entanto, finjo que não me importo, sorrio e vou tocando a vida. Acho que esse é um entre tantos dons que o negro tem de ironizar quem tenta subestimá-lo por causa da cor da pele”, justifica.
Mas a discriminação contra o jornalista negro não está apenas nos colegas de pauta. Elias afirma que ele é bem mais explícito nas fontes da notícia. “Uma vez cheguei atrasado a uma coletiva e o entrevistado parou para indagar a um colega se eu era repórter. Mesmo me vendo com o gravador na mão, ele se recusou a acreditar que eu trabalhava em uma das maiores empresas de comunicação do Estado. Era como se eu fosse um intruso perante aquela autoridade”, relata o repórter.
Elias comenta ainda que raramente é tratado pelo próprio nome entre os colegas. Segundo ele, os apelidos são os mais diversos para identificá-lo nas redações. “Picolé de açaí”, “sorvete de asfalto”, “azeitona”, “negrão” e outros epítetos menos edificantes.
Racismo: vergonha nacional
Mas não é apenas no Acre que esse preconceito explícito acontece. Em todo o país os negros são minorias nas oficinas de revistas, jornais, radio e televisão, conforme demonstra pesquisa feita pela revista “Imprensa” em outubro de 200.
A revista enviou e-mails aos veículos de todo o Brasil com três perguntas: 1) Quantos jornalistas trabalham na sua redação?; 2) Destes quantos são negros?; e 3) E quantos ocupam cargo de chefia?.
Mas as respostas, às vezes inusitadas, segundo divulgou a revista, chegaram com muito mais que números. “Não temos esses dados pois a cor da pele não é requisito para contratar ninguém”, teria respondido a redação de “O Globo”, no Rio de Janeiro.
Já o “Diário do Commercio”, em Pernambuco, teria sido mais simpático na resposta. “Temos 135 profissionais na redação do ‘Diário’. Nenhum é negro. Aliás, em meus 14 anos como diretor do JC, lembro-me apenas de três profissionais negros. Se serve de consolo, também não temos nenhuma loira na redação”, teria relatado o jornalista pernambucano Ivanildo Sampaio, diretor de redação do jornal.
Direitos desiguais
A Conferência Mundial sobre o Racismo, realizada em setembro de 2001, em Durban, África do Sul, resultou em 100 páginas de uma declaração oficial, muito conflito de interesses e pouco resultado prático. A iniciativa, contudo, serviu como incentivo para que diversos movimentos contra o racismo e o preconceito repensassem sua atuação. No Brasil, o encontro de Durban deu visibilidade e ânimo a um grupo de ativistas, formados por jornalistas negros.
Eles integram uma comissão especial do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, criado para elaborar políticas que abram espaço para os negros dentro dos veículos de comunicação.
Outro projeto do grupo é fazer um grande levantamento nacional que funcione como subsidio para o movimento. “Existem um racismo velado na sociedade brasileira. Nas redações não é diferente. O negro leva um tapinha nas costas, mas não consegue ascender profissionalmente”, afirma à revista “Imprensa” o jornalista Flávio Carranca, coordenador da comissão e também editor do programa Diário Rural, da TV Bandeirantes.