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Rio Branco - Acre, domingo, 9 de fevereiro de 2003

Acreanos ocupam o front do governo Lula

Com experiências administrativas bem-sucedidas, Estado exporta profissionais para diversos setores do governo federal

Romerito Aquino, de Brasília
Especial para o Página 20

Não vai longe o tempo em que o Acre demorava anos para aprovar um projeto ou liberar recursos nos gabinetes dos diversos ministérios e órgãos federais instalados em Brasília. No governo Orleir Cameli, por exemplo, técnicos e dirigentes dos escalões intermediários do governo chegaram a confessar que não tinha sentido liberar dinheiro federal “para um estado tão corrupto como o Acre”. Nessa época, Orleir era manchete nacional por estar respondendo a diversos processos de irregularidades no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Hoje, no entanto, a situação e o conceito do Acre na capital da República se inverteram completamente porque são os próprios acreanos e as várias experiências administrativas bem sucedidas no estado nos últimos anos que passaram a fazer parte do staff e dos programas do governo federal.

Além de Marina Silva, agora ministra, e do senador Tião Viana, que vem se destacando nacionalmente como líder do PT no Senado, costurando, com a maestria de um veterano, as alianças do governo Lula no Congresso Nacional, o Acre conta agora também com figuras que se destacam nos primeiros escalões técnicos do novo governo federal. Tais figuras são pessoas muito familiares ao Acre, que nascidos ou não no estado, se destacaram profissionalmente em várias áreas da atividade humana.

Esse é o caso do antropólogo Terri Aquino, 56, que depois de ter lutado por 20 anos pela demarcação das terras e pela emancipação econômica, social e cultural dos índios do Acre, foi chamado para assumir o Departamento de Identificação e Demarcação da presidência da Funai. Txai Terri, como os índios acreanos costumam chamá-lo, vai ficar encarregado agora de dirigir os trabalhos de demarcação e identificação das áreas indígenas de todo o território nacional.

“Apesar do trabalho que vínhamos desenvolvendo tanto tempo com os índios da Amazônia, não tínhamos reconhecimento. Mas agora, parece que a ficha caiu neste novo governo, que se propõe a fazer mudanças estruturais no país”, afirmou Terri, ao se dizer contente com a decisão do governo federal de reconhecer a importância do trabalho de sua geração, “que tanto batalhou para as coisas melhorarem no Brasil”.

Ainda na Funai, assumiu o gabinete da presidência a jornalista acreana Áurea Lúcia Maia, 45, que como assessora da senadora Marina Silva fez parte da equipe de técnicos e lideranças indígenas que formulou a proposta do governo Lula para a setor indígena.

“O Acre tem seus méritos no novo governo porque desenvolveu uma boa política indigenista. Nos anos em que assessorei a senadora Marina Silva na área indígena, jamais vi um índio do Acre vindo para Brasília para reivindicar algo. Pelo contrário, recebi no gabinete da senadora dois índios que foram nos fazer uma visita de cortesia. Isso não ocorria com índios de outras regiões brasileiras, que quase sempre tiveram que fazer suas demandas na própria capital federal para defenderem seus direitos”, exemplificou a jornalista acreana.

Cientistas, pesquisadores e líderes
indígenas integram o time federal

Além de Terri Aquino e Áurea Lúcia, outros acreanos como, o índio Antônio Apurinã, segundo suplente da senadora Marina Silva, e Antônio Pereira Neto (este já “batizado” acreano), atual administrador da Funai no Acre, também serão alçados para o primeiro time da Funai a nível nacional. Apurinã deve assumir a diretoria de Assistência Indígena e Antônio Pereira Neto, por sua competência em administrar o órgão no estado em consonância com as lideranças indígenas, será alçado para o cargo de diretor de Assuntos Fundiários do órgão.

Outro acreano de destaque na atual equipe federal é Herbert Cavalcante de Lima, 41, doutorando em Ciências de Alimentos da Universidade Federal de Lavras (MG), que foi nomeado para o cargo de diretor-executivo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Formado na primeira turma de Agronomia da Ufac e pesquisador concursado da Embrapa, Herbert Cavalcante chegou aos escalões superiores do novo governo indicado pelo Fórum Amazônico, entidade que participou da formulação das propostas do candidato Lula para a Amazônia brasileira.

Responsável pelo aproveitamento da amêndoa do cupuaçu como manteiga e alimento achocolotado, usados pioneiramente na merenda das escolas municipais de Manaus (AM), onde entrou na Embrapa, o acreano Herbert se orgulha muito da participação do Acre na linha de frente do novo governo federal.

“As vitórias do governador Jorge Viana no Acre e de Lula no Brasil criaram a oportunidade para que o projeto de desenvolvimento sustentável defendido por Chico Mendes pudesse se consolidar como alternativa de desenvolvimento regional para o país”, ressaltou o pesquisador acreano, que como diretor nacional da Embrapa terá sob a sua gestão 39 unidades de pesquisa da empresa em todo o país, destacando-se o Centro Nacional de Pesquisa da Floresta, o Centro Nacional de Biotecnologia e de Recursos Genéticos e o Centro Nacional de Pesquisa do Meio Ambiente.

Outra acreana com destaque na nova administração do país é a agrônoma Eliane Maciel, que formou-se na Ufac e hoje trabalha na assessoria da presidência do Incra. O irmão do diretor da Embrapa Herbert Cavalcante, o doutorando em botânica Haroldo Cavalcante, comanda hoje o curso de graduação e doutoramento da Fundação Jardim Botânico do Rio de Janeiro, instituição fundada ainda pelo imperador D. Pedro II. Com recente livro científico publicado sobre o pau-brasil, conhecida madeira brasileira, esse botânico acreano é um dos maiores especialistas brasileiras em fabácias, conhecidas como leguminosas.

Outro acreano alçado para os primeiros times do governo Lula foi o tarauacaense Valdomiro Rocha, que assumiu o posto de secretário de Apoio Rural e Cooperativismo do Ministério da Agricultura. Ex-técnico da Emater/Acre e ex-presidente da Organização das Cooperativas do Acre, Valdomiro chegou ao posto de secretário do ministério indicado por cooperativas nacionais rurais.

Mesmo avesso a falar à imprensa, Valdomiro Rocha disse considerar importante a participação de seu estado natal no front do novo governo federal. Em conversa com políticos acreanos, como os deputados federais Zico Bronzeado (PT) e Nilson Mourão (PT), disse que uma das prioridades de sua gestão à frente da secretaria será o fortalecimento do cooperativismo no país com ênfase para o apoio ao pequeno produtor rural e à agricultura familiar, ponto muito defendido pelo candidato Lula durante a campanha do ano passado.

O advogado Jorgeney Ribeiro, nascido em Brasiléia e atual assessor da presidência do Banco da Amazônia em Brasília, também poderá assumir, nos próximos dias, lugar de destaque nos quadros funcionais da Câmara dos Deputados, para onde deve ir contribuir na assessoria da presidência do órgão. Como ex-diretor do Basa em Belém, Jorgeney fez questão de ressaltar sua “grata satisfação” de saber que seu estado natal está hoje assumindo, como nunca em sua história, lugar de destaque no cenário político e administrativo do país.

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