
Aposta dobrada
Metas mais desafiadoras num cenário pior. É isso que o governo do PT está se propondo. As metas são maiores exatamente porque o cenário piorou, mas essa decisão aumentou o esforço. Os ministros da área econômica estão elevando o superávit primário, tendo R$ 10 bilhões de restos a pagar e sem contar com as receitas extraordinárias que, no ano passado, chegaram a R$ 25 bilhões.
Um exemplo do duplo desafio que significa a proposta do governo: as estatais tiveram um pequeno aumento do superávit previsto, e vão investir mais do que no ano passado. Só que, no setor elétrico, há uma interrogação. Algumas empresas privatizadas estão ficando inadimplentes e há quem, no mercado, tema até a devolução de algumas distribuidoras ao governo.
Por sua vez, o governo vai ajustar as contas com revisão dos números, novas projeções, contingenciamento de gastos, técnicas gerenciais, revisão de todos os contratos de prestação de serviços e corte em vários projetos e nas emendas de parlamentares, segundo contaram os ministros da área econômica, num almoço ontem com um pequeno grupo de jornalistas.
Antonio Palocci e Guido Mantega tentaram, durante o almoço e na entrevista coletiva, reduzir o impacto da declaração da véspera de que o governo anterior errara em R$ 8,9 bilhões no cálculo das despesas. Admitem que fizeram dois tipos de correção: atualização de números pela inflação decorrida — que não se sabia qual era quando foi preparado o orçamento — e correção de despesa, que foi subestimada. Eles acreditam que os gastos com pessoal previstos estavam menores em R$ 1,8 bilhão. E acham que, no setor previdenciário, a diferença se explica pela atualização monetária.
— Não gosto de ficar procurando culpados. O importante é a constatação de que os números precisavam ser corrigidos. Não houve má fé alguma — diz o ministro Palocci.
Eles avaliam que, no ano passado, o governo conseguiu seu superávit primário de 3,91% do PIB usando basicamente duas armas: receitas extraordinárias que chegaram a R$ 25 bilhões e restos a pagar de R$ 10 bilhões. Muito mais difícil será atingir o que o atual governo se propõe: aumentar o superávit num momento de redução das receitas. A informação dos ministros é que a carga tributária cairá em 2% do PIB este ano, em função da redução das receitas extraordinárias.
Em algumas áreas, os cortes são impressionantes, mas tanto Guido Mantega quanto Antonio Palocci insistem em que tudo o que era essencial ao programa de governo foi preservado. Mantega está também entusiasmado com as chances abertas com seu programa de redução de custos por eficiência gerencial. Já teve uma reunião com o empresário Jorge Gerdau sobre a aplicação de técnicas de gestão; está em contato com escolas de administração para levar ao governo conceitos de logística, otimização de investimentos e criação de indicadores de desempenho dos processos da gestão pública. Este era o trabalho que vinha sendo desenvolvido pelo Ministério, mas o ministro do Planejamento quer aprofundar, modernizar e adotar novas técnicas de gestão. Seis projetos começarão, em breve, a utilizar estes novos parâmetros gerenciais. Mantega não quis dizer quais, mas adianta:
— São projetos grandes, quero ver economia de bilhão — afirmou.
Palocci diz que há muita chance de sucesso, até pela energia que o novo governo traz:
— É a diferença entre um governo que estava no seu oitavo ano e outro que acaba de ser iniciado.
O ministro Palocci está otimista com o cenário interno, apesar de estar atento à necessidade de enfrentar os efeitos da crise, que teve seu ponto agudo no ano passado. A inflação está em queda, os indicadores de risco-país, cotação do dólar estão em queda desde a eleição. Mas a guerra cria dois problemas: o preço do petróleo, que ontem teve nova alta, e a redução do fluxo externo para o Brasil.
— A crise retarda a queda da inflação e, conseqüentemente, das taxas de juros — diz o ministro Mantega.
O cenário externo volátil agrega uma dificuldade a mais num quadro já cheio de incertezas. Algumas até difíceis de entender e de lidar. Os ministros disseram que a crise das empresas elétricas está sendo estudada pela ministra Dilma Rousseff, mas, evidentemente, terão impacto nos cenários que se projetam. Se a inadimplência junto as geradoras se ampliar, isso afetará o desempenho das estatais do sistema Eletrobrás. O investidor externo está em crise na matriz e não quer investir mais, e alguns estão pensando até em deixar o país. Isto pode exigir aumento do investimento das estatais do setor. O ministro Palocci não pensa em rediscutir os critérios do Fundo Monetário pelos quais os investimentos são considerados gastos. Ele prefere discutir o mínimo possível com o Fundo. Na visão do ministro, a relação com o FMI tem que ser um contrato com suas metas de desempenho e com o menor detalhamento possível. Acha que a maneira de chegar nos objetivos deve ser uma discussão interna do país. A nova meta fiscal foi comunicada ao Fundo depois de decidida aqui.
Palocci diz que a meta de 4,25% do PIB, nas projeções feitas, mantém constante a relação dívida/PIB. Mas não cobriria uma deterioração do cenário econômico. Ele admite voltar a estudar os números, caso seja necessário.