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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 12 de fevereiro de 2003
Dinheiro – limite para o amor?

Wânia Lília Maia Viana *

Preocupa-nos bastante a situação de abandono em que vivem muitos de nossos menores, principalmente crianças.

Avistá-las pelas ruas, sujas, descalças, famintas a olhar os que passam com olhos de “sintam pena de mim “é tão triste”.

Moradores do São Francisco, Bahia, Cidade Nova, Santa Inês, invasões ingressam nos ônibus pela porta da frente e vão passeando até chegarem aonde lhes interessam: as festas, bares – onde há movimento – e começam a peregrinação de mendigar, de engraxar em troca de alguma moeda. E isso acontece durante o dia, à noite e até na madrugada.

Esses menores vão às ruas, muitas vezes, com a justificativa de conseguir aumentar a renda familiar, pois suas famílias vivem em situação de miséria. Falo aqui de crianças que não moram nas ruas e não são usuárias de cola de sapateiro. Podem tornar-se.

Têm-se crianças de 6, 8 anos, que de tão magras e fracas seguram com dificuldade a caixa de engraxar, mais parecendo, às vezes, que a caixa é quem as segura. É a caixa que as ampara entre um cochilo e outro, onde talvez sonhem que, na verdade, estão em casa, dormindo e alimentadas.

Ao avistá-las pensamos “devem ter uns quatro anos” . Numa conversa, porém, deparamo-nos com um menininho de oito anos, desnutrido mas inteligente, esperto,sonhador, que admite sempre encontrar alguém bonzinho que lhe dá comida, quando está longe de casa. Ele consegue ler, fazer contas e confessa ser desistente da terceira série. Isso mesmo! Ele estava superadiantado.

Na madrugada, quando nossos filhos dormem, essas crianças peregrinam pelas ruas.

É desumano se permitir esse abandono.

O abandono, geralmente, começa desde cedo, quando a criança ainda nem aprendeu os primeiros passos: deixa-se uma bacia ao chão com água, um frasco de remédio perto, uma caixa de fósforo, um poço aberto no quintal. Ficam à frente das casa, bem na beira das ruas, despidas, brincando com um bichinho enquanto as mães lavam roupas ou assistem televisão, sem lembrarem da pouca idade dos filhos – um perigo constante que nos faz ter a certeza da existência do anjo da guarda, pois às vezes conseguem crescer nesse meio: barrigudos, com a dentição estragada aos oito anos.

Sabe-se lá o que é acordar à noite e não avistar o pai, a mãe, um irmão...Chorar com fome ou por estar com as calças molhadas e dormir novamente porque ninguém escutou. Se formos averiguar o papai saiu para a festa ou foi beber beber pinga e a mamãe não quis ficar para trás e disse que também sairia às festas. Os manos devem estar engraxando à porta de algum clube.

Fazendo uma viagem ao nosso lar nos vemos, na madrugada, vistoriando nossos filhos para vermos se têm frio, se estão sem cobertor, se um carapanã os está pertubando. À vezes estão quase caindo da cama. E se estiverem doentes nem se fala. Chegam a dormir entre os pais.

Daí pergunto-me: qual a diferença entre nossos filhos e as crianças a que me referi? Existe diferença no gostar, no amor dos pais? Será que a situação financeira, as posses – o dinheiro determinam o apego aos filhos?

Dói mais se lembrarmos dos bichos que protegem suas crias e tornam-se ferozes à aproximação de estranhos.

E ao homem, ser racional, muitas vezes falta esse apego, esse gostar.

Um psicólogo, um dia desses, disse-me que uma justificativa para isso estaria no fato de que crianças, em sua maioria, não foram planejadas, queridas. Apenas surgiram de um momento e talvez com os seus pais tenha acontecido o mesmo. Essa criação sem noção de família, de amor, transmitiria-se por gerações. Isso aliado à inexistência de controle da natalidade e de, geralmente, serem famílias de baixa renda, com mais de seis filhos.

Já nossos filhos são esperados. Compram-se as roupinhas, vai-se ao médico fazer o pré-natal, contam-se os dias até o nascimento e já se planeja até a profissão enquanto ainda estão no ventre.

Mesmo assim, ainda penso que algo está errado pois a dor de um pai que perde seu filho, independentemente da situação financeira, da cultura, deve ser, ou pelo menos deveria ser, igual. Sentimos apego até por bens materiais como um carro, um fogão, uma panela, e à vezes esquecemos nossos filhos.

A criança tem que ser encarada como um ser frágil, em desenvolvimento, que não pode ter nos ombros a responsabilidade que um adulto tem. Criança que tem sonhos, que necessita ser estimulada ao rabiscar um papel com algo ilegível, que tem potencial para ser adolescente, adulto e velho feliz, realizado.

Os bens materiais propiciam uma qualidade de vida melhor para quem os têm. Portas se abrem e desejos são realizados. Isso não há dúvidas. E quando são parcos esses bens, devem resultar no descaso com a família, na falta do cuidado natural de zelo e proteção?

Imaginemos uma escola na frente de uma residência, ou um posto de saúde. Nessa residência mora o Joãozinho e sua família. O pais de Joãozinho têm que ter apego a ele, gostar dele, para pensar em atravessar a rua e levá-lo à escola. De que adianta o posto de saúde se os pais não pegam nas mãos dos filhos e os levam até lá, quando estão doentes?

Vem-me à memória, de repente, a imagem de uma fotografia que me foi mostrada há um ano atrás. A intenção de quem a mostrou era indicar quem seria seu filho, que havia sumido, fugido de casa. A cena da foto: uma criança de uns três ou quatro anos, dentro de um caixãozinho de madeira, com os olhos entreabertos, morta. Ao redor, diversas crianças rindo, como se fizessem pose para uma foto. O caixão parecia um bolo. Entre essas crianças estava o garoto que tinha fugido de casa.

Isso nunca me saiu da cabeça. Penso na pessoa que tirou a foto e me pergunto se pediu para as crianças sorrirem ou se seria natural tal cena.

Não conheci a família da criança morta mas fica a impressão de que seus valores são bem distintos dos nossos valores. Talvez esteja julgando o que não possa ser julgado. Talvez sejam apenas pessoas simples que se comportam de forma diferente perante a dor. Querem uma lembrança boa do que perderam.

Fica a pergunta, para reflexão, a quantidade de dinheiro, a instrução determinam o apego, o amor aos filhos? As lágrimas das classes sociais são diferentes em seu conteúdo?

*Artigo publicado originalmente em 12 de outubro de 1996.

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