
Lula só teme a guerra
Em conversas reservadas com alguns prefeitos, o presidente Lula respondeu a uma pergunta que muitos petistas, exceto os radicais, guardam calados: por que o governo elevou por conta própria o superávit primário? Porque tudo indica que a guerra vem aí, e devastará as economias mais frágeis. Com a medida, o Brasil reforçou suas reservas de confiança, explicou, ressalvando que, afora a guerra, está plenamente confiante nos rumos do governo.
A trégua que a direção do PT e o próprio presidente vêm buscando com o partido e aos aliados, em relação ao continuísmo da política econômica, ali foi concedida e resumida na frase do prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, expoente da chamada esquerda petista: “A paciência também é revolucionária”.
Paciência foi o que Lula pediu, tanto na fala de abertura do encontro (a que, como no de presidentes regionais, compareceu de surpresa) como nas conversas ao pé do ouvido que teve com os mais próximos durante o almoço, nas quais deu mais explicações sobre a política do ministro Palocci:
1) Nos próximos seis meses, terá que ser assim mesmo. Se vier a guerra, talvez por mais algum tempo. Depois, estarão criadas as condições para a mudança gradual e segura.
2) A guerra pode produzir uma brutal fuga de capitais. Com a elevação da meta de superávit, o Brasil buscou uma vacina, ampliando a confiança e a credibilidade do governo.
3) Ainda assim, o contingenciamento de R$ 14 bilhões não se deve inteiramente ao aumento da meta de superávit, mas em sua maior parte à subestimação de despesas pelo governo anterior.
4) Até o fim do ano, se tudo correr bem, os recursos podem ser descontingenciados, inclusive as emendas de parlamentares (que beneficiam diretamente os municípios).
5) O PT está desafiado a ser criativo. Que todos trabalhem em vez de reclamar e arregacem as mangas para aprovar as reformas.
Mas, pelo menos com uma questão, petistas e aliados não devem ser tão pacientes. A do salário-mínimo, que a equipe econômica quer elevar para R$ 234. O senador petista Paulo Paim gritou ontem mesmo que é possível elevá-lo para R$ 240. Agora virá o coro do Congresso.
Reativado, o cineminha do Alvorada só passa filme-cabeça. Sábado, Lula, Marisa e amigos viram o iraniano “A cor do paraíso”. Domingo, “O filho da noiva” e ontem, “Deus é brasileiro”.
Graziano: nós e eles
A oposição desses dois pronomes emerge sempre em situações pautadas por preconceito, racismo, radicalismo ou intolerância. Por tê-la usado, o ministro José Graziano, de Segurança Alimentar, foi tão chocante ao dizer que se a miséria continuar, “eles” (os pobres, os migrantes, os nordestinos) continuarão chegando e “nós” (os ricos? os sulistas?) continuaremos usando carros blindados. O presidente Lula, em conversas reservadas, demonstrou imensa contrariedade com “mais essa” dor de cabeça causada pelo ministro.
O episódio guarda alguma relação com o que envolveu o embaixador Ricupero, em 1994, ao ter uma conversa captada por uma antena parabólica. Ministro da Fazenda, admitia que o governo mostrava o que era bom e escondia o que era ruim. Fernando Henrique disputava a Presidência com Lula. Ricupero demitiu-se e pediu desculpas públicas.
Graziano é um humanista e tem sinceras preocupações sociais. Mas, em sua retórica de convencimento sobre a necessidade do programa Fome Zero, deu eco ao preconceito. Sinal de que ele existe: a coluna recebeu muitos e-mails em defesa do ministro, por ter dito anteontem que ele ofendeu a origem do próprio presidente. E um número não menor de mensagens condenando “a hipocrisia dos que negam óbvio”: que a violência urbana cresce à medida que migrantes pobres incham a periferia das grandes cidades.
Em defesa de Benedita
As áreas jurídicas do governo quebram a cabeça procurando uma brecha legal que permita à Advocacia Geral da União fazer a defesa da ministra Benedita da Silva. Ela enfrenta processo movido pela governadora Rosinha Garotinho, que a acusa de violação da Lei de Responsabilidade Fiscal. Benedita, governadora por nove meses, alega ter recebido de Anthony Garotinho um estado em situação de calamidade financeira. Não poderia fazer milagres. Mas não será fácil achar a brecha. Benedita, naquele tempo, não tinha qualquer vínculo com o governo federal.
DEPOIS dos tucanos, hoje são os governadores do Centro-Oeste que se reúnem para discutir as reformas, em torno do churrasco oferecido por Zeca do PT (MS). Eles entregarão a Lula um documento prometendo mobilizar suas bancadas para aprovar as reformas, mas contrapondo alguns pedidos. Um deles, a desvinculação das receitas dos estados, que gastariam 68% delas com o Judiciário, o Legislativo e os municípios. Querem ainda um fundo federal para investimentos públicos na região. Isso, todas querem.
PARABÉNS ao povo do Espírito Santo, que finalmente resgatou o Legislativo do estado, capturado por políticos aliados ao crime organizado.
Tereza Cruvinel