
Bairros João Eduardo I e II relembram
22 anos de luta do líder comunitário
Duas décadas depois de sua
morte, comunidades
pedem socorro e melhores condições de moradia
Depois da expulsão dos seringueiros pelos fazendeiros acreanos no final da década de 70, centenas de trabalhadores desempregados vieram do interior dos seringais em busca de novas oportunidades na cidade. Rio Branco começou a crescer, e terrenos abandonados foram se transformando em terras de invasão abrigando famílias inteiras que afluíam para a periferia da cidade com o objetivo de reconstruírem suas vidas.
A disputa pelas terras trouxe conflitos, e desses conflitos, alguns nomes se destacaram na liderança daqueles que lutavam pela sobrevivência urbana. João Eduardo, pedreiro de profissão e homem de pouca formação foi um desses líderes. Por alguns anos, ele militou no movimento social tendo apoio das comunidades eclesiais de base, junto com outros companheiros.
Era a época em que os grupos de moradores se reuniam para evocar as angústias, as dificuldades, o desemprego e a falta de saneamento básico ao qual eram submetidos. Mas por fazerem parte de um grupo que batia de frente com os interesses dos proprietários das terras, os líderes desses movimentos foram duramente perseguidos e após anos de luta e embates, João Eduardo foi cruelmente assassinado no dia 18 de fevereiro de 1981. Na próxima terça-feira completam 22 anos do acidente.
INFLUÊNCIA - Mas mesmo após duas décadas de sua morte, a memória dessa figura histórica ainda é capaz de reacender mobilizações populares que reivindicam melhores condições de moradia nos bairros periféricos da capital.
Nos bairros que levaram o nome do líder seringueiro a data será lembrada num grande encontro com a comunidade. Nos bairros João Eduardo I e II, um seminário sobre políticas públicas está sendo organizado pelas representações das associações de moradores, enfocando referências sobre o passado de luta que deu origem àquela região e discutindo propostas para novas mobilizações populares.
ABANDONO – “Temos que reavivar o movimento social tão fragilizado de hoje. Essa é a única forma de alcançarmos respostas públicas à situação de abandono e total falta de infra-estrutura que continuam as mesmas desde a formação desses bairros”, afirmou o presidente da associação de moradores do João Eduardo II, Francisco das Chagas.
Moradores exigem melhorias urgentes à prefeitura
Passados mais de duas décadas desde a formação dos bairros João Eduardo I e II, os antigos matagais onde hoje abrigam cerca de 8 mil moradores, ainda estão em situação de precariedade.
“Falta água em vários pontos. A falta de saneamento básico faz com que córregos de esgotos transitem pelas ruas dos bairros. Praticamente não existem ruas asfaltadas. Existem ruelas e ruas que são verdadeiros matadouros porque estão tomadas pelo mato”, afirmou o representante da associação do bairro João Eduardo I, Antônio Aveleiro.
A moradora Risoneide Mourão da Silva, de 23 anos, mora com a filha e o marido num pequeno casebre de madeira. Nos quatro anos que ela se mudou para o bairro, já foi assaltada quatro vezes. O motivo é o mesmo que desencadeia uma série de outros focos de violência no bairro: a inacessibilidade das ruas pelas polícias.
“Já me acostumei a escutar brigas e às vezes até tiros aqui pelas redondezas. À noite, nem eu nem minha filha saímos de casa à noite sozinhas. Infelizmente não dá mais”, lamentou a moradora que mesmo sem conhecer a história do personagem que deu origem ao bairro em que mora, reconhece a importância da união da comunidade em prol das melhorias no local. “Eu acredito que se a gente se unir e pedir mudança, a gente pode conseguir”.
Segundo o presidente do João Eduardo II, o bairro foi contemplado nesse ano pela segunda vez no Orçamento Participativo, mas até agora nenhuma obra prevista para o ano passado foi concluída. “As demandas sociais pedem por respostas, poderemos dar um passo adiante discutindo o movimento de 20 anos atrás”.