
Beneilton Damasceno *
Convido o paciente e sensível leitor a, junto comigo, analisar o seguinte intróito, cuidadosamente extraído de uma composição musical moderna e há alguns meses no topo do hit parade nacional. Lá vai: Se tem uma coisa/Que me deixa passada/É gritar comigo/Sem eu ter feito nada...”.
Copiou? Poizé! Oxalá esse sensível e paciente leitor esteja há pelo menos três décadas comendo poeira nessa longa estrada da vida, para poder me emprestar um grama de razão quando eu declaro, e repito, que a decantada música popular brasileira, tipo exportação, parece haver entrado num irreversível processo de “babacalização”.
Ainda assim, a despeito da falta de criatividade do idealizador da canção acima, e como ninguém tem o direito de reivindicar a perfeição dos outros, cabe aqui um modesto desconto ao esforço da intérprete, que vem agradando crianças e marmanjos menos pela competência vocal e mais pelos atributos estéticos, que a mídia explora com volúpia nessa competição pela audiência. Os defensores da nova cultura podem, contudo, alegar a mensagem lúdica, inofensiva, o ritmo alegre, uma linguagem simples e benfazeja aos tímpanos menos exigentes... Olha, pode até ser, só que eu prefiro parar por aqui antes que alguém me acuse de estar discriminando a livre manifestação do pensamento. Mas não retiro o que disse!
Companheiros, longe de me atribuir o mais presumível mérito, sinto-me desejoso de afirmar que cresci (ou melhor, envelheci) ouvindo João Gilberto, Chico Buarque, Caetano, Elis, Bethânia, o novo ministro da Cultura de Lula, Fagner, os Beatles e os Rolling Stones. E mais uma penca de gente capaz de pensar sem perder a razão. Época dos festivais, que a televisão exibia em preto-e-branco e que o acreano só tomava conhecimento por meio do rádio e das revistas, que desembarcavam com meses de atraso. Tecnologia zero. Uma eletrola de “alta fidelidade”, cem por cento manual, reproduzia o LP e o compacto. As “modinhas” eram poesias, cheias de profundidade, de harmonia, de emoção, de pureza. E olha que não faz esse tempão todo que muitos ironicamente ameaçam supor.
Daí, leitor, a minha indignação quando, no último domingo, uma famosa emissora de TV gastou a tarde inteira para transmitir ao vivo a todo o país o show de uma dupla emergente que acaba de estourar com a obra-prima “Egüinha Pocotó”, uma mistura de nada com nada mesmo. Quase tive um troço ao ver o frenesi do auditório acompanhando os trejeitos de um dançarino de nome “Lacraia”, rascunho de gente que mais parece uma serpente com cara de hiena. Aí, meu filho, nem garapa de açúcar deu jeito. Para completar o desaforo, o apresentador anunciou, orgulhoso, que o dueto já está na lista dos cotados para ganhar o disco de ouro. Sem falar nos CDs piratas que andam fazendo a festa nos camelódromos de norte a sul do Brasil varonil. É, o negócio é sério, meu povo...
Voltei a recordar os meus velhos amigos da MPB. Tirante dois ou três privilegiados, creio que poucos tiveram o encanto de comemorar mais de cem mil cópias de “bolachão” vendidas. Ainda hoje são lembrados, mesmos pela garotada deste século vinte e um, como paradigmas de uma era que marcou a epopéia literário-musical brasileira. Já sessentões, a maioria vive. Um ou outro ficou rico. E foi só. Com senso crítico apurado, decerto eles têm, melhor do que eu, opinião formada sobre esse movimento anticultural e avacalhado a que lamentavelmente chegou a música mais apreciada do mundo.