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Rio Branco - Acre, sábado, 15 de fevereiro de 2003

Tempestade abre esgotos
e água invade bairros da capital

Ruas inteiras ficaram submersas, no centro e na periferia

Josafá Batista

Um pé-d’água com duração aproximada de quatro horas destampou os bueiros no centro de Rio Branco e impediu a ida ao trabalho de centenas de pessoas. Ruas inteiras foram tomadas pelas águas, inclusive no centro, onde a rede de drenagem mais uma vez não colaborou e literalmente regurgitou toda a água, detritos, animais mortos, embalagens e restos de comida há muito estocados.

O trânsito atrapalhou-se nas vias de maior tráfego, como as avenidas Getúlio Vargas, Ceará, Marechal Deodoro e Quintino Bocaiúva. O desespero era visível nos olhares dos motoristas que tentavam ultrapassar o mar de lama formado nas imediações de locais como o Hipermercado Dayane, 7º BEC, baixada do Tangará e boate Lua Azul.

Já em bairros como a Baixada da Cadeia Velha, Invasão da Embratel, Cidade Nova e Santa Terezinha o terror também imperou, mas por outro ângulo. Esses locais, sem rede de esgoto, possuem alguns pontos que ameaçam desabar a todo o momento.

“Tivemos que sair de casa e esperar a chuva passar. Há três anos vivemos nesta situação e até hoje a prefeitura não fez nada. Eles não respeitam as pessoas”, desabafou Raimunda Oliveira Fernandes, 37, tentando retirar, com um braço, um móvel pesado da casa invadida pela água enquanto, no outro, carregava o filho de oito meses todo molhado.

ABANDONO - Cenas assim integram um caos urbano que se repete na capital toda vez que cai uma grande chuva. O trânsito, o medo, a indignação e principalmente o tremendo aguaceiro que literalmente submerge centenas de ruas inteiras, aterrorizando moradores de áreas mais planas, evidencia o abandono da prefeitura e principalmente o mau planejamento urbanístico da capital.

Crianças e adultos podem contrair doenças

Durante toda a manhã os irmãos Ana Carla, 9, e Lucas Lima, 7, ajudaram os pais a transportar os poucos pertences da casa onde moram, na parte baixa do bairro Tangará, para um pequeno quarto emprestado por um amigo do pai. No final da árdua tarefa, um descuido e um prego, remanescente de uma pequena reforma, perfura o pé esquerdo de Lucas.

O buraco é pequeno, mas suficiente para preocupar a família. “Será que vai dar tétano?”, alguém cogita. Mas agora não há tempo. Nem disposição. O menino e a menina estão exaustos. Dentro da água turbulenta, o fio avermelhado de sangue acompanha o menino, que, mancando, acompanha a mãe. Somente amanhã, diz, procurará o posto de saúde. “É só passar noda de banana que fecha”, diz, apontando para o membro estropiado.”

Lucas não tem escolha. Ele, a irmã, a mãe, o pai e o avô devem sair da zona de perigo. O bairro onde moram não tem rede de esgoto, mas, em compensação, uma cratera no quintal ameaça arrastar a casa a qualquer instante.

A chuva, para essas comunidades carentes, acaba sendo uma oportunidade de ouro - irrecusável - para abandonar um risco que há muito poderia ser resolvido. Bastava uma pequena obra da prefeitura.

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