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Rio Branco - Acre, sábado, 15 de fevereiro de 2003

Companheiro de Chico Mendes,
doente e inválido, pede justiça

Seringueiro baleado durante empate no seringal Cachoeira passa necessidades com a família no pólo de Xapuri

Flaviano Schneider

Chico Mendes foi assassinado em dezembro de 1988 e virou mártir do movimento pela preservação da natureza, tendo seus parentes e dependentes diretos recebido apoio através da Fundação Chico Mendes, de maneira que todos ficaram amparados. Mas, pelo menos uma pessoa, participante direto daqueles acontecimentos que terminaram em tragédia, foi esquecida por todo esse movimento.

Trata-se de Raimundo Gomes da Silva, ex-seringueiro, hoje quase inválido para trabalhos braçais, baleado durante a ocupação da sede do IBDF (órgão que antecedeu o Ibama) em Xapuri, em ato de protesto do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, devido à ameaça de desmatamento do Seringal Cachoeira, fato acontecido em 1988 e que resultou na morte do grande líder seringueiro.

Raimundo mora hoje no polo agroflorestal do entroncamento, em Xapuri, com a esposa Elionete e os três filhos Edmundo, Edmaira e Edmaicol e está vivendo momentos muito difíceis porque não aguenta mais trabalhar no pesado. Como herança maldita da época, ainda hoje ele tem uma, das duas balas que o atingiram, encravada na perna direita. Ele explica que as balas que o atingiram segundo um médico atingiu nervos que acabaram se atrofiando e hoje provocam nele intensas dores por todo o corpo, impedindo-o de qualquer esforço físico.

Pressionado pelas dificuldades que vem enfrentando, Raimundo demonstra a tristeza de sentir-se esquecido. Ele diz que nunca procurou apoio na Fundação Chico Mendes, pois a entidade foi feita mais para proteger a família do Chico Mendes. Mas reclama do fato de que todas as pessoas que acompanharam os acontecimentos relacionados a Chico Mendes, hoje grandes autoridades no Acre e no Brasil, sempre souberam do seu caso, mas nunca se interessaram em ajudá-lo.

Ele quer ajuda primeiro para se tratar, para saber exatamente que tipo de mal o aflige que não pode mais fazer esforço físico.

Momentos decisivos da vida de Chico

Em 1988, as coisas andavam quentes em Xapuri. O fazendeiro Darli Alves queria fazer uma grande derrubada no Seringal Cachoeira onde dezenas de famílias ganhavam a vida cortando seringa e colhendo castanha. Um grande acampamento foi montado no Seringal e várias famílias de seringueiros se mobilizaram para o empate. Um grupo de seringueiros conseguiu argumentar com os operadores de motosserras para que parassem o trabalho até segunda ordem que viria de Rio Branco.

No entanto, o dono das terras conseguiu na Justiça o envio de um pelotão da Polícia Militar para proteger os derrubadores da mata.

MUDANÇAS - Foi então que aconteceu um fato épico da história acreana: Chico Mendes conclamou a todos para uma caminhada, com o dia clareando, no rumo do palco da derrubada. Um grupo de mais de 100 pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças tomaram o rumo cantando o Hino Nacional Brasileiro e lá já os esperavam um grupo de 45 Pms, comandado pelo sargento Farias.

A lama da estrada quase impedia a caminhada que durou mais de uma hora. Pouco antes de chegar ao local da derrubada, o grupo de seringueiros deparou-se com os PMs, fortemente armados fazendo um muro humano. Chico Mendes que vinha à frente do grupo fez um sinal. Todos pararam e ele decidiu ir sozinho ao encontro da PM.

Do lado da PM, o sargento Farias fez o mesmo adiantou-se em relação à tropa para dialogar com Chico Mendes. Do diálogo entre os dois surgiu o entendimento. O desmate não prosseguiu e o grupo retornou ao acampamento enquanto a polícia permaneceu no local até o dia seguinte.

No meio da turma de seringueiros estava Raimundo, então um jovem de 17 anos, entusiasmado participante de todos os empates promovidos por Chico Mendes. No retorno ao acampamento uma assembléia dos seringueiros decidiu para os dias seguintes a ocupação da sede do IBDF.

BALA - Foi na primeira noite em que Raimundo dormia na varanda da sede do IBDF quando aconteceu o atentado à bala contra os trabalhadores. Segundo comentários da época dois rapazes passaram de moto em frente à sede, quando quase todos já estavam dormindo, atirando contra a sede saindo feridos além de Raimundo, o seringueiro Manoel Santana que levou 7 tiros mas sobreviveu, embora hoje não se saiba seu paradeiro.

Raimundo lembra-se bem que o próprio Chico Mendes o acompanhou até Rio Branco e quando pôde retornar a Xapuri ficou mais de um mês convalescendo na casa do líder.

Extrativista desde criança

Raimundo conta que nasceu e se criou no seringal. Desde os 16 anos é filiado ao STR e no Seringal Cachoeira trabalhava cortando seringa para um posseiro com várias estradas. Na época, ele reconhece, não entendia bem a dimensão da pessoa e da luta de Chico Mendes, mas participava entusiasmado dos empates, pois compreendia que os fazendeiros atentavam contra sua sobrevivência e a de seus familiares.

Depois que foi baleado, depois do tratamento e de sua volta a Xapuri, como era jovem jamais imaginou que o fato fosse lhe trazer sequelas futuramente. Ela ainda cortou seringa durante 7 anos mas teve que abandonar pois os nervos atingidos já começavam a mostrar sinais de deterioração.

ÊXODO - Foi então tentar a sorte algum tempo com agricultura mas devido à falta de condições físicas mudou-se para Xapuri onde, sem emprego e tendo que pagar aluguel, não viu condições de se manter e acabou no polo agroflorestal do Entroncamento.

No polo, Raimundo considera que seria o local ideal para viver, desde que tivesse saúde, já que lá embora não seja dono da terra poderia viver nela para sempre e não precisa pagar aluguel.

MUDANÇA - Depois da morte de Chico Mendes o seringal Cachoeira acabou desapropriado e dividido entre seus posseiros recebendo cada um a área relativa às estradas de seringa que explorava, inclusive o tio de Raimundo. Hoje são 70 colocações, algumas habitadas por mais de uma família e sobrevivendo ainda da seringa, da castanha e da novidade, a exploração madeireira sustentável.

ABANDONO - Somente Raimundo ficou abandonado, sem direito a uma colocação - o que hoje também não o ajudaria – sem direito aos benefícios que tiveram os dependentes de Chico Mendes, impossibilitado de trabalhar. Sua perna com a bala encravada, as roupas usadas naquele dia, até hoje guardadas e ainda manchadas do sangue que derramou na batalha junto com Chico Mendes são as lembranças mais chocantes que ficaram.

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