
Projeto Poronga faz hoje
formatura de primeira turma no Acre
Programa que acelera a aprendizagem
escolar traz
hoje o diretor-presidente da Fundação Roberto Marinho
Para muitos estudantes brasileiros a formatura é a conclusão de um período escolar. Um momento de festa, comemoração por mais uma etapa vencida. Mas para os 2.630 alunos que concluíram o Ensino Médio pelo Projeto Poronga, esse evento é muito mais repleto de significados. Ele representa uma vitória de quem já esteve sem total perspectiva de estudo e o reconhecimento daqueles que acreditaram em seu potencial.
Hoje, logo mais às 16 horas na sede campestre do Sesc, acontecerá a formatura desses alunos que acreditaram numa iniciativa inovadora do governo do Estado. Numa parceria da Secretaria de Estado de Educação com a Fundação Roberto Marinho (cujo diretor-presidente, José Roberto Marinho, está em Rio Branco para prestigiar a solenidade de diplomação), o Projeto Poronga teve início em março do ano passado e implantou uma metodologia de ensino para aceleração dos estudos de 5ª a 8ª série com alunos que estavam em situação de distorção idade-série, ou seja, com idade avançada para a série que cursavam.
Até o começo do ano passado, 52,33% dos alunos matriculados no Ensino Fundamental da rede estadual apresentavam idade superior a que deveriam ter na série em que estavam matriculados, índice considerado um dos mais altos do país. Todos os alunos têm em comum a propensão à repetência, e conseqüentemente, à evasão escolar.
Diante desse quadro, a secretaria de Educação do Estado decidiu trabalhar a correção da defasagem das idades escolares em parceria com a Fundação Roberto Marinho, trazendo uma metodologia que já vem produzindo bons resultados em outros Estados.
Através do projeto, os alunos são estimulados a prosseguir nos estudos, através da recuperação da auto-estima, da cidadania, oportunizando a conclusão do ensino fundamental em um ano e possibilitando a continuidade do aprendizado no Ensino Médio a partir do próximo ano.
ESTRUTURA - Com a parceria, foram instaladas 105 telessalas em 23 escolas urbanas de Rio Branco. “Uma das principais metas do projeto era elevar a auto-estima de alunos e professores através de uma prática pedagógica que valorizasse o diálogo, a participação e a cooperação entre todos”, afirmou a coordenadora do projeto no Estado, Rosa Braga.
Com o sucesso do primeiro ano do projeto, neste ano a Secretaria de Educação pretende dar continuidade às atividades e ampliar os cursos para o Ensino Médio.
Metodologia que forma cidadãos
Segundo os coordenadores e professores do Projeto Poronga, as aulas ministradas para os alunos ao longo dos meses foi diferente da aula habitual onde o professor se limita a transmitir seus conhecimentos. Nas aulas, os estudantes são estimulados pelos professores a resgatarem e desenvolverem sua auto-estima, praticarem a cooperação, a solidariedade, o companheirismo e a liderança.
“Nossa metodologia de ensino pretende formar mais do que simples estudantes. Pretendemos formar cidadãos que sejam capazes de se expressarem, de se articularem e terem novas idéias”, disse a coordenadora do Projeto pela Fundação Roberto Marinho, Célia Farias.
Toda a metodologia de aula e material didático do Projeto Poronga é promoção da fundação Roberto Marinho, enquanto que a secretaria de Educação ficou responsável por oferecer a estrutura e os profissionais do Estado para ministrar as aulas. Todos os educadores receberam acompanhamento de uma equipe da fundação periodicamente para capacitá-los para as aulas e inseri-los na metodologia do projeto.
As salas de aula na verdade são chamadas de telessalas e são equipadas com TV e videocassete. Os alunos receberam gratuitamente as apostilas, dicionários, livros paradidáticos e materiais complementares. Toda metodologia é baseada no programa do Telecurso 2000. As seis disciplinas do curso foram divididas em três módulos diferentes, e artes e esportes ficaram sendo atividades interdisciplinares.
“Ao final das aulas, os alunos costumavam fazer uma análise diária sobre como tinha sido o dia pra ele na sala. Uma espécie de diário de bordo. Os professores também faziam isso. Dessa forma, todos podiam avaliar juntos o aproveitamento do dia”, explicou Rosa Braga.
Professora dá exemplo e inova
na metodologia de ensino
Historiadora pós-graduada em psicopedagogia, Débora Raquel, até agosto do ano passado, dava aula para uma turma de estudantes secundaristas de um colégio particular e acadêmicos de uma faculdade particular de Rio Branco. Um dia, surgiu uma proposta para ela substituir um professor num projeto da secretaria de Educação. Ela teria que assumir uma classe de alunos de diferentes idades e históricos de vida.
Ela aceitou o desafio e, depois de meses de dedicação e empenho, tornou-se uma das profissionais de maior destaque pelo trabalho que desenvolveu com a turma de alunos no Projeto Poronga.
“No começo fiquei entusiasmada porque achei uma proposta diferente, inovadora. Mas confesso que também fiquei preocupada porque tive que trabalhar com comportamentos diversos em sala de aula. Eram alunos que não tinham disciplina ou noção de responsabilidade”, relembrou Débora.
E foi com diálogo, cobrança e companheirismo, que ela alcançou o sucesso no desempenho dos alunos. Além disso, uma metodologia pedagógica diferenciada reforçou a qualidade de ensino, fazendo com que dos seus 29 alunos, 25 farão a formatura hoje, e os outros quatro pediram transferência, adoeceram ou desistiram.
Entre as novidades das aulas, Débora montou um júri popular em sala, onde os próprios alunos fizeram o julgamento de Getúlio Vargas para saber se ele foi mesmo um grande administrador do país ou não. Ele foi absolvido.
“É muito importante fazer com que os alunos tirem suas próprias conclusões da história, do seu aprendizado. Isso o faz pensar, refletir. Acho que o maior sucesso de um professor em sala de aula está quando ele busca alcançar o aluno sem ser autoritário”, argumentou a historiadora.
Projeto deu oportunidade
para quem apostou na mudança
Filha mais velha de uma família de sete irmãos, Adriana Lopes Maciel veio do município de Boca do Acre, quando ainda tinha 13 anos, para conseguir um emprego na capital acreana e poder ajudar na renda de casa. Aqui ela pôde dar continuidade aos seus estudos que já estavam atrasados, mas quando sua mãe adoeceu, largou tudo para acompanhá-la em casa.
Hoje, aos 17 anos, ela já está trabalhando numa casa de família e se prepara ansiosamente para a primeira festa de formatura de sua vida que só foi possível graças ao seu empenho e à oportunidade oferecida pelo Projeto Poronga.
“Estou esperando por um momento mágico. Todas as aulas foram maravilhosas, diferentes e eu me sentia participando de tudo aquilo. Achp que mais do que conhecimentos, eu aprendi a me relacionar melhor com as outras pessoas”, disse.
Já matriculada no Ensino Médio numa escola da rede estadual de ensino próxima à casa onde trabalha, Adriana sonha em um dia se formar em veterinária. “Nunca desisti dos meus estudos e pretendo continuar sempre pensando assim”.
Números do Projeto Poronga:
2.630 alunos concluíram o Ensino Fundamental em
janeiro deste ano
Foram 105 Telessalas em 23 escolas da zona urbana de Rio Branco
80 horas foi a carga horária total de aulas
8 disciplinas repassaram os conteúdos didáticos para os alunos