
Expedição à Foz do Breu
“Navegando por um mundo melhor”
Elson Martins
A Expedição (à Foz do Breu) que deixou a cidade de Cruzeiro do Sul no sábado à noite, subindo o rio Juruá, acaba de chegar à boca do Juruá Mirim distante cerca de 120 km em linha reta do ponto de partida. O percurso, portanto, foi percorrido em cerca de 13 horas, o que é explicado pela sinuosidade dos rios amazônicos. O Juruá não foge à regra e vive em constante busca de um canal definitivo. O viajante percebe a toda hora o desbarrancamento (fenômeno da terra caída) com a conseqüente destruição de nacos da floresta densa numa das margens e a formação de praias do outro lado, que são cobertas por imbaúbas que futuramente serão substituídas por novas florestas densas.

O Lua Cheia percorreu 120 quilômetros
até a boca do Juruá-Mirim
Compõem a expedição o desembargador Arquilau de Castro Melo, que há quatro anos coordena o Projeto Cidadão no Acre, o jornalista Elson Martins, a jornalista, socióloga e escritora Maria Maia, o médico e presidente do Partido Verde Júlio Eduardo (Dr. Julinho), o paleontólogo Alceu Ranzi, o fotógrafo Edison Caetano, o engenheiro florestal Guilherme Andrade e o artista Marquesom Pereira da Silva, mestre em marchetaria. Viajam também duas mulheres encarregadas da cozinha e da limpeza, e quatro membros da tripulação do barco Lua Cheia, batizado com esse nome pela expedição em homenagem à lua que vem facilitando a navegação noturna..
A viagem orçada em R$ 6 mil está sendo bancada pelo próprios expedicionários com alguns apoios importantes, entre os quais o da Global Star do Brasil, que forneceu dois aparelhos permitindo que a equipe mantenha contatos com parentes e sobretudo com a imprensa via Internet. A Contil Informática, por sua vez, criou e disponibilizou uma página para divulgação do dia a dia da expedição. Também o Governo do Estado e o Posto Amazônia colaboraram, assim como várias pessoas de Cruzeiro do Sul que entusiasmadas com a idéia ajudaram emprestando aparelhos eletrônicos e oferecendo apoio logístico ao pessoal embarcado.
A expedição que tem previsão de durar 13 dias deverá chegar esta tarde a Porto Walter, a segunda cidade após Cruzeiro do Sul (a primeira é Rodrigues Alves) e sede do município de mesmo nome. Está previsto um pernoite e uma visita, na segunda-feira, a dois lagos piscosos da região. A parada seguinte será em Thaumaturgo, sede de um outro município, onde a expedição poderá receber novos e influentes integrantes: o governador Jorge Viana e o vice Arnóbio Marques (PT), os senadores Tião Viana (PT) e Geraldinho (PSB), além do deputado estadual Edvaldo Magalhães (PC do B) que sairiam de avião de Rio Branco e prometem embarcar para cumprir o último trecho até a Foz do Breu.
O mentor da viagem, desembargador Arquilau de Melo, explica a expedição como uma forma de conhecer os problemas da região e chamar a atenção da imprensa para as riquezas e potencialidades do Acre. É com essa intenção que a equipe passará um dia na aldeia dos índios Ashanika, localizada acima da cidade de Taumaturgo no rio Amônia. O desembargador defende que vale a pena mergulhar na acreanidade aprofundando os conceitos de povos da floresta e florestania.
O Juruá não é um rio comum. Antes da colonização européia, abrigava grupos indígenas com alto nível de organização, como os Ashanika que sobreviveram e são respeitados por sua cultura e tradição. É também um rio que desde o começo do século passado tem contribuído com valioso acervo paleontológico que se encontra fragmentando em museus do país e do exterior. Aqui foi encontrado um fóssil do Purussaurus, jacaré gigante identificado pelo cientista norte-americano George Simpson em 1956. O paleontólogo Alceu Ranzi, que integra a expedição, já fez várias coletas de fósseis que ajudam a elucidar enigmas da ocupação da Amazônia.
O dia a dia dos expedicionários no Lua Cheia tem sido enriquecedor de muitas formas: alem da camaradagem e do nível de preocupação cultural que predomina no barco, e das observações sobre as matas que margeiam o rio, tem o contato com os ribeirinhos que transitam para cima e para baixo, em batelões ou canoas, com muita sabedoria e solidariedade. Cada conversa com esse pessoal resulta em aprendizado e, sobretudo, esperança em que será possível construir com eles um mundo melhor.