
Rodrigo Baggio
Mensageiro da inclusão digital
ALTINO MACHADO
O carioca Rodrigo Baggio, 33, coordena a organização não-governamental Comitê para Democratização da Informática (CDI) que, desde 1995 desenvolve o trabalho pioneiro de promover a inclusão social utilizando a tecnologia da informação como um instrumento para a construção e o exercício da cidadania.
Através das Escolas de Informática e Cidadania (EIC), o CDI desenvolve programas educacionais no Brasil e no exterior, com o objetivo de mobilizar os segmentos excluídos da sociedade para transformação de sua realidade.
O CDI está presente em 11 países e em 19 estados brasileiros. Possui 754 escolas de informática e cidadania, por onde já passaram 339 mil alunos de baixa renda. Possui, ainda, 905 voluntários e 1.508 educadores de informática envolvidos.
A história do CDI se confunde com a história de Rodrigo Baggio, que certa noite teve um sonho no qual jovens de baixa renda tinham acesso à informática.
Baggio, que fez daquele sonho um compromisso, esteve no Acre no final da semana passada para uma reunião com o vice-governador Arnóbio Marques.
Acertaram detalhes para que em breve surjam no Acre as Escolas de Informática e Florestania.
Leia os melhores trechos da entrevista:
Como começou o trabalho do Centro de Democratização da Informática?
O trabalho do CDI tem muito a ver a com a história da minha vida. Quando tinha 12 anos, comecei a trabalhar como voluntário com os meninos de rua e me apaixonei pelo trabalho social. Nesse período, ganhei de meu pai um computador da primeira linha que entrou no país. Fiquei também apaixonado por tecnologia. Essas foram duas paixões que permearam minha adolescência.
Depois disso, o que aconteceu?
Depois trabalhei numa multinacional e em seguida montei a minha própria empresa. Na empresa não tinha mais nada o que fazer. Era só vender e vender os produtos. Isso não estava me dando satisfação. Sabia que faltava alguma coisa em minha coisa em minha vida, mas não sabia o que era nem o que fazer. O ano era 1993, eu estava com 23 anos de idade e minha empresa estava firmada no mercado. Até que numa noite daquele final daquele ano eu tive um sonho, literalmente: vi jovens pobres que usavam computadores. Eles discutiam a realidade e buscavam soluções para os problemas deles com o uso da tecnologia.
Qual foi a sua primeira iniciativa para tornar realidade o sonho?
Não falei do sonho para ninguém. O sonho para mim foi importante porque me fez assumir um compromisso. Tive a iniciativa de criar uma rede para conectar jovens ricos e pobres à internet, mas constatei a existência apenas de jovens de classe média alta e ricos, o que não o objetivo. Logo percebi que jovens pobres não conectavam e comecei no país uma primeira campanha de doação de computadores. Até julho de 94, quando fiz uma avaliação nas favelas, percebi que os computadores estavam até sendo bem utilizados, mas não em todo o potencial porque não havia uma cultura do uso da tecnologia. Daí surgiu a idéia da criação de uma escola de informática e cidadania. Em março de 95, inauguramos a primeira escola de informática e cidadania. Isso mereceu divulgação e começaram a surgir voluntários, o que nos motivou a fundar o CDI como a primeira ONG na área de inclusão digital da América Latina.
O sonho então se tornou realidade e não pára de crescer. Quantas escolas existem hoje?
Temos 754 escolas de informática e cidadania; são mais de 339 mil pessoas de baixa renda que aprenderam informática e cidadania conosco, temos 905 voluntários, 1.508 educadores de informática, isto é, 1.508 pessoas que são remuneradas para trabalhar em benefício de suas próprias comunidades.
As populações de baixa renda vão continuar sendo excluídas ou o processo de inclusão será mais forte?
Os dados não são nada animadores. Nos EUA, 54% dos norte-americanos acessam a internet; na Europa, um em cada três europeus e na América Latina, 3,4% da população acessa a internet. No Brasil, 12,5% têm acesso a computadores e apenas 8% acessam a internet. A situação de excluídos tecnológicos é muito séria. São pessoas que estão à margem de tudo que o novo conhecimento traz.
A inclusão digital e inclusão social ainda têm um longo caminho a percorrer?
Vejo que as pessoas hoje estão falando mais na inclusão digital. Foi a partir de 2000, no Banco Mundial, que as pessoas passaram a falar em inclusão digital. Existem pouquíssimas de qualidade nesse sentido e elas precisam ser potencializadas.
Existe esperança de que agora, no governo Lula, essa questão seja tratada melhor?
Vejo que no governo FHC foram criados alguns projetos de inclusão digital que não foram para frente. As escolas de informática criadas na linha do CDI são auto-sustentáveis e autogeridas. Elas não dependem do governo, empresa ou ONG. São escolas que geram a sua própria renda. As pessoas da comunidade inserem conteúdo e cuidam da gestão. Elas protegem a escola. Os projetos do governo costumam ser bonitos, com computadores e ambientes maravilhosos, mas sem a vinculação com a comunidade. O novo governo, além de trazer esperança, traz comprometimento com a causa social. O novo ministro das Comunicações já anunciou que uma de suas prioridades é a inclusão digital.
Qual o interesse de Bill Gates na inclusão digital?
Tem interesse no marketing social que é preciso fazer. Durante dois anos tentei falar com alguém da Microsoft no Brasil e nunca consegui. Certa vez, ao receber um prêmio em Washington, me convidaram para fazer uma palestra. No final, um senhor alto, de idade, veio falar comigo. Era o pai do Bill Gates. A partir desse contato, nós já recebemos mais de US$ 5 milhões em software. Foi a maior doação da Microsoft em software para uma ONG na América Latina, África e Ásia. Mas também trabalhamos com software Solaris, da Sun MicroSystem; com Star Oficce, da IBM, e com Linux, através da Conectiva. Nesse ponto, o CDI se posiciona pró-liberdade de escolha do usuário.
Como o Acre entra nessa história e quais as perspectivas?
Estamos ainda numa fase de planejamento e discutindo a possibilidade efetiva de a gente estar presente no Acre. Nós já estamos presentes no Pará e no Amazonas, trabalhando com populações ribeirinhas. O CDI hoje está em 19 estados brasileiros, 11 países e três continentes. Nós sempre adaptamos nosso trabalho à realidade de cada local. No caso do Acre, estaremos criando as nossas escolas de informática e florestania.
Possibilitar acesso de jovens de baixa renda à informática já mudou a vida de muita gente?
Temos pesquisas que nos indicam que 87% dos nossos alunos, após a passagem pelas escolas de informática, disseram que a vida deles mudou para melhor. Isso significa, por exemplo, ocupar o tempo de forma produtiva, voltar a freqüentar a escola pública, conseguir emprego e sair do narcotráfico. Temos muitos exemplos assim. Nosso foco é trabalhar com jovens em situação de risco social.
Por que iniciativas como a do CDI dificilmente funcionam dentro de uma estrutura governamental?
A iniciativa acredita e aposta na sinergia, na força e no poder das parcerias, tendo à frente uma liderança da sociedade civil organizada.
O Governo da Floresta tem destacado a necessidade de ser reinventado. Na sua opinião, o que precisa ser melhorado no relacionamento do poder com a sociedade?
O diálogo é muito importante, mas não se pode querer reinventar a roda. O Brasil é respeitado pela quantidade de empreendedores sociais que possui. As soluções para problemas sociais já existem. O que o governo precisa fazer é identificar projetos sociais de sucesso, que tenham escala pequena, e investir na qualidade e dar mais escala. Dessa forma, em parceria com a sociedade, a gente pode pensar em projetos que vão sobreviver após governos. É importante que a sociedade planeje ações e os resultados de curto e longo prazos.