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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 20 de fevereiro de 2003

Coerência

A decisão do Copom foi coerente com a “Carta aos Brasileiros”, do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva; com a ata da reunião do Comitê em janeiro; com o discurso do ministro Palocci e com o do próprio presidente. Mas a elevação dos juros básicos em um ponto e meio nos primeiros 50 dias do novo governo deixa um travo de amargura em quem, quatro meses atrás, votou por mudanças.

O aumento dos juros e o arrocho que levou o recolhimento compulsório aos níveis de 1999 são tecnicamente irrepreensíveis no modelo de política econômica que o governo Lula decidiu seguir. De fevereiro de 2002 a janeiro deste ano, o IPCA acumula alta de 14,47%; o INPC, a inflação dos mais pobres, está em 16,33% nos últimos 12 meses. A inflação está em queda, é verdade, mas os índices ainda estão num nível muito alto em relação à meta determinada pelo governo, de 8,5% este ano, lembra o professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio.

Ainda que abra mão de alcançar o centro da meta, o Banco Central tem o dever de perseguir em 2003 uma inflação inferior aos 12,53% de 2002. Se o compromisso do governo com o sistema de metas fosse, de fato, sério e a autonomia do BC, verdadeira, a elevação dos juros seria conclusão óbvia e unânime, como foi.

A duração da reunião de ontem, bem maior que o habitual, sugere que a decisão foi dura. A elevação do compulsório sobre depósitos à vista foi opção a uma elevação maior da Selic — talvez em um ponto e meio ou dois — e um alento ao impacto dos juros sobre a dívida pública. Como demora um pouco mais para encarecer o crédito ao consumidor, tudo indica que o dinheiro pode continuar caro mesmo depois de a Selic, agora em 26,5% ao ano, começar a cair.

— Aos poucos, a desconfiança em relação à política econômica vai diminuindo. A decisão do Copom aumenta a credibilidade do mercado no compromisso do governo de derrubar a inflação — diz o economista Mário Mesquita, do ABN Amro Bank.

À confiança do mercado se opõe a desconfiança dos brasileiros comuns que esperavam ver os juros em queda, o crescimento econômico retomado, a recuperação dos empregos, a recomposição dos salários. Em vez disso, verão retração da economia em mais um ano duro para o Brasil.

— Essa nova subida de juros, apesar de redutora de consumo, terá pequeno alcance e será de curta duração. É uma solução não completa para solucionar o problema da inflação. A demanda já está muito reprimida para se conseguir reprimir ainda mais — completa o professor Istvan Kasznar, da Ebape-FGV.

A equipe econômica está correta ao eleger a inflação como principal inimiga e em tentar destruí-la a qualquer custo. Não há ônus mais pesado para as classes de baixa renda. Chancelar uma inflação de dois dígitos, que se aproxima perigosamente dos 20%, seria absurdo.

Mas para a mesmice macroeconômica ser bem digerida, a área social precisa tomar o centro do palco. E isso não está ocorrendo. O Fome Zero, por exemplo, prioridade declarada de Lula no Brasil e no exterior, até aqui é um programa modesto, que passa ao largo da unanimidade vista no Copom. Sem uma ação forte nessa área, vai ser difícil conter o fel.

Menos voadores na praça

A pesquisa nacional da Serasa em janeiro mostrou que o volume de cheques sem fundos caiu 1,3% em relação ao mesmo mês de 2002. Uma surpresa para muitos dos analistas, que esperavam aumento da inadimplência. Segundo o levantamento, foram devolvidos 14,3 cheques a cada mil compensados. Em janeiro de 2002, o número fora de 14,5 cheques. Na comparação com dezembro, o índice subiu 20,2%. A Serasa atribui o aumento tanto à sazonalidade (janeiro é sempre um dos meses campeões em cheques “voadores”), quanto ao alongamento dos prazos de aceitação de pré-datados no último Natal.

Quem te viu

Na Perfil Consultores, empresa de recrutamento de executivos, 45% dos pedidos de contratação são para as áreas de Relações Industriais e Recursos Humanos. Em todos os casos, é obrigatória a experiência em negociação sindical. O salário sobe se o candidato tiver atuado na região do ABC paulista, berço do sindicalista Lula.

Quem te vê

A primeira revisão do acordo com o FMI na era Lula deve terminar sem surpresas. Quem acompanha as reuniões conta que o Fundo está entusiasmado com a gestão macroeconômica do novo governo, em especial com o aumento espontâneo do esforço fiscal. E, depois do Copom de ontem, já não duvida da autonomia do Banco Central.

Sobe a estrela de Cassio Casseb, presidente do BB. Foi dele a indicação de Luiz Augusto Candiota para a diretoria do Banco Central. Os dois foram colegas no Citibank e no Banco Fibra.

OS MINISTROS Ciro Gomes, da Integração Nacional, e Dilma Rousseff, de Minas e Energia, visitam Carajás hoje. Vão conhecer a maior província mineral do mundo, que em 2002 ajudou a Vale do Rio Doce a registrar saldo de US$ 3 bilhões na balança comercial.

DO EX-PRESIDENTE DO BC Gustavo Franco, em seminário anteontem no Hotel Glória: “Qual a diferença entre os ministros Malan e Palocci?

paneco@oglobo.com.br
Flávia Oliveira (interina) com Débora Thomé
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