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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 20 de fevereiro de 2003

Acabou o recreio

Em qualquer país civilizado, um governo recém-eleito com mais de 60% dos votos desfrutaria de uma trégua política de pelo menos cem dias. Em menos de 50, PFL e PSDB já levantam suas armas e prometem um combate renhido ao governo Lula. Estão em seu papel, mas talvez tivessem retardado o início do combate se os primeiros tiros não tivessem partido do próprio PT.

“Esse é o primeiro efeito das críticas intempestivas de nossos radicais, que, ao trocarem o debate interno pela discussão em praça pública, liberaram a oposição e precipitaram a tensão no Congresso”, diz o deputado Paulo Bernardo (PR).

Liberada, a oposição ganha munição do próprio governo nos aspectos em que tem razão, como na demora a apresentar as propostas de reformas. E exercita a hipocrisia quando critica o que aplaudia como virtude no governo anterior. O aumento de juros de ontem, o segundo do governo Lula, funcionou como um excitante para pefelistas e tucanos. Mais uma medida amarga, com sabor continuísta, recessiva sem dúvida, contrária ao que PT pregava, com certeza. Qualquer governo deixaria de tomá-la se houvesse opção. Mas como o PT não compreendeu isso na época, vai apanhar muito nos próximos dias. O recreio então acaba antes da hora e, o que é pior, em má hora. Quando as circunstâncias parecem não deixar outro caminho, a curto prazo, ao ministro Antônio Palocci.

De outra natureza são os problemas decorrentes do comportamento de alguns ministros, movidos alguns por insegurança, outros por arrogância, outros por insensibilidade ou sabe-se lá por quê. O reflexo, de todo modo, é negativo sobre as bancadas, inclusive a do PT. A respeito, duas historinhas ilustrativas:

Uma: conhecido deputado do PT ligou diversas vezes para um ministro e não conseguiu ser atendido. A secretária garantiu ter dado o recado. Ele trocou de celular com um amigo e ligou de novo, deixando o número como sendo de um deputado do PFL. Teve retorno horas depois, no mesmo dia. Ele compreende a necessidade de buscar votos para as reformas fora da base, mas não a indelicadeza do ministro.

Outra, acontecida também com prestigiado deputado petista: numa ida do ministro Palocci ao Congresso, tentou abordar o secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, que lhe respondeu com um ríspido “agora, não, por favor”. O deputado queria apenas um documento não-reservado, a súmula de um seminário. Para consegui-lo, acabou recorrendo a um jornalista amigo, que o obteve na Fazenda.

Assim estão as coisas. Os radicais, poucos mas ruidosos, dão tiros a esmo. A oposição aproveita as dificuldades para demarcar seu território e minar a lua-de-mel ainda existente entre Lula e a sociedade. E os aliados, petistas ou não, engolem em seco para não derramar o leite.

Lula não tem pressa

No almoço com líderes aliados, o presidente discordou dos que lhe têm cobrado pressa na apresentação de suas propostas de reformas. Segundo o líder petista Tião Viana, advertiu que não se deve esperar dele comportamento semelhante ao de Fernando Henrique, que na primeira semana de mandato abarrotou o Congresso de propostas que a sociedade não havia discutido e que o próprio Legislativo aprovou sob a pressão do rolo compressor. De sua parte, não gastará o ano em consultas, mas não enviará nada que não esteja previamente costurado. A tributária, por exemplo, espera mandar até abril, e começará a discuti-la hoje com os governadores.

— O presidente respeitará a oposição e até brincou que compreende as dificuldades do PFL nesse papel que nunca exerceu. Nada, porém, o afastará da boa convivência que pretende ter com o Congresso — resume o líder.

Pagar ou largar

Agora que ouviu o ultimato do PMDB, cabe ao governo fazer suas contas. Com os aliados atuais, terá na Câmara a maioria absoluta (cerca de 270 deputados), mas não os 308 votos para aprovar as reformas. Pode alcançá-los se pelo menos metade dos peemedebistas votar com o governo.

Vias de fato

Em Palmas (TO), a quebra de decoro quase quebra cabeças, literalmente. Segundo denúncia feita pelo senador Siqueira Campos, ontem o vereador José Célio (PSB) jogou a vereadora Edna Agnolin (PFL) contra uma parede no curso de uma arenga política. Ela está internada com suspeita de fratura craniana.

PERNADA: requerimento da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) para instalação de CPI que investigaria a origem de recursos de brasileiros depositados no exterior estava em primeiro lugar na fila, em dezembro. Estranhamente apareceu em 30o. lugar na reabertura dos trabalhos do Congresso. Coincidência, diz ela, não foi até agora formada a comissão externa que acompanhará o caso Silveirinha.

O DEPUTADO Carlos Melles (PTB-MG) sugere ao governo Lula que faça como Aécio Neves: que fixe logo um teto para os salários do Executivo, já que não se chega a um acordo entre os três poderes.

FLÁVIA OLIVEIRA (INTERINA)
COM DÉBORA THOMÉ


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