© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de fevereiro de 2003

Nas curvas do Juruá

São quase 11 de uma manhã refrescada pela chuva que caiu há pouco. O batelão faz a primeira parada na confluência do Juruá com o Juruá-mirim. Os acontecimentos sucedem-se tênues, quase imperceptíveis, liquefeitos na existência concreta do rio que tudo preside por aqui. E, no entanto, são muitos, quase infindáveis e cheios de minúcias, armando uma rede sonolenta e preguiçosa na memória. O rio em seu ritmo lento, se abrindo para receber inumeráveis afluentes, convida o pensamento a permanecer no caos original, embotado pelo apelo da paisagem que escorre diante dos olhos. E no entanto é preciso ver e pensar. Por isso decido escrever.

Desde ontem à noite, quando embarcamos em Cruzeiro do Sul, à bordo do batelão dirigido por seu Helival e comandado pelo desembargador Arquilau, as coisas minuciosas e grandiosas alternam-se num ritmo que dificulta apreendê-las. Mas desconfio que a grandiosidade de uma experiência como esta se esconde talvez por detrás da capacidade de perceber o minucioso e aparente insignificante.

A grandeza da minúcia: há de se começar por colocar ordem no caos primordial. A proposta inicial, verdadeiro chamado ao princípio de realidade, partiu do experimentado expedicionário, o jornalista Élson Martins, navegador antigo dos altos rios. Então iniciamos a usar o tempo primeiro da quinzena de dias que passaremos juntos a organizar o espaço no barco que nos levará a navegar o Juruá pleno de inverno. Nos preparamos como noivos no dia do casamento, a esperar que o rio nos aceite benevolente em sua águas fartas. Somos pretendentes a que o rio nos aceite como viajantes e observadores. Veremos se aceitará nosso olhos pousando sobre ele, o povo e o mistério que ambos guardam em suas margens.

Busco na singeleza do fato físico e geográfico a primeira lição para o aprendizado que o rio e a floresta impõem: precisamos todos encontrar nossas margens. Parece simples, mas não é, aprender a partilhar o exíguo espaço do batelão entre 15 pessoas. Mas como em todo bom fevereiro, o Juruá está cheio e transbordante feito nosso barco e nos ajuda a compreender que só solidários e generosos poderemos prosseguir. A água barrenta escorre cálida, e é também cálida que encontra nossos corpos e almas. Nenhum tormento atinge nosso espírito de grupo. Seguimos, o rio e nós, neste inverno tropical, serenos, mas cheios de vitalidade. Que em nós se traduz na vontade de ver, conhecer e respeitar a diferença.

Com a percepção embotada pelos preconceitos da urbanidade, fica difícil compreender a florestania, essa lição de civilidade com a qual o pequenino Acre anda brindando o país e o mundo. Desde a década de 70, na confluência dos interesses da cidade e da floresta, o Acre tem aprendido - e agora já anda a ensinar - a convivência eterna do homem com sua margem. Aqui, o sacrifício de Wilson Pinheiro e Chico Mendes, inaugurou uma nova disposição nos povos da floresta – índios, seringueiros e ribeirinhos. Disposição que culminou com a emergência de uma liderança sensível às questões sociais e humanas de seu povo, soprando os ventos da mudança quase dez anos antes dele refrscar todo o país.

Florestania nada mais é do que a cidadania para a parte de seu povo que prefere viver imerso no mistério da floresta. Foi um duro embate até que o Acre conquistasse governantes capazes de compreender que os povos da floresta preferem permanecer na floresta, desde que dela consigam extrair com seu trabalho uma existência digna, e que o poder público faça chegar até ela saúde, educação, políticas públicas, enfim. Foi um duro aprendizado até que se percebesse que o povo da floresta atravessou diversos sistemas de exploração, os ciclos da borracha, mas não abandonou a maneira de viver com a floresta uma relação de respeito. Ou seja, viver de forma auto sustentada extraindo da floresta a sobrevivência se mantendo guardião da biodiversidade. Foi um longo aprendizado até que os povos da floresta conseguissem eleger representantes que respeitassem sua vontade de viver de forma auto-sustentada. E é precisamente isso que o Acre ensina para o mundo com o seu Governo da Floresta.

Mas antes mesmo de tentar decifrar a florestania, em sua briga com os conceitos e preconceitos construídos na cidade, vou me dedicar aqui a um exercício anterior: pousar meus olhos embotados na eterna briga do rio com a floresta. O rio segue arrastando ora uma, ora outra margem, num movimento cíclico que acaba por modificar permanente a floresta que o delimita. Enquanto em uma margem o rio avança sobre a floresta dissolvendo em seus barrancos sumaúmas centenárias, no lado oposto, invariavelmente a mata avança contra o rio, recompondo aos poucos com a frágil imbaúba, na areia das praias que se formam nas curvas do rio, o esplendor do verde que voltará a ser mata centenária. Nessa luta vertiginosa e contínua, leito do rio e floresta são permanentemente redesenhados e o navegante entontece. As curvas sucedem-se: a lua cheia que vemos a oeste, instantes depois desponta a leste. O viajante não sabe é que aquela curva, alguns anos mais tarde não mais estará naquele lugar. Outras e outras virão sinuosas, redesenhando continuamente o leito do rio eterno.

Como lápis e borracha nas mãos do criador, a chuva que cai nos rios desenha e apaga, ao sabor do desejo de encontrar a perfeição, o contorno de rios, lagos e floresta. Como no poema da Dora Vasconcelos musicado por Villa-Lobos para a sinfonia A Floresta do Amazonas, “ o rio bebeu a nuvem do céu”. O ritmo da chuva, que alcança em fevereiro a plenitude, marca o ápice do movimento perpétuo de troca em margens e rio. Caindo duas, três vezes por dia, a chuva engravida o rio que arrebenta sobre o barranco arrastando a floresta em uma margem, enquanto na outra, a floresta avança impávida sobre o rio.

Uma samaúma enche por alguns segundos meus olhos com sua copa gigante, no grande travelling que o barco estabelece ao navegar. Imponente, exibi-se ereta à beira do barranco. A chuva que se anuncia na nuvem escura, dentro em pouco tombará sua altivez de árvore madura. Pouco mais ela se juntará à massa líquida correndo em direção e acabará diluindo toda solidez e brancura no ocre do rio. Os peixes, abundantes, agradecerão o húmus que os sustentam. Pequenos redemoinhos formam-se na água, trazem em seu centro minúsculos galhos, fragmentos de árvores passadas.

O rio não se deixa capturar por pretensões poéticas. A poesia exige síntese e concisão, e não há nada menos sintético do que o o eterno e lento escorrer da água redesenhando continuamente as margens. Fio curvo, móvel e contínuo sempre tingindo de ocre o verde da floresta, o que permanece constante é a sinuosidade do rio, a exuberância da mata e a vontade férrea do povo ribeirinho em continuar fazendo parte do mistério.Com os olhos e o coração bem abertos, eu aqui do barco rio para o rio e sigo em paz. ,

Maria Maia Alto Juruá, 15 a 17 de fevereiro de 2003.

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal