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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de fevereiro de 2003
Mas com barro, senhor prefeito?

Beneilton Damasceno *

Com o coração partido e a conta corrente na beira do abismo, quitei na última quarta-feira o carnê do IPTU, que o carteiro havia sapecado na minha varanda no dia anterior. Parcela única, para aproveitar o desconto de vinte por cento. Por coincidência, desde a tarde da terça, um grupo de homens vestidos de azul e uma patrol da Semsur tinham interditado um trecho da Manoel Cezário, rua onde moro e que liga o bairro Aviário e arredores ao centro da cidade. Ao escurecer, já não se viam mais aqueles assombrosos buracos existentes numa extensão de quatrocentos metros, da casa do Bruno Couro Velho, na cabeça da ladeira, até as imediações do Mercantil Oliveira.

Na volta para o almoço, observei que os homens de azul estavam obturando as crateras com barro natural, enquanto o motorista da cascaveta empurrava o entulho para dentro de um terreno baldio que a comunidade vizinha transformou em aterro sanitário urbano. Aí eu cheguei perto de um dos trabalhadores, que trazia uma pá na mão: “Escute aqui, meu chefe, vocês depois vão jogar asfalto por cima do que foi tapado?”. Ele respondeu, cortês: “Vamos sim, claro!”. E continuou o serviço. Satisfeito, fui almoçar. Na hora da sobremesa, anunciei a boa notícia para minha senhora e as meninas.

Mas ontem, depois daquele toró doido que caiu na madrugada e vendo o meladeiro em que se transformou a nossa rua, tomei a iniciativa de ligar para o escritório da Emurb. Repeti a pergunta feita ao homem que trazia a pá na mão. Embora anunciado de forma bem polida e sincera, o veredicto da funcionária da empresa foi uma facada no peito. Segundo a moça, para esse primeiro momento “está sendo efetuado um trabalho com piçarra nos pontos mais críticos” daquela via, a fim de agilizar o tráfego de veículos... A respeito de um possível asfaltamento, ela não me deu nenhuma esperança. Deprimido, agradeci pela informação e voltei ao computador para iniciar o terceiro parágrafo desta reclamação pública que ora vos apresento.

Então é assim, pessoal? A prefeitura levanta um clamor em tudo que é meio de comunicação garantindo que o pagamento do tributo municipal retorna em forma de benefícios ao cidadão e, no fim, promove uma operação cara-de-macaco usando barro vermelho como matéria-prima? Por favor, né? Tão pensando que a gente é o quê? Francamente, essa não é a contrapartida que o contribuinte espera. Isso se chama falta de consideração (caberia, gratuitamente, a palavra “incompetência”, mas ela não cai bem numa época de aparente cessar-fogo).

É impossível negar que a maior cidade do Acre virou um lugar horroroso, desconfortável, emporcalhado. Não, não se trata de atirar pedras por simples prazer ou de direcionar os fatos para o campo político. A verdade é que Rio Branco se encontra levada da breca faz meses, sem um xerife à altura de sua relevância econômica e social. Ontem, por exemplo, na frente do Sebrae, na avenida Ceará, um carro utilitário jazia atolado no acostamento da rodagem, enquanto o proprietário, cabisbaixo, esperava alguém caridoso que o ajudasse a resgatá-lo da lama. Duvido que no centro de qualquer outra capital do país aconteça uma cena dessas.

Tomei como modelo de desprezo a rua Manoel Cezário por razões pertinentes, mas, se analisar bem, ela pode se considerar privilegiada perante uma infinidade de “ramais” praticamente intrafegáveis. Bairros como José Augusto, Vila Ivonete, Tropical e Morada do Sol, para enumerar apenas alguns do “primeiro pelotão”, suplicam o cuidado dos setores competentes da gloriosa PMRB, mesmo num ano ímpar, um pouco distante das visitas in loco pré-eleitorais.

Ainda não inventaram campanha de conscientização popular mais eficaz do que o respeito ao munícipe - ouvindo as associações de moradores, elaborando metas, pedindo sugestões a quem conhece e vive o problema. Bastaria isso. A inércia, pelo contrário, é o maior incentivador da inadimplência - que, infelizmente, não pára de esticar ano após ano. Para infelicidade geral.

Só para concluir, um derradeiro apelo: com barro não, doutor!

* bennedamasceno@hotmail.com

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