
Chuva destelha casas e revela descaso da prefeitura nos bairros de Rio Branco
Com a enxurrada, esgotos invadiram casas e a lama resultante impede circulação segura dos moradores
A forte chuva que começou na última quarta-feira à noite e só foi terminar pela madrugada de ontem deixou muitos moradores de Rio Branco sem condições de sair de casa. Nas regiões onde a água não inundou suas moradias, os esgotos que normalmente correm a céu aberto nos bairros sem infra-estrutura tomaram conta das ruas e invadiram as casas.
Para centenas de famílias que sobrevivem nos bairros periféricos da capital, o período de chuva é sinônimo de preocupação e às vezes até desespero. Não bastassem a falta de água, de rede de esgoto e de coleta de lixo, a iluminação pública precária e a dificuldade de acesso às ruas pela polícia, essas regiões sofrem com as alagações e buraqueiras em ruas normalmente sem asfalto.
Para pegar ônibus, ir à escola, comprar comida ou simplesmente bater um papo com o vizinho, sapato nos pés nem pensar. A lama grudenta e suja obriga os moradores dos bairros a usar sacolas nos pés para se proteger ou, então, a andar descalços.
“É sempre assim quando chove. De certa forma, estamos conformados a esse ritual no período de inverno porque é sempre a mesma coisa. Levantar os móveis para que não molhem e estraguem, levar os sapatos em sacolas até chegar a uma rua de asfalto, fazer caminhadas grandes até chegar no ônibus, essas coisas”, disse uma das moradoras do bairro Bela Vista, Maria Tavares.
Neste bairro, uma das ruas principais está há meses com os encanamentos da rede de esgoto furados, formando uma verdadeira concentração de água malcheirosa e suja em frente às casas. Os encanamentos já foram trocados diversas vezes pelo Saerb, mas sem nenhum resultado.
Famílias sonham em se mudar
Num outro bairro da cidade, o Novo Horizonte, o drama da chuva também é vivido por centenas de famílias. Os pais do pequeno Vieli Paulo Nascimento, de 7 anos, temem que o garoto perca o ano letivo por causa das chuvas.
“No ano passado ele quase repetiu de ano porque quando chove é muito perigoso sair de casa”, afirmou Carlos Nascimento, pai de Vieli. “Às vezes deixo de ir pra aula na chuva nem tanto por causa do barro, mas por causa das quedas que já levei tentando subir essa ladeira”, explicou o garoto.
A família de Vieli hoje sonha em se mudar de casa. Há sete anos morando num casebre de madeira, hoje eles fazem planos de se mudar para um bairro melhor estruturado.
“Morar aqui é horrível. Nos dias de chuva, então, nem se fala. O cheiro do ar fica insuportável e a gente vive perdendo os móveis. Ano passado teve um temporal forte e a água tomou conta de toda a casa. Perdi um colchão e um liquidificador, e o sofá ficou totalmente estragado”, lamentou Carlos.
Mato e mosquitos invadem o Bela Vista
O que era pra ser uma grande obra para tratamento de esgoto na cidade de Rio Branco na década de 80, até hoje sobrevive nas ruínas e causa tristeza e desespero para os moradores do Conjunto Bela Vista. E nos dias de chuva, é inevitável que animais perigosos, como muçus e ratazanas, saiam do matagal da obra abandonada e invada as casas próximas.
“Aqui é terrível. Nesses depósitos se acumula muita água e os moradores se acostumaram a jogar os sacos de lixo por falta de coleta. Aí a sujeira e a água parada facilitam o aparecimento desses bichos estranhos”, constatou a jovem Ângela da Silva, de 13 anos.
Segundo o aposentado Antônio Nobre de Lima, que mora há seis anos no local, as águas acumuladas da obra abrigam até mesmo jacarés. “Na semana passada meus vizinhos chamaram o Corpo de Bombeiros porque apareceu um jacaré enorme e a gente ficou com medo de que ele entrasse numa das casas ou avançasse em alguma criança”.