© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de fevereiro de 2003

Sibá Machado

“Quero uma reforma agrária diferente para a Amazônia”

Leonildo Rosas e Itaan Arruda Dias

Sibá Machado de Oliveira nasceu na cidade de União, no sertão do Piauí. Ainda adolescente, deixou a terra natal em busca do seu destino. Inicialmente, foi morar com parte da família numa localidade da Estrada da Transamazônica, no Pará, entre as cidades de Altamira e Santarém. Não se adaptou e regressou para casa. A vontade de seguir um caminho melhor voltou a se manifestar. Aos 20 anos decidiu tentar a sorte em São Paulo, como a maioria dos nordestinos. Na capital paulista, foi cobrador de ônibus durante um ano. Não gostou.

No vai-e-vem da vida, Sibá retornou para o Pará, onde entrou para o PT. Sua vinda para o Acre também faz parte dessas coincidências do destino. Veio para acompanhar a esposa, Rose Scalabrini, que havia sido convidada para tocar os movimentos sociais no Estado.

Hoje, aos 45 anos, bacharel em Geografia, formado pela Universidade Federal do Acre, Sibá se considera um vencedor. E tem motivos para isso. No início do ano, voltou à terra natal. Ao contrário da partida, há 25 anos, foi recebido no aeroporto de forma festiva com direito a show pirotécnico. Como o filho pródigo, o itinerário do antigo cobrador de ônibus o fez regressar agora como senador da República pelo Acre. Nessa entrevista, ele fala sobre sua trajetória de vida, o desafio de substituir a senadora Marina Silva e quais seus projetos como parlamentar.

Antes de qualquer coisa, seria bom o senhor se apresentar para aquele leitor que não o conhece.

Sou filho de agricultores. No início da década de 70, com a construção da Rodovia Transamazônica, o meu pai foi para lá como peão da empresa Queiroz Galvão, trabalhar na construção das casas que seriam entregues para os agricultores. Mais tarde, em 1972, ele conseguiu um lote do Incra e acabou levando parte da nossa família: minha mãe e três irmãos meus. Aí, eles foram para uma cidade no Pará.

Para qual cidade?

Ficava entre Altamira e Santarém. Em 1975, eu estive morando lá com ele, mas não me adaptei e voltei para Teresina, capital do Piauí. Em 1978, fui morar em São Paulo, onde trabalhei como cobrador de ônibus. Eu tinha 20 anos de idade. Exerci o ofício durante todo o ano de 1978. No início de 79 fui morar novamente com o meu pai. Lá nós ajudamos a fundar a cidadezinha que hoje é o município de Uruará. Construiu-se primeiro um lugarzinho para servir de igreja, depois um lugarzinho para servir de escola... Hoje está um município mais ou menos do tamanho de Brasiléia.

O senhor já tinha alguma militância política?

A militância política começou no Pará, em 1979, porque as dificuldades desse lugar eram muito grandes. A cidade mais próxima era Altamira, que ficava há mais de 200 quilômetros de distância. Assim sendo, a gente criou um grupo de jovens, eu e meus irmãos. Um gostava de teatro, outro gostava de música. Então, nós formamos um grupo que oferecia diversão para a comunidade. Em um sábado, nós fazíamos uma festa. Em outro, fazíamos uma apresentação teatral. No seguinte, era feito um torneio de futebol, e assim por diante. Quando a gente não fazia nada, a comunidade cobrava. E isso foi criando uma relação, um vínculo, uma respeitabilidade. Um dia, o pessoal do PT de Santarém passou por lá, viu aquilo e convidou a gente para se filiar.

Então, quer dizer que o senhor entrou para o PT por festa?

(risos) De certa forma, sim. Esse grupo de jovem era da Igreja Católica. Foi por meio dele que o pessoal do PT se aproximou. Depois disso, o pessoal da CPT [Comissão Pastoral da Terra] esteve lá em Santarém, gostou do trabalho do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, achou uma coisa interessante e pensou que alguém poderia vir ajudar aqui no Acre. Foi escolhido, então, Valdir Ganzer (liderança nacional do PT, foi vice-prefeito de Belém e hoje é deputado federal). Ele veio para o Acre, fez a experiência, passou um mês e, quando voltou ao Pará para pegar a família, foi escolhido para ser candidato deputado estadual. Diante disso, foi escolhida a Roseli Scalabrini, que é a minha esposa. Eu, que estava noivo dela, também acabei vindo.

Chegando aqui, vocês foram morar onde?

Fomos morar onde hoje está a CUT estadual [Central Única dos Trabalhadores]. Os sindicatos todos da época estavam dirigidos pelo PMDB. Só tinha o sindicato de Xapuri, que estava mais ligado aos petistas, por conta do Chico Mendes. Então, nós fizemos um grupo de trabalho com o Osmarino Amâncio, com outras pessoas e começamos esse debate de construir novos sindicatos. E acabei, por conta disso, sendo presidente da CUT estadual, em 1991.

E como foi o trabalho na CUT?

O trabalho na CUT, em primeiro lugar, foi de trazer os sindicatos para dentro dela. Pela primeira vez a entidade deixou de ser apenas um nome para ser uma instituição mais sólida. Filiamos, naquela época, 17 sindicatos. Fizemos algumas greves aqui no Estado e foi aquele problema do “Fora Collor”. Isso foi criando um nome para a CUT estadual. Fui reeleito em 1994 para a gestão até 1997. Nesse período, reconstituímos a Fetacre (Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Estado do Acre), fundando novos sindicatos, cooperativas, associações de produtores e mais o Grito da Terra Brasil, juntamente com o pessoal de Rondônia e do Pará, Foi a partir desse Grito que o movimento ganhou vulto, inclusive em nível nacional, do qual eu acabei virando até uma certa referência.

Em 1998, o senhor ficou na primeira-suplência do Partido dos Trabalhadores e, mesmo com todas as expectativas, não assumiu. O senhor tem, portanto, somente a experiência sindical. Não tem experiência parlamentar e assume a suplência da senadora Marina Silva, que é uma referência para o mundo. Isso não o assusta?

Eu confesso que assustou um pouco no começo. Quando a companheira Marina Silva foi anunciada como ministra do Meio Ambiente, passei a ter uma certa preocupação, até mesmo por causa desse vazio de experiência. Porém, depois pude compreender que muitas das coisas que um mandato pode fazer é mais ou menos o que eu já faço hoje.

O senhor poderia explicar melhor?

O lado externo do mandato, fora das paredes do Congresso, não tem muita diferença. Toda essa minha história me possibilitou conhecer alguns caminhos. Tenho uma relação muito boa com muitos dos ministros porque os conheci na época da CUT.

Então o senhor não tem medo?

Não, admito que a grande experiência que ainda está faltando é a tribuna do Senado, que eu só vou experimentar na próxima semana [estréia hoje].

Como o senhor analisa a questão da Amazônia?

Acreditamos na unidade da Amazônia. Procuramos, baseados nisso, o que chamamos de “pontos pactuados para o desenvolvimento da Amazônia”. Entendemos que a Floresta deve ser colocada como um elemento da Economia, não como um entrave como sempre foi tratada. Lembro de pessoas que chegaram “de fora” e, ao se deparar com o seringueiro, o viam como uma pessoa preguiçosa porque observava no entorno da casa dele muita mata porque ele não trabalhava: não compreendiam a função do trabalho do seringueiro.

Como senhor defende o aproveitamento da floresta?

Queremos a Floresta em pé, explorada economicamente de maneira organizada, dentro do manejo. Temos alguns cálculos que podem até ser contestados, tipo: para cada mil quilômetro quadrados de floresta em pé, podemos gerar até US$ 1 bilhão. O segundo dado diz respeito aos recursos hídricos: a água na Amazônia será o motivo de grandes especulações. A água doce do planeta está comprometida e a Amazônia tem hoje um terço da reserva dessa água do mundo. O mundo precisa olhar para isso e nós queremos ser donos desse potencial. Depois, têm os recursos minerais. O subsolo brasileiro é do governo federal, mas os moradores da área, como os indígenas e as famílias tradicionais da floresta, merecem uma contrapartida dessa extração.

O senhor tem dito que a questão da reforma agrária para Amazônia é errada, qual é a sua proposta?

Esse modelo que foi colocado aqui não nos interessa mais. Em nenhum projeto de colonização, no nosso ponto de vista. A vida dos produtores está melhorando. Como o modelo de reforma agrária aqui implantado, as pessoas estão migrando para a cidade porque não têm um elemento motivador. Queremos um outro modelo de reforma agrária, sim! Podemos melhorar as reservas extrativistas, os “pólos”, que são iniciativas intermediárias entre a cidade e o campo, criar os cinturões verdes em volta dos municípios, tendo ali um serviço de mercado já garantido, um serviço de infra-estrutura e reduzindo os custos de reforma agrária. Podemos envolver, inclusive, as prefeituras nisso.

O senhor já deu alguma passo nesse sentido?

Sim, tive audiência com o presidente nacional do Incra, Marcelo Resende, e ele se comprometeu em analisar a proposta com carinho.

Como o FNO pode ser revisto?

Hoje o crédito rural é tratado comercialmente. Nós não queremos tratá-lo dessa forma. Crédito rural é a compensação para o desenvolvimento de uma economia que por si só, no mundo inteiro, é garantida pelo Estado. A agricultura dos Estados Unidos tem pesados subsídios do governo, toda a Europa também, Canadá e Japão. Se os grandes países garantem isso, por que o Brasil, um país pobre, não vai garantir?

O Acre tem potencial agrícola?

O Acre tem potencial florestal e tem o potencial hídrico. Então, temos dois grandes indicadores imediatos: a floresta e a questão da pesca. A agricultura eu ainda acho que podíamos trabalhá-la do ponto de vista apenas da manutenção do consumo interno.

E a pecuária?

A melhoria da pecuária é uma coisa que nós acreditamos. Não dá para mandar a pecuária embora. Nós temos que verticalizá-la com o pacto de não mais transformar a floresta em pasto.

O senhor tocou em um ponto importante, que é a questão dos limites do Acre. Como poderemos trabalhar melhor esse fato?

Estamos juntando, em primeiro lugar, um histórico do que foi essa repartição, desde 1877 com o Tratado de Ayacucho.

Mas existe uma decisão do Supremo.

Existe uma decisão do Supremo. Mas, como eu acredito, lei serve para ajudar. A partir do momento que ela não mais ajuda, é preciso transformá-la.

Qual a vantagem que o Acre teria com a ampliação dos limites territoriais, o que o cidadão acreano teria a ganhar com isso?

O primeiro ganho é que nós queremos que a indústria florestal funcione. Quando eu falo em indústria florestal, não é aquela que nós conhecemos hoje. É outra indústria florestal. É tipo o que o povo da Costa Rica está vivendo hoje. A segunda coisa diz respeito aos serviços que o Acre está prestando para esses municípios e para essas vilas do qual não tem nenhum rendimento. Com as questões dos limites revistas, o Estado vai ganhar uma nova população e, junto com isso, aumenta o seu FPE e o seu Fundef.

Até que ponto vai ser o mandato do Sibá e até que ponto vai ser o mandato da Marina?

(risos) Bem, nós estamos muito perto nesse ideal. Não há como não haver aproximação. A Marina tem sua história e sua personalidade. Eu tenho a minha história e a minha personalidade. Nossas trajetórias se parecem em certos pontos. O mais importante, no entanto, é que a gente se enxerga nos ideais. O foco da nossa ministra é que ela trabalhou a preservação da biodiversidade, contra a biopirataria, contra os transgênicos, contra essa agressividade internacionais para com as nossas riquezas. Eu vou tentar trabalhar agora as coisas que dizem respeito mais diretamente à essas comunidades dos produtores, a partir do que já foi produzido nos sindicatos e nas cooperativas.

Como foi voltar para o Piauí como senador?

A imprensa de lá divulgou. Eu não sabia que tinham divulgado. Então, quando cheguei lá, encontrei muita gente me esperando. Uma receptividade muito grande. No aeroporto até soltaram fogos. Fiquei com vergonha.

O governador Jorge Viana lhe fez algum pedido em especial?

(risos) Conversamos sobre o fato de precisarmos estar mais juntos ainda daqui para frente. Como um mandato pode ajudar ao máximo a estrutura do governo e principalmente sobre as responsabilidades que acabaram recaindo sobre cada um de nós. Pelo fato de a Marina estar cuidado mais das questões do Ministério e o Tião Viana ter sido escolhido líder do PT no Senado, ele pediu que eu e o companheiro Geraldinho Mesquita (PSB) cuidássemos mais de perto do Acre e dos acreanos.

Entrevista Página 20
Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal