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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de fevereiro de 2003

No olho do furacão...

Tião Viana debate no Senado futuro do Brasil em relação ao Mercosul e a declaração de guerra dos EUA ao Iraque

Tião Maia
Especial para o Página 20

O senador Tião Viana (PT-AC), líder do PT no Senado, participou anteontem, em Brasília, de uma reunião em que foi debatida a posição do Brasil em relação ao futuro do Mercosul e a entrada ou não do país no esforço de guerra proposto pelos EUA contra o Iraque. O debate foi suscitado pela presença no Senado do chanceler Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, para reunir-se com os senadores da base de sustentação do governo Lula.

O chanceler criticou parte do empresariado brasileiro que é contra a ampliação do Mercosul e alertou que a guerra dos EUA contra o Iraque, apesar das manifestações contrárias em vários países, inclusive no Brasil, será praticamente inevitável. Em relação aos empresários, ele disse que é necessária a adoção de uma posição flexível quanto às economias dos países mais frágeis que também integram o Mercosul. “Se o Brasil quer exercer a liderança, tem de assumir posições que favoreçam as economias mais fracas”, afirmou.

O senador acreano Tião Viana disse concordar com as ponderações do chanceler, mas lembrou que, pelo menos em relação ao Acre, o Brasil faz sua parte no tocante aos países mais pobres. Deu como exemplo as boas relações que o governo do Acre mantém, por exemplo, com os governos da Bolívia e do Peru, através das cidades fronteiriças. Viana lembrou que o governo do Acre, com ajuda do governo federal, acaba de inaugurar a BR-317, também chamada de Estrada do Pacífico, que liga o Brasil através do Acre com as cidades de Cobija, na Bolívia, e de Iñapari, no Peru, passando por Assis Brasil. “Essa é, a meu ver, uma grande contribuição do governo brasileiro ao Mercosul, porque é uma ligação concreta”, disse Tião Viana.

Amorim elogiou a iniciativa mas lembrou que, para manter o bloco, é preciso fazer muito mais. Segundo o ministro, após a crise econômica na Argentina, o Mercosul só se manteve a partir da iniciativa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva de priorizar o bloco, realizando novos entendimentos e fazendo concessões. “Com essa iniciativa, que incluiu visita do presidente do Brasil aos outros três membros do bloco (Argentina, Uruguai e Paraguai), conseguimos preservar a unidade do Mercosul”, disse Amorim. Para ele, o Mercosul será fundamental nas discussões com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) propostas pelo governo norte-americano.

Numa crítica à posição de alguns empresários brasileiros contra novas aberturas no âmbito do Mercosul, Celso Amorim disse que recentemente as cervejarias brasileiras se uniram contra a concessão de uma cota para a exportação de cerveja da Bolívia (país que integra o Mercosul ampliado) para o Brasil, equivalente ao consumo de um sábado da cidade do Rio de Janeiro. Para o ministro, é vital que o Brasil faça mais concessões no sentido de apoiar as exportações dos parceiros de economia mais fraca. Foi desse modo, afirmou, que a Alemanha e a França conseguiram ganhar a confiança dos seus parceiros e viabilizar a União Européia.

Celso Amorim abordou ainda várias questões ligadas à Organização Mundial do Comércio (OMC), com destaque para a redução das barreiras impostas ao setor agrícola e para as questões da propriedade intelectual no que se refere a medicamentos, em que o Brasil conseguiu notáveis progressos no capítulo das licenças compulsórias para os casos envolvendo a saúde pública. Ele também se queixou da posição dos Estados Unidos, de darem sempre um tratamento pior para os países do Mercosul nas negociações comerciais.

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