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Rio Branco - Acre, sábado, 22 de fevereiro de 2003

Divulgação

Expedição está engajada na coleta de dados que podem
servir para que o acreano entenda melhor sua identidade

Expedição à Foz do Breu

Muita água e muita generosidade

Elson Martins

Cinco dias após deixar Cruzeiro do Sul subindo o rio Juruá, a expedição à Foz do Breu chegou ao seu destino. O barco Lua Cheia, com capacidade para 18 toneladas, aportou na vila que faz fronteira com o Peru, às 3h20 da última quinta-feira. O último trecho a contar de Thaumaturgo - cidade localizada na foz do rio Amônia - até o rio Breu foi favorecido por um verdadeiro dilúvio que cai há três dias nas cabeceiras do Juruá. Em frente à vila o rio subiu 10 metros, alterando a profundidade do canal de um para 11 metros.

O favorecimento se explica pelo fato de um barco com as dimensões do Lua Cheia, que pode transportar até 80 passageiros e que no verão só consegue chegar até Thaumaturgo, 13 horas abaixo, com a alagação poderia prosseguir pelo rio Breu além-fronteira. Mas a cheia apresenta também inconvenientes: o comandante Helival Pinheiro e seus auxiliares (co-piloto e maquinista) tiveram dificuldade para vencer a correnteza e se livrar do balseiro que é arrastado pelo Juruá com grande velocidade e força. Nesta época, árvores inteiras são arrancadas da floresta pelo fenômeno da terra caída e descem os rios oferecendo grande risco à navegação. Por conta disso, o barco Lua Cheia gastou 15 horas, em vez de 12, para vencer o trecho Thaumaturgo/Breu.

Na manhã de quinta-feira, os integrantes da expedição percorreram em uma voadeira as comunidades mais próximas da Foz do Breu e promoveram uma reunião com os moradores na vila principal. Durante o encontro, que aconteceu na escola Ernestina Rodrigues, os expedicionários falaram de seus objetivos e ouviram reivindicações locais. “Não somos do Governo nem políticos atrás de mandato, somos apenas pessoas que gostam do Acre e querem encontrar uma forma de ajudar vocês”, disse o desembargador Arquilau de Melo. Os oito integrantes da expedição falaram no mesmo tom sugerindo, em síntese, o seguinte: os povos da floresta vivem em cima de uma grande riqueza mas precisam aprender a explora-la de forma sustentável para ter boa qualidade de vida.

Após a reunião, a equipe se dividiu em duas para visitar localidades diferentes: uma parte foi a Tipisca, a primeira pequena cidade peruana, Juruá acima. A outra subiu o Breu até uma aldeia Ashaninka. E no começo da noite a expedição iniciou a viagem de volta passando por grande susto: empurrado pela correnteza, o barco ficou descontrolado e foi de encontro a um embaubal na margem direita do rio. Os galhos da vegetação varreram o toldo levando o mastro e o farol da Lua Cheia.

Esperança - Toda a região que cobre a parte sul do município de Cruzeiro do Sul compõe a Reserva Extrativista do Alto Juruá e as áreas indígenas e está protegida pelas leis ambientais do país. Os índios, seringueiros e ribeirinhos que vivem nessa área sofreram no passado com o duro regime dos seringais para exploração da borracha, mas agora são autônomos e podem empreender o desenvolvimento sustentável. O problema é que essa conquista é recente e não conta ainda com políticas públicas que estejam a altura das necessidades imediatas desses povos da floresta. É nesse ponto que entra o objetivo da expedição: ou seja, conhecer as necessidades desses povos, relatar e sugerir medidas que podem ser adotadas pelo Governo da Floresta.

Embora sem pretender que a expedição tenha caráter científico, ou mesmo algum objetivo acadêmico, os integrantes estão convencidos de que colhem informações preciosas para os acreanos entenderem melhor sua identidade. E para o Governo da Floresta melhorar a partir de algumas ações simples a vida das pessoas do interior. Eles entendem que o governador Jorge Viana (PT) poderia adotar muitas dessas pequenas ações sem depender da grandes recursos e de planejamento . As ações seriam “sentidas” no contato direto com as comunidades através de expedições como a da Foz do Breu.

Em todos os lugares por onde a expedição passou, a curiosidade e o interesse despertados entre adultos e crianças foram algo comovedor. Até a distribuição de revistas e jornais velhos era recebida com festa, o que parece ser um traço cultural da acreanidade. Ou seja, embora vivendo isoladas e em meio a dificuldades de saúde, alimentação, transporte e comunicação, entre outras conquistas da cidadania, as pessoas da floresta são receptivas, amorosas e esperançosas, ainda que submetidas a incompreensões e injustiças. Na reunião do Breu foi citada, por exemplo, a brutalidade dos fiscais do Ibama, que, em nome da lei, chegam a retirar carne de caça da panela dos ribeirinhos para jogar n’água, deixando mulheres e crianças com fome.

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