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Rio Branco - Acre, domingo, 23 de fevereiro de 2003

Melhor ser baleeira

Elson Martins *

Dentro e fora do governo tem gente dizendo a toda hora que “o Gil é um trator”. Trata-se de um elogio a um técnico que não come nem dorme e também não deixa quem trabalha com ele comer ou dormir, em nome da eficiência. A fama de Gilberto Siqueira, secretário do Planejamento do Governo da Floresta, vem do tempo em que Flaviano Melo era prefeito em meado de 1985. Cheio de boas intenções na época, Flaviano montou uma equipe técnica de esquerda que contava com Mary Allegretti, atual secretária especial da Amazônia, Mâncio Lima Neto, Marco Antônio Mendes... e o economista Gil.

De lá para cá o homem só cresceu de prestígio por saber como ninguém montar projetos de cunho social para arrancar dinheiro extra de Brasília. Foi até cogitado para assumir a Superintendência da Zona Franca de Manaus ou um cargo equivalente em Brasília, no início do governo Lula. E como ninguém cresce na administração pública sem agregar fama e poder, o mineiro que pegou trejeito de acreano tornou-se uma máquina. Na verdade, um trator.

Reparem que nos tempos atuais, quando um sujeito se mostra competente no que faz e sobretudo quando pode pensar e decidir por uma população inteira sobre como aplicar verbas públicas, diz-se que “é trator”. Mas o rótulo começa a ser pespegado também em perfis menores: outro dia pedi a um amigo que me indicasse um otorrinolaringologista e ele me recomendou uma médica com o adendo ou ressalva de que “ela é um trator”. Preferi um outro médico, assustado com a idéia de ter um trator a escavacar meu ouvido dolorido.

No caso Gil, fica difícil discordar. Contam que ele abre portas ministeriais em Brasília com o pé, e seriam tão bons seus argumentos em defesa do povo do Acre que os cabras de lá se curvam e até dispensam a propina. Por essa e outras é que no segundo mandato de Jorge Viana, o secretário do Planejamento parece atuar com óleo e graxa nas articulações.

Bom, eu que no momento integro uma expedição que sobe e desse o rio Juruá no trecho entre Cruzeiro do Sul e a Foz do Breu, imagino que o Gil seria mais eficiente, sendo máquina, na forma de uma baleeira. como essa em que estamos embarcados: eu, o desembargador Arquilau de Melo, o médico Julinho (PV), o paleontólogo Alceu Ranzi, a jornalista e escritora Maria Maia, o artista (especialista em marcheteria) Marqueson Pereira, o fotógrafo Edson Caetano e o engenheiro florestal Guilherme (da Embrapa de Curitiba).

Pois de baleeira, com o rio cheio, a gente pode ver o povo do floresta bem de perto num recenseamento com escala que o Toinho chama de “um para um”. E assim as soluções ditas complexas, que exigem consultoria cara e ainda por cima roubam o sono e o lazer dos técnicos, com a baleeira Gil custariam no máximo um meneio de cabeça ou um estalar de dedos.

Claro, a baleeira Gil não precisaria ser como a nossa que não tem banheiro decente nem salva-vidas nem outros apetrechos que a legislação fluvial exige. Poderia ser um barco mais ancho, multimídia, com camarote com ar condicionado e vários computadores plugados na Internet. Aqui no nosso - que nem nome tem, eu que o batizei de Lua Cheia para facilitar os textos que tenho enviado para a imprensa, - contamos entretanto com três aparelhos Global Star para fazer os contatos telefônicos e enviar e-mails via satélite. Uma maravilha de tecnologia que permite navegar nas águas da tradição e da modernidade!

Nessas águas podemos encontrar pessoas como o comandante do Lua Cheia, Helival Pinheiro, um sujeito difícil de ser substituído por máquinas. Ele pilota o barco com maestria demonstrando ter intimidades com o que se passa no fundo dos rios: sabe onde está o canal em cada curva ou estirão e “sente” as tronqueiras submersas. Tanto que ainda se dá a liberdade de cantarolar “Morango do Nordeste” e contar histórias que mantêm o bom humor a bordo.

Os ribeirinhos, ele os conhece família por família pelo nome, colocação, vida pregressa e infortúnios. Ao passar com a embarcação fala com eles numa gíria que ignora o barulho do motor provocando acenos ou resmungos bem humorados ao longo dos barrancos. Deixa recado, pergunta se tem isso ou aquilo pra vender, manda preparar um guisado de paca para o retorno, rindo do que fala e grita como a fazer gosto de tudo.

Parece impossível ir a fundo na identificação dos problemas da região sem um cara tipo assim como guia. Mesmo o Gil trator pode emperrar nessas estradas da acreanidade, a não ser que vire uma baleeira como o Helival e entenda, como o escritor Leandro Tocantins, que no Acre “o rio comanda a vida”.

* elson-martins@uol.com.br

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