
Comadre Raimunda
Há 33 anos, ex-seringueira atua como parteira em Assis Brasil. Perto de 10 mil bêbes vieram ao mundo por suas mãos
Rose Farias
O espírito de guerreira faz da parteira e ex-seringueira Maria Leonice Oliveira, 49 anos, conhecida em Assis Brasil por Comadre Raimunda, “uma mensageira de Deus”, como costuma definir. Ela já perdeu as contas de quantos partos realizou ao longo de 33 anos no ofício. O primeiro da grande lista de crianças que veio ao mundo por suas mãos foi quando ela era ainda uma adolescente e morava no seringal São Francisco, em Assis Brasil. Tinha 16 anos. Se nesses anos como parteira Comadre Raimunda diz ter efetuado uma média de três partos por noite, o número de bebês que nasceu pelas mãos dela chega perto dos 10 mil. Dom divino? Para Comadre Raimunda, sim.
O trabalho é voluntário. Para a parteira cobrar seria um pecado e sobreviver tem um gosto de fraternidade entre as pessoas. A recompensa pelo trabalho chega de forma simples: galinha, ovos, farinha, arroz e frutas, entre outros “agrados” que costuma receber das famílias pelo emocionante trabalho que só não é extinto graças a grandes mulheres como Comadre Raimunda.
Mãe de 12 filhos, a parteira tem seu trabalho reconhecido pelos médicos de Assis Brasil, que a requisitam para resolver os partos mais difíceis.
Perto de se comemorar o Dia Internacional da Mulher, neste 8 de março, a parteira será uma das homenageadas pela Secretaria Extraordinária da Mulher.
Em entrevista ao Página 20, Comadre Raimunda costura de maneira simples e com a voz pausada e carinhosa sua emocionante trajetória.
Aos 16 anos, a senhora fez o primeiro parto. Relate um pouco essa emoção.
Eu estava indo numa viagem do seringal para a cidade a pé e passei por uma casa tinha uma mulher sozinha, o marido estava de serviço, aí ela pediu socorro, eu disse que não ia, porque não sabia de nada. Ela disse: “Minha filha pelo amor de Deus venha ao menos para perto de mim”. Eu fui. O nenezinho já estava com o braço do lado de fora, me veio a idéia de pegar um monte de coberta colocar em cima da barriga dela e começar a balançar, até que sumiu o braço do neném, ele entrou e logo em seguida nasceu nas minhas mãos. A notícia se espalhou e as mulheres só queriam ter crianças comigo.
Essa confiança vem até os dias de hoje?
É pior. Elas não me largam quando falo em desistir tem umas que começam a chorar.
A senhora já fez as contas de quantos partos realizou em 33 anos?
Tenho não. Nem idéia. O dia que pego pouco menino são três, quatro por dia ou pela noite.
É verdade que os médicos de Assis Brasil mandam buscar a senhora em casa?
Mandam. Às vezes a ultra-som acusava que a mulher não poderia ter normal. Aí me chamavam ajeitava a criança e o parto acabava sendo normal. Por isso, que eles confiam no que faço e me procuram. O médico do quartel, por exemplo, quando chega pergunta: “Qual é a parteira que está com a mulher”. Falavam: “É a Raimunda”. Ele dizia: “Então, não vou lá, só se ela me chamar”.
A senhora acha que esse saber vem de onde?
Penso que um dote que Deus deu, assim como um sonho. Porque, faço assim, vou ser bem clara, pois não preciso mentir: a mulher tá para ganhar o neném, e se ele estiver difícil para tirar, fecho os olhos e oro a Deus para que me mostre naquele momento uma luz para poder ajeitar o neném. E logo isso acontece.
Como a senhora faz na hora do parto?
É simples. Deito a mulher na cama e reparo se o bebê tá direitinho. Se não encontrar a cabeça dele, ajeito. Faço o toque para ver a dilatação, se tiver tudo bem. Até a hora de nascer.
Até quando a senhora acredita que vai continuar nesse ofício?
Pretendo ir até um dia que Deus achar que devo parar. Não tenho vontade de fazer outra coisa, prá mim só serve se for ajudar nascer vidas e mais vidas.
O seu trabalho é voluntário, mas a senhora já teve vontade de cobrar por ele?
Não tenho coragem de cobrar. As pessoas me incentivam para isso, mas não acho isso certo. Quando vejo aquela mulher simples como eu e minhas filhas, lembro das dores que tivemos para termos os nossos filhos. Eu ter que cobrar por uma vida? Não.
Mas como a senhora sobrevive?
É muito simples. A comunidade tem uma consideração muito grande comigo. Um me dá um feijão, outro arroz, galinha, farinha, um porco e vou com ele prá frente. Se pego uma galinha, deito para tirar pintinhos e dali a coisa vai crescendo. Alguns vendo. Olha, Deus é supremo. Imagina, quem faz o bem recebe em dobro, sou muito feliz por isso. E agradeço a Deus.
Conseguiu criar seus filhos fazendo nascer milhares de outros?
Sim. Mas também criei o pessoal cortando seringa. Já fui seringueira durante 17 anos e, fiz questão de passar o jeito de ser seringueiro para meus filhos. O mais velho quando completou 12 anos ensinei a ele como cortar seringa, e assim me ajudou a criar os irmãos.
É madrinha de algum?
De muitos. Uns me chamam de Madrinha outros de Mãe Veia. Nessa história toda já tem rapazes, que são pais, e que seus filhos nasceram por minhas mãos. Fiz o parto de minhas filhas.
É verdade que a senhora acompanha a grávida durante a gestação?
Claro. De 15 em 15 dias, ela vem na minha casa. Escuto se o neném está bem, examino se está direito, de pé ou cabeça, no local de nascer. Porque se não tiver temos que ajeitar com o tempo, porque para ajeitar na hora que o bebê nascer pode a mulher sentir várias coisas. Se a gente faz isso a mulher não vai sentir dor. Costumo dizer que o poder de Deus é bem macio e todo muito acha boa a minha mãozinha.
Depois do parto a senhora costuma acompanhar a mãe e o bebê?
Durante três dias depois que ela ganha o neném, dou banho e tomo conta do umbigo para não dar problema. A mãe eu faço comidinha para dela e lavo tudo. E daí vou cuidar de outra. Graças a Deus, todas que tem bebê pelas minhas mãos se sentem felizes. Isso é que me dar certeza de ser um dom de Deus, acredito que pessoalmente não faço isso.
A senhora poderia lembrar uma das experiências mais bonitas durante esses anos fazendo partos?
Me sinto feliz ao ver nascer uma criança. Fiquei muito emocionada com um quando a mulher começou a fazer força para o neném nascer. Ele era um homenzinho e estava virado, tanto que vinham só os “ovinhos” dele (risos). Isso me deixou preocupada em como ia fazer para virá-lo. Graças a Deus consegui e a mulher nem percebeu nada. Achei importante o que aconteceu. Um médico peruano disse pra mim que se fosse lá no Peru eu ia me aposentar por esse parto que fiz.
Então, os médicos ficam impressionados com o seu trabalho...
Sim, e felizes. Uma vez numa reunião minha com eles falaram: “Raimunda, nós somos teu professor de leitura e você é nossa professora de prática. Como é que tu faz?”. E disse: “Doutor eu não sei só na hora da aflição é que sei, passou não sei mais de nada”.
A senhora sabe que representa toda uma história de vida da comunidade de Assis Brasil e que é uma das representantes nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, que mensagem de força e fé a senhora lançaria às mulheres acreanas?
Na verdade tenho muito que agradecer ao movimento de mulheres que acontece aqui no Acre. Meu trabalho é reconhecido em vários cantos como Brasília, Brasiléia, Rio Branco, Xapuri, Ibéria, Maldonado, onde contei minha experiência devido a força desse movimento. A mensagem é de agradecimento e de força para o movimento.