
Com qual fantasia?
Francisco
Dandão *
Problema transcendental à vista. O carnaval ao alcance das mãos, bem ali na esquina do desvario coletivo, com a barriga e as bochechas do Rei Momo já se esparramando pelas praças de todos os bairros e eu respirando sem a definição de qual a fantasia que deverei usar para desfilar na avenida.
Por um triz, mínimo fio de cabelo assim, eu escapei de passar batido. Perdido em eternas abstrações, não fosse a mulata rebolativa enchendo todas as 29 polegadas da tela do meu televisor, provavelmente eu só iria me dar conta da festa aos primeiros raios cheios de cinzas da quarta-feira seguinte.
A ansiedade em resolver logo a questão faz com que os pensamentos fiquem mais atropelados ainda. Para relaxar e ver se aparece uma boa idéia (51 nele!), levanto-me da cadeira em que me refestelo para escrever este texto e dou uma olhada através da janela. Tudo diferente, mas como sempre.
Um casal de jovens de mãos dadas e olhares lânguidos que passam na calçada aguça a minha imaginação. O amor, o sorriso e a flor (onde é que eu li isso mesmo, hein, Vinícius?), um daqui e outro dali rimando com um pedaço de pecado rasgado, um ritual de intenso prazer e um grito lancinante de dor.
É isso, penso, achei minha fantasia. Vou sair de pierrô. Mas desisto logo depois de pensar. Pierrô é meio que brinquedo trágico do destino. Invariavelmente perde a sua colombina para qualquer macaco ou palhaço. Embriagado de felicidade (e caipirinha, claro), nem vê o que acontece.
Ainda na janela, uma outra idéia me ocorre. A superfície irregular da rua e um carro que passa aos pulos (haja mola para tanto buraco) é que me dá a sugestão. Sair fantasiado de prefeito. A cada breque das baterias, um discurso. Nas alas negras, a promessa viva de uma grossa camada de asfalto.
Não dura muito, pouco mais que um segundo, a minha segunda possibilidade de fantasia. Sem eleição, eu seria um prefeito ilegítimo e não poderia cumprir minhas promessas (como deve fazer um “alcaide” de verdade). Acabaria, quatro dias depois, apelidado de fantoche (ou coveiro).
Alguém falou fantoche? Coveiro? Pensei alto de novo, como tenho feito nos últimos tempos, para delírio de todos os que sempre me acharam meio pirado (a vida nada é mais do que isso mesmo, um bando de pirados ditando o comportamento alheio, motivo pelo qual não tô muito nem aí).
Fantoche poderia ser uma boa. Não gastaria nada. Bastava uma, digamos, pequena adaptação. Um toque aqui e um retoque ali. Talvez umas penas (fantoche tem penas?). O Fundo Monetário Internacional certamente iria adorar. Desisto justamente para não dar esse gostinho aos gringos.
A fantasia de coveiro sucede na minha cabeça a possibilidade da de fantoche. Mas essa, também depois de uma breve reflexão, logo se esvai espaço sideral acima (ou abaixo). Seria muito simples e daria um enorme ibope para a morbidez. Apodrecer sobre a terra? Muito melhor, muito melhor.
Além do mais, um coveiro nesses tempos de gente sem ocupação e suando esperteza por todos os poros, corre o maior perigo. E não sou eu quem está inventando. Existem histórias e histórias dando conta de neguinho que se disfarçou de defunto para pegar o profissional da pá desprevenido. Tô fora!
Imperador romano, profeta do apocalipse, sultão, cavaleiro solitário, Batman, Durango Kid, Tarzan, Zorro, político em fim de mandato (da situação ou da oposição, tanto faz), Saddam Hussein, Asterix, Hitler, havaiana de bigode, camisinha furada.... Uma a uma, acabo descartando todas as fantasias.
A esperança de achar um jeito digno de me vestir no carnaval, entretanto, permanece. Daqui para sábado eu deverei ter uma sacada. Uma coisa é certa: esse ano não vai ser igual àquele que passou. A gameleira que me aguarde. O Calçadão da Prefeitura também. Vou estar em todas... Amém!