
Apelo ao povo
Em meios às análises de sempre e a alguns argumentos técnicos novos, salta aos olhos na ata da última reunião do Copom o apelo ao povo. Com ares de quem deseja evitar a adoção de medidas ainda mais duras para liquidar a inflação, o Banco Central convoca o governo a promover outras ações de política econômica e a sociedade a reagir contra a preocupante alta dos preços.
Num primeiro momento, os parágrafos finais da ata lembram a história do cirurgião que, sem mais recursos médicos a dispor, sugere orações à família do paciente. Uma leitura mais atenta, contudo, revela o quase ultimato. Diz o texto: “O Copom avalia que, além dos efeitos diretos da política monetária, também são importantes outras ações da política econômica do governo e a reação da sociedade contra a inflação, para propiciar um recuo mais significativo da variação dos preços com menores custos”.
Ou seja, sem a contribuição da sociedade (travestida de fiscais do Sarney do século XXI), a atuação do BC será mais dura, com custos ainda maiores para a população brasileira. A visão não está exatamente errada. Não são poucos os economistas que identificam na resistência dos brasileiros às remarcações (ou na total insuficiência de renda combinada ao desemprego recorde) um dos motivos de a inflação não ter explodido em 1999, ano da desvalorização cambial. Mas o tom de convocação ficaria melhor no discurso do ministro da Fazenda, ou no do presidente da República.
O que se espera de documentos do BC são explicações técnicas detalhadas sobre as decisões de política monetária. Isso faltou. A ata de ontem não traz uma palavra sobre como será feita a tal convergência da meta de inflação para o primeiro trimestre de 2004, como deu a entender o presidente do BC, Henrique Meirelles, na última sexta-feira. Trata pouquíssimo da elevação do recolhimento compulsório de 45% para 60% dos depósitos à vista. Na única frase sobre o assunto, diz que foi uma forma de contribuir para o recuo mais acentuado da inflação e diversificar os instrumentos de política monetária.
— O texto poderia ter sido mais explícito e objetivo — diz Luiz Carlos Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ.
Chama a atenção também o pessimismo do BC em relação à atividade econômica. Enumera uma série de indicadores negativos na indústria e no comércio e afirma: “observa-se declínio da demanda doméstica, fato que reflete a queda nos rendimentos reais, as condições desfavoráveis no mercado de crédito e o quadro de incertezas”. E diante de tanta terra arrasada, o documento constata que a inflação está caindo, mas num ritmo lento, muito abaixo do necessário para garantir o cumprimento da meta de inflação de 8,5%. E deixa clara a preocupação com a inércia que realimenta a inflação mês após mês.
— O BC demonstra grande preocupação com a baixa velocidade de queda da inflação. Reforça a queda dos preços livres (como alimentos) e mostra o desconforto do governo com o comportamento dos preços administrados — diz Eduardo Berger, economista do Lloyd’s Bank.
Prado também enxerga na ata sinais de que o BC reconhece que tem pouco a fazer em relação ao aumento das tarifas, indexadas ao IGP-M (energia elétrica), ao IGP-DI (telecomunicações) e à cotação externa do petróleo e à variação do dólar, como é o caso dos combustíveis:
— Isso torna absolutamente necessária uma solução para o modelo de reajuste desses setores. Não é à toa que outras áreas do governo, inclusive o presidente, estão defendendo mudanças, coisa que o BC não pode fazer.
Fica claro que a luta contra a inflação no novo governo depende não apenas das ações que içaram os juros a 26,5% ao ano. E tampouco são exclusivas do BC. Palavras do próprio.
Risco que cai
Em vésperas de guerra, é comum o aumento da aversão ao risco, sobretudo quando se trata de países emergentes. Mas não é isso que está acontecendo. Nos últimos tempos, os indicadores de vários países não apenas pararam de subir, como caíram. Dentre os países com bom desempenho, está o Brasil, cujo risco ontem estava próximo dos 1.250 pontos.
Enquanto as bolsas perdem investidores, os fundos dedicados aos emergentes estão com facilidade de captação. Há razões para a onda de confiança: o risco corporativo aumentou diante da iminência da guerra, pois acredita-se que o crescimento da economia será retardado. Na balança dos investidores, o risco de default dos governos parece menor que o das empresas.
Nos casos de Rússia e México, que têm risco bem mais baixo que o brasileiro (377 e 321 pontos, respectivamente), o petróleo vem ajudando. Ambos estão fazendo caixa com a vendas do óleo, cujo preço só aumenta. Para o Brasil, as boas novas vêm da boa avaliação da política econômica do novo governo. Destoa do grupo a Venezuela, que só não tem risco mais alto porque produz petróleo.