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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003

Ágio nas barrancas do rio Acre

Cupuaçus, bananas e outros produtos sofrem mais de 500% de reajuste entre o desembarque e a venda no comércio de Rio Branco

Josafá Batista

Da subida íngreme do barranco localizado atrás do Mercado Municipal Aziz Abugater (mais conhecido como “Camelódromo”), das pequenas embarcações carregadas de bananas, cupuaçus, mamões e outros produtos, até a rede de bancas, inferninhos, bares, lanchonetes e açougues, a cerca de 300 metros morro acima, existe um ágio nos preços de até mais de 500%.

Nada escapa desse inflacionamento nos preços do amplo leque de produtos agrícolas, geralmente transportados de barco pelos próprios produtores. A venda de cupuaçus, bananas, mamões, castanhas, melancias e outros costuma ser a única fonte de renda para milhares de famílias, que, para sobreviver, vêm produzindo cada vez mais, num mercado abundante e altamente competitivo.

Um bom exemplo desse processo é o cupuaçu, fruta nativa da região amazônica e com larga aceitação nas mesas de todas as classes sociais. Ao chegar ao pé do barranco, cada unidade, nesse período de safra, é vendida aos atravessadores a 20 centavos.

A oferta abundante, inclusive de outros produtores, obriga alguns a baixar ainda mais o preço, mesmo com certo prejuízo - sobre isso, é bom notar que alguns barcos trazem famílias inteiras para a capital. Elas não têm como se manter, a menos que consigam vender todos os seus produtos, por um bom preço, o mais rápido possível. Mas isso dificilmente acontece.

O fenômeno maior acontece durante o transporte do produto. De 20 centavos, no barco, o mesmo cupuaçu será encontrado, 250 metros acima, 500% mais caro. Os motivos para esse ágio são diversificados. Um deles é que, em 99,9% dos casos, o comprador prefere adquirir seu produto no mercado.

Produtores se unem para
pagar diesel usado nos barcos

Morador do Projeto de Assentamento Humaitá, Charles Gonçalves de Oliveira, 30, mantém a família de quatro pessoas com o pouco dinheiro que arrecada na comercialização de seus produtos agrícolas. Os principais são o cupuaçu e a banana. A corrida pelo ágio entre os atravessadores, que pressiona os preços ainda mais para baixo, fez com que os gastos com o transporte ficassem a descobertos.

“O dinheiro que ganho aqui não dá para pagar os gastos com o transporte. Então estou trazendo a minha produção e a de um vizinho, que me ajuda a pagar o diesel do barco e me ajuda no embarque. O dinheiro que fazemos só dá para isso e se sobra alguma coisa é para gastar com a comida aqui”, diz ele.

Já Francisco de Assis Araújo, 39, outro produtor, pai de cinco filhos, relata episódios ainda mais dramáticos.

“Onde moro, além de ser longe é difícil conseguir parcerias. Lembro que uma vez vendi 400 cupuaçus a 86 reais e gastei 60 só com combustível para o barco. Muitas vezes o cálculo dá tão negativo que é preferível jogar os produtos no rio. Já joguei até dois mil cachos de banana por causa de saldos negativos assim”, explica Francisco, sorumbático.

Atravessadores atribuem e negociam novos preços

Nem os produtores, nem os fregueses e muito menos o governo estipula os preços dos produtos comercializados nos barcos atracados ao porto atrás do Camelódromo. Ali quem manda mesmo são os atravessadores. São eles que atribuem os preços finais.

Dependendo da demanda, da procura e até do estado de conservação do item, a variação pode estender-se a níveis intratáveis pelos produtores. Ou, então, a pequenas “minas de ouro” - como os casos da banana-comprida, sempre com boa aceitação no mercado mesmo no período de safra.

O processo de demarcação final de preços requer um longo diálogo entre produtor e atravessador, que geralmente é também comerciante. A batalha é feroz, estende-se por vários minutos. Em período de safra de cupuaçu, leva a pior o produtor que negociar demais. Já no caso da banana-comprida, quem negocia costuma chegar ao velho “acordo bom para ambas as partes”.

Foi o que aconteceu ontem. O comerciante Francisco Moura da Silva, 42, resolveu comprar a produção de seu xará Francisco Pereira da Silva. Ofereceu 3,50 pelo belos 10 cachos de bananas compridas. De cara, obteve uma negativa do outro Francisco, que disse não vender por menos de 5 reais.

A semelhança dos nomes e sobrenomes não impediu uma verdadeira batalha dialética no espaço entre a embarcação e a beira do rio, onde o comerciante, nu da cintura para cima, discursou até sobre a situação política do país.

“Precisamos ter dignidade. Não podemos explorar os outros, porque todos precisam sair ganhando. É um ato de humanidade, de clareza e sabedoria saber até onde devemos ganhar e até onde os outros saem ganhando”, argumentou.

O xará: “Arranquei esse cacho na munheca, meu amigo. Você não sabe a luta que é para transportar isso tudo até a cidade e depois esperar os outros botarem preço se baseando no que terceiros vendem”.

Meia hora depois o problema era resolvido. Todos os cachos foram vendidos. De Francisco a Francisco o preço estacionou nos 4 reais.

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