
Raimundo F. Souza *
Nesse dia 25 de fevereiro, quando eu estava saindo do expediente, encontrei meu amigo Dalmir Ferreira. Após as corriqueiras formalidades (tudo bem pra lá, tudo bem pra cá), ele me indaga; “E aí, esta semana você vai falar de quê?”. Respondi que ainda não sabia. “Não tem uma idéia boa para mim?”. Sem pestanejar, ele adiantou logo o título: “cutucando o cão com vara curta”. Não pensei duas vezes.
Na verdade, isso não um título, é um tratado da vida real. Esse adágio popular representa toda a epopéia da vida humana, do nascimento até o fim da sua existência, pois nos encontramos em constante perigo, correndo risco a cada momento, exatamente como quem está se arriscando em cutucar o bicho sem manter a distancia suficiente que garanta certa margem de segurança.
A propósito, por conta exatamente dos riscos de vida na pacata cidade de Rio Branco, as pessoas que outrora tinham a satisfação de anunciar em outras cidades maiores do Brasil que aqui era tranqüilo, que ainda se poderia dormir de janela aberta e tal, a essa altura, em busca de segurança, estão trocando as casas de quintal por apartamentos, na ilusão de que nesses prédios lá em cima, com segurança na porta, inclusive armado, tendo que identificar todo mundo na entrada, estarão seguro e livres da violência.
Na verdade, em meio a essa arena de leões vorazes, onde prevalecem o desemprego, a fome, a falta de educação, o vício, a injustiça, a revolta dos que não têm as mesmas condições de enriquecimento fácil, entre outras razões, ninguém estará imune a violência, seja pela necessidade, seja pela revolta. E, além dos riscos a varejo na luta pela sobrevivência, ainda somos aterrorizados, correndo outros riscos na área dos direitos e garantias, podendo ser atingidos por mais essa violência.
Não só eu, mas vários servidores públicos estão passando por período de suspense mais horripilante que filmes do Alfred Hitchcock assistido de madrugada, pois o nosso governante maior, a essa altura do campeonato, cismou de mudar as regras do jogo - já batizou direito adquirido de “privilégio”, quer estabelecer teto para vencimentos de aposentado, criar pagamento de previdência também para pensionistas e, finalmente, tornar mais difícil que o “natural” a vida dos que conseguirem se aposentar.
Os perigos e os riscos estão por toda parte, da mesma forma que os fatos agradáveis, as coisas boas, os negócios rentáveis, as satisfações pessoais, entre outras. As condições insuportáveis, coisas ruins, negócios sujos, pessoas más estão também à solta e à disposição, podendo, a qualquer momento, por alguma circunstância, fazer parte da vida de qualquer um, ou seja, às vezes você não cutucou o cão com a vara curta porque o animal estava camuflado.
Relata uma anedota que dois corvos estavam observando um crocodilo tomar sol e, depois de algumas horas, constataram que o animal não se mexia e até a lama que recobria seu corpo estava seca. Aí começaram a pôr em dúvida a possibilidade de ele estar vivo ou morto. Entoaram um cântico, fizeram barulho e nada do bicho se mexer. Então um teve a idéia de bicar o olho do crocodilo. Confessou esse desejo para o amigo, o outro achou arriscado, mas compreendeu que era uma forma de tirar a dúvida. O corvo desceu com todo cuidado, aproximou-se do suposto animal morto, mas raciocinou que, se ele não estivesse morto, esse ato seria fatal. Que fez ele? Apanhou um arbusto e se aproximou, achando que estava garantida a margem de segurança, mas antes de tocar no alvo, o crocodilo avançou e engoliu o corvo com arbusto e tudo. O outro, que escapou, ponderou: “É... posso até cair em uma armadilha, mas jamais vou correr um risco visível, sem a utilização de uma longa vara”. Segundo testemunhas, ainda hoje ele está aí para contar a história.