

Foliãs do Carnaval
de antigamente esperam
reviver bons momentos das festas passadas
Histórias de outros carnavais
Foliões dos anos dourados
lembram as tradições
da festa popular em décadas passadas
Tatiana Campos
Um mês antes começavam os preparativos: escolha da fantasia, da música, acerto dos detalhes, ensaios. Toda a sociedade se envolvia nos arranjos da grande folia. Nem precisa dizer que a festa, para muitos, começava aí.
Quando os blocos chegavam em frente à Tentamen, o clube mais tradicional de Rio Branco, o som anunciava: “tanram, tanram, tanram...”. Logo em seguida vinha a marchinha que era escolhida por cada grupo. O espaço no meio do salão era aberto para a apresentação dos foliões, que em seguida se misturavam aos demais e partiam para outro clube.
O Carnaval de rua não era tão forte quanto hoje, mas não faltavam os “blocos do sujo”, com as crianças fantasiadas, os homens vestidos de mulheres, foliões que levavam às ruas as críticas à sociedade e à política da época.
À tarde todos ganhavam as ruas da cidade para curtir a grande brincadeira que era a festa momesca.
Ninguém queria faltar à tradicional batalha de confetes que acontecia em frente ao Palácio Rio Branco. Serpentinas ajudavam a colorir a festa e o cheiro dos lança-perfumes ficava no ar enquanto a banda tocava as marchinhas - diga-se de passagem, a grande maioria era composta por acreanos.
Em épocas passadas, o Carnaval tinha cheiro de lança-perfume, brincadeira que não era proibida na época porque o líquido perfumado e gelado jogado nas pernas das moças e no ar não era usado com maldade.
Catraia noturna
Quem morava no Segundo Distrito atravessava o rio - na catraia - e ia brincar no Clube Rio Branco. Já os moradores do Primeiro Distrito preferiam a Tentamen.
“Nós escolhíamos os catraieiros mais antigos e atravessávamos o rio. Naquela época não havia ponte. O bloco combinava de se encontrar do outro lado. Às vezes os blocos rivais se encontravam na escadaria da Gameleira e era muito interessante. Era tudo muito organizado. A diretoria do clube era avisada e esperava o bloco na porta para recepcioná-lo e apresentá-lo no salão”, lembrou Zelita Sandra Rodrigues, uma das primeiras rainhas do Carnaval em Rio Branco.
Acirema Paes Pereira, filha de um dos presidentes da Tentamen, Francisco José Paes, lembra que não havia muita iluminação no rio e a única luz era fruto de um candeeiro pequeno instalado no banco do catraiero. “E sempre aparecia um engraçadinho para apagá-lo”, recorda.
Rivalidade entre os blocos
Havia a eterna rivalidade entre os blocos: disputavam a fantasia mais bonita, o grupo mais animado, mas a grande disputa mesmo, segundo Acirema, era entre as moças. “Os rapazes davam preferência para as do Segundo Distrito, que eram mais bonitas. Essa era a maior rivalidade”, disse.
Nessa festa não havia brigas, os foliões se armavam apenas de alegria e as drogas não faziam parte da brincadeira. As famílias levavam as crianças fantasiadas para a folia sem preocupação. Assim era o Carnaval de antigamente, brincado pelos idos dos anos 60 e que não saem da memória de quem se divertiu nesses bailes.
Fotos dessa época a professora universitária Maria Celeste não guarda. Mas na lembrança as imagens não foram apagadas. Ela, que já se fantasiou de cigana, bailarina e tirolesa, lembra o Carnaval de antigamente com a mesma nostalgia da música que cantou durante a entrevista: “Quanta riso, ó, quanta alegria/Mais de mil palhaços no salão...”, tocada até hoje nos bailes.
Havia vários blocos e a cada ano eles tinham um nome diferente, de acordo com a fantasia. Uma turma tradicional, segundo Zelita, era o Bloco dos Treze, do qual faziam parte nomes como Armando Pereira, Alberto Dantas, Ari Rodrigues, Alberto Zaire, Jorge Kalume, os Abrãao e os Felícios.
“Os blocos eram formados sempre por pares. No ano em que fui rainha, em 1955, organizei o meu bloco, o da Banana, com 25 moças e 25 rapazes, isso eu consigo lembrar bem. Tinha também o bloco dos casados. No tempo em que eu era solteira, a Diná, casada com o doutor Augusto, era quem organizava a festa. Sempre gostei muito de Carnaval, era muito animado. Eu costumava dizer que no ano que não pudesse mais brincar iria morrer. Hoje eu saio no Bloco dos Anos Dourados, no Juventus.”
Resgatando a tradição
Hoje, diz Celeste, mesmo com o resgate da cultura e da história do povo acreano promovido pelo governo do Estado, o Carnaval não é o mesmo daqueles que passaram.
“Há muita diferença do Carnaval de antigamente para o de hoje. No meu tempo era uma festa sadia. Existiam os blocos carnavalescos onde 20, 30 casais de jovens se reuniam e brincavam sem maldade. Sinto saudade dessa época porque nela eu era feliz e não sabia”, disse Celeste.
A escolha da música e da fantasia era sigilosa. “Ninguém do lado de lá [Primeiro Distrito] ou de outro bloco poderia ficar sabendo que fantasia iríamos usar. Depois de escolhido o tema, eu desenhava o modelo e a Zelita bordava”, comenta Acirema.
A professora atribui a perda do brilho do Carnaval à chegada da televisão ao Acre, a partir de 1974.
“A cidade tomou grande impulso em todos os sentidos. Os costumes familiares dos jovens se transformaram, alguns seguiram os maus exemplos da violência, da rebeldia, do envolvimento com drogas e bebidas. Nesse sentido, o governador tem grande importância por estar resgatando a forma como se brincava antigamente. As gerações vindouras agradecem”, comentou.
Luizão, 15 anos de reinado
Luiz Lima dos Santos foi o primeiro rei momo
do Carnaval acreano. Seu reinado durou 15 anos. Nos primeiros “reinados”
os “súditos” não tinham o direito de escolher seu
rei, mas brincavam com ele todas as noites de Carnaval.
Os presidentes de clubes se reuniam e escolhiam quem seria o rei do Carnaval
e receberia a chave da cidade. Luizão, como era conhecido em vida o
primeiro rei momo acreano, era exigente com suas roupas e fazia questão
que elas apresentassem toda a pompa e requinte de uma vestimenta real.
“Ele foi o primeiro e o único rei momo. Digo isso pela alegria que ele tinha e pelo entusiasmo com o qual brincava o Carnaval. Lembro bem que nos dias que antecediam a festa ele ficava agitado, contente. Queria saber da roupa dele, se ia ficar pronta, se estava como queria. Aqui em casa era uma agitação”, lembra Sâmia Lima Belém, filha de Luizão.
Sâmia conta que, ao ver todo aquele clima de alegria e festa em sua casa, sentia vontade de acompanhar o pai na folia, mas era pequena. “Naquele tempo quem era menor de idade não entrava mesmo nos clubes”, lembra. Todos ajudavam nos preparativos do rei. Um pegava a roupa, outro fazia a maquiagem. E Luizão, que pesava 110 quilos, era só alegria.
Quem não se entusiasmava muito com o Carnaval era Naila José dos Santos, a esposa do rei, que nesse caso não queria ser rainha. Ela conta que não via a hora de toda aquela agitação em sua casa acabar e o marido terminar de se aprontar para o Carnaval. “Quando ele saía eu ia para a cama dormir. Nunca gostei de Carnaval, nem fui a um clube. Mas eu não tinha ciúme não. No início não havia a rainha. Em compensação, tinha as escudeiras, que eram sete mulheres que cercavam o rei. Da festa eu só via a animação aqui em casa e sentia o cheiro de lança-perfume que vinha até aqui”, disse Sâmia.
Rainha do Carnaval
Zelita Rodrigues foi uma das primeiras rainhas do Carnaval de Rio Branco. Na época, as eleições eram organizadas pelos presidentes dos clubes para arrecadar dinheiro. As candidatas não sabiam que estavam sendo votadas. Os foliões elegiam a rainha e só na hora da coroação ela ficava sabendo que havia ganho o reinado.
“Eu fiquei muito feliz quando soube que havia sido escolhida. Na época, o Ari [médico Ari Rodrigues] estava começando a me paquerar e lançou o meu nome para rainha. Eu não sabia de nada, mas foi uma emoção que lembro até hoje desfilar nos salões dos clubes. Naquele tempo, 1955, não havia carros em Rio Branco e o Carnaval era mais no clube do que na rua. Não havia fantasia diferenciada, era a mesma do bloco em que eu brincava”, lembra Zelita.
A rainha não lembra se foi a primeira a ser eleita no Acre. “Na minha lembrança não teve nenhuma outra antes de mim, mas eu também posso estar enganada”, disse.
Carnaval terminava no navio
No Carnaval da década de 60 os pais também impunham limites aos filhos, mas não tinha problema voltar para casa só na manhã do dia seguinte. “Respeitávamos muito nossos pais, mas naquela época os bailes também só acabavam ao amanhecer. A diferença é que o pai e a mãe ficavam tranqüilos em casa sabendo que o filho estava no clube, que não estava bebendo, que tinha segurança”, lembra a professora universitária Maria Celeste.
Na última noite de Carnaval a banda que tocava na Tentamen ganhava as ruas em direção ao rio Acre. Era em dois navios ancorados que a festa terminava. A despedida da folia acontecia nos navios João Gonçalves e Benjamim.
“Era uma coisa rápida, essa festa não durava mais que meia hora. Saíamos do clube seguindo a banda até um dos navios e nos despedíamos do Carnaval nas águas do rio Acre. Quando comecei a brincar já havia essa tradição”, lembra Acirema.