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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 28 de fevereiro de 2003
A metamorfose do poder

Beneilton Damasceno *

Tomei foi um susto quando meu amigo de infância José Pereira Passos, o Professor Zeca, um cidadão de boa família e de fino trato, chegou perto de mim com a cara “desse tamanho” e bodejando sem parar. Nem lembrava aquele rapaz alegre (sem ambigüidade, gente!) do Aviário que eu conheci no abrir dos anos setenta, poucos meses depois que o homem havia botado o pé na planície lunar. Eu tinha acabado de deixar o caixa eletrônico do Varejão Popular. Era manhã de sábado, o pessoal da Educação estava recebendo e o supermercado fervia naquele ruge-ruge medonho.

- Rapaz, a gente vê cada uma! O cara se criou com a gente, batia bola todo mundo junto no campo do Independência, você lembra? Agora, depois que ganhou um dê-a-essezinho mixuruca, faz que nem conhece as pessoas. O homem tá muito importante, ó? Fui inventar de dar as horas e ele sequer respondeu.

- Sim, Zeca, eu até que gostaria de concordar. Mas de quem você está falando mesmo? - perguntei, interessado.

- Tali ele, repara! - disse, apontando com o beiço.

Bati o olho no dito-cujo. O Zeca tinha razão. Menino, o sujeito parecia um deus. Celular reluzente na mão, bem trajado, girava a cabeça lentamente, como a reivindicar a merecida atenção naquele recinto repleto de “gente pobre”. Quanta empáfia, meu Deus! O Zeca e eu ainda o acompanhamos à distância uns dois ou três minutos, tempo que o venerável senhor precisou para analisar o ambiente, dar meia-volta e retornar ao estacionamento, acompanhado da esposa. Não se deu o desprazer de comprar ao menos um bombom...

Ainda abalado com o episódio, o Zeca perguntou:

- Bené, me diz por que as pessoas se transformam toda vez que arranjam um cargo de confiança, seja ele merecido ou não? Gestos como esses do nosso ex-vizinho não são isolados. Parece ser uma regra geral: melhorou na vida um tiquinho e já acha que os outros não valem o que valiam antes. Dá para explicar?

Ameacei recordar aquele consagrado exemplo do macaco que se lambuza, mas logo refleti e ponderei que a ocasião exigia uma ilustração menos nauseabunda. Além do mais, vamos convir, o diálogo entre um revisor (grandes coisas, hein?) e um veterano educador não merece despencar a esse nível, digamos assim, de cunho excrementício. Resolvi filosofar.

- Olha, professor. Eu prefiro acreditar que, nos casos como esse em análise, as pessoas na verdade não mudam de fato. Elas tão-somente de desvencilham da própria máscara. Quer dizer, simulam até onde podem e, no momento que consideram propício para “entrar em campo”, assumem aquela identidade que conseguiram acumular ao longo dos dias. Sorriam e agora não mostram mais os dentes. Tornaram-se rigorosas, sisudas, criaram novos hábitos. Não, não se trata de uma patologia, professor Zeca. Conheço homens e mulheres que desde a mocidade experimentam as benesses do poder e nem por isso se deixaram persuadir pela cruel arrogância.

E fiz desfilar dezenas de nomes de humanos incontaminados pela megalomania. Não sei se consegui convencer meu companheiro, mas ele se despediu de mim aparentando bem mais sereno do que quando o encontrara ao lado do caixa eletrônico do supermercado.

Para que o leitor não venha depois alegar que eu sou chegado a uma fofoca barata, recuso-me a tocar no assunto envolvendo aquele ex-gente-grande do poder público que encontrei outro dia na cantina do Aeroporto Internacional Plácido de Castro, numa tarde de domingo. Ao avistá-lo solitário numa mesa sorvendo um café expresso, tomei a iniciativa de cumprimentar o homem com quem tive a ventura de trabalhar no distante ano de 1987, época em que ele aparentava ser igual a mim. Quebrei a cara: ao notar minha aproximação, a autoridade mais que depressa escondeu a cabeça atrás do jornal que fingia ler com apetite. Talvez imaginou que eu fosse pedir-lhe emprego. Ou quis deixar claro que nunca havíamos sido iguais. Envergonhado, cortei caminho e desci para o saguão. Só o vejo, vez por outra, pela TV. Ainda bem.

Da próxima ocasião em que encontrar um desses personagens - ou os dois juntos -, prometo criar coragem e lembrar a eles que a “doença” da soberba é cíclica e, por sua vez, reversível. Dura mais ou menos quatro anos, prorrogáveis, em alguns casos, por outros quatro. Mas sabe? Acho melhor parar por aqui antes de ser levado a citar nomes e apelidos. E o leitor, naturalmente, não quer saber de fuxico.

* bennedamasceno@hotmail.com

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