OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

A Pré-história Acreana VI
(O caso dos sítios geométricos)

No artigo anterior dessa série vimos que os caminhos terrestres que ligavam o rio Acre ao norte da Bolívia foram de grande importância para a economia seringalista do final do século XIX na medida em que possibilitaram o comércio de gado importado dos campos do rio Beni. Mas começamos a ver também que esses caminhos eram muito mais antigos que a abertura dos primeiros seringais e são imprescindíveis para compreendermos a pré-história acreana.

Nos caminhos do Grande Aquiri (II)

Novo sítio arqueológico em Boca do Acre, descoberto recentemente por Teófilo Leite a partir de pesquisas no Google, e que apresenta estruturas de terra bastante complexas que incluem uma estrutura linear que se estende por mais de três quilômetros até onde a área desmatada permite a visualização

Marcos Vicentti
Novo sítio arqueológico geométrico descoberto, em junho de 200,7 pelo autor desse artigo e que está em território acreano próximo a fronteira com o Amazonas. Observe-se que ele possui estruturas lineares (estradas?) que saem nas quatro direções e em especial uma grande estrutura linear visível na parte de cima da foto

Um dos principais aspectos que deve ser considerado ao tratarmos da ocupação pré-histórica do Acre é que devemos estabelecer novos parâmetros para o reconhecimento da territorialidade dos povos desse período. Por isso, temos defendido nesta série que para compreender esse passado mais longínquo é preciso pensar num território muito mais amplo que inclui não só os altos rios Purus e Juruá, mas também os rios Beni e Ucayale, incluindo todos os seus afluentes. E é esta extensa área da Amazônia Ocidental que temos tratado aqui como o “Grande Aquiri”. Uma ampla região que extrapola muito os limites nacionais tão familiares ao nosso olhar contemporâneo e que no caso acreano possui a característica adicional de ter perdurado até um período muito recente, uma vez que os nacionais (caso de brasileiros, peruanos, bolivianos e europeus) só começaram a chegar aqui muito tardiamente, em pleno século XIX.

Mas, além dessa outra territorialidade é importante considerar também que os relatos deixados pelos viajantes e exploradores que percorreram os diversos rios amazônicos nos mostram que, além dos rios, os povos indígenas da Amazônia utilizavam caminhos terrestres de grande importância para o estabelecimento de suas relações culturais, econômicas e territoriais. Ou seja, além do curso natural dos rios, as comunicações e deslocamentos no “Grande Aquiri” possuíam outros eixos, orientados, dessa vez, pelas terras firmes e as varações que existiam nestas. E os exemplos são muitos.

Seguindo a lógica retrospectiva que tem nos guiado nesse artigo vemos que Euclides da Cunha reconheceu a grande importância desses caminhos terrestres uma vez que “o homem, em vez de senhorear a terra, escraviza-se ao rio. (...) Ora este aspecto social desalentador (...) corrige-se pela ligação transversa de seus grandes vales (...). Em 1904 o oficial da marinha peruana, Germano Stiglich, encontrou no Javari vários brasileiros, que o surpreenderam com a simples narrativa de uma travessia costumeira (...) os sertanistas entram pelo javari, subindo o Itacoaí até as cabeceiras; varam dali, por terra, a buscarem as vertentes do Ipixuna; alcançam-nas; transmontam-nas; descem o pequeno tributário; chegam ao Juruá; navegam até o São Filipe, onde infletem, penetrando o Tarauacá, o Envira e o Jurupari até aonde subam as suas canoas ligeiras; deixam-nas; rompem outra vez por terra a encontrarem o Purus nas cercanias de Sobral; descem, embarcados, 760 km do grande rio até à foz do Ituxi; e, enveredando por este ultimo vão, depois de uma outra varação por terra, atingir o Abunã, que baixam, abordando, afinal, à margem esquerda do Madeira”. 1

No artigo passado demonstramos como antigos varadouros foram extremamente importantes para o estabelecimento de rotas comerciais fixas entre o sul do Acre e o norte da Bolívia já durante o período de abertura dos seringais em fins do século XIX. Mas é possível recuar ainda mais as referencias da historiografia amazônica sobre outros caminhos terrestres igualmente importantes no Grande Aquiri.

Durante suas viagens, realizadas entre 1864 e 1865, aos rios Aquiri (na época ainda denominado assim) e Purus o geógrafo inglês William Chandless se refere a diferentes caminhos terrestres que cortavam os vales acreanos, bolivianos e peruanos tanto no sentido leste-oeste, como no sentido norte-sul complementando as rotas dos grupos indígenas que aqui habitavam em meados do século XIX. Em relação aos índios Manetenery (grafia do autor) afirma que “Toda a tribu parece conhecer mais ou menos o Juruá, porém muito poucos tem conhecimento do Ucayali. Um velho disse-nos que o numero de dias até o Purús, para onde elle arrasta sua canoa, gastando dois dias neste trabalho e dez dias para descer dahi pelo Ucayali abaixo até o Sarayaco.” E acrescenta adiante: “Manoel Urbano referiu-me que um índio muito velho apontava continuamente para o Leste, dizendo: ‘Beni’; importunando-o sempre com o tal Beni, que elle não entendia.”2

Mas é possível recuar ainda mais as referencias a estes caminhos terrestres. O antropólogo Antonio Porro, autor de diversos trabalhos sobre a etno-história amazônica, remete às informações de Gaspar de Carvajal que, em 1542, observou que na região pouco acima da foz do rio Purus havia “um povoado à maneira de guarnição, não muito grande, no alto sobre o rio” e de onde partiam “muitos caminhos que entravam pela terra adentro mui reais”. E mais adiante se refere à outra povoação indígena batizada pelos espanhóis como Aldeia da Louça que “parecia ser lugar de recreio de algum senhor da terra adentro” porque ali chegavam caminhos “bons e largos, que entravam pela terra adentro (e que) denotavam ser aquela aldeia freqüentada e haver nessa comarca, ou perto dela, muitas povoações e gente; esses caminhos eram ‘maiores e melhores quanto mais se afastavam do rio’, o que confirma a importância econômica do hinterland e sua integração à várzea fluvial.”3

Caminhos do conhecimento

Com estes poucos exemplos, que poderiam aqui se multiplicar muito graças à vasta bibliografia que cobre os séculos XVI ao XIX, resta evidente a existência de inúmeros e variados caminhos terrestres em toda a Amazônia. Mas no caso do “Grande Aquiri”, ainda mais importante é a qualidade dos contatos e relações que foram estabelecidas através desses caminhos. E neste sentido nos limitaremos a apenas dois exemplos dada às limitações de espaço deste artigo.

Na notícia sobre o rio Purus escrita por Antonio Pereira Labre, fundador de Lábrea e executor de uma célebre viagem terrestre entre o Acre e a Bolívia no fim do século XIX, nos informa que “Os índios Manetinery dão notícia da lhama, e criam-nas; em suas tribus foi vista uma ainda pequena.”4 Com essa referencia à criação de lhamas, um animal tipicamente andino, pelos índios Manchineri, que à primeira vista pode parecer um tanto quanto fantasiosa, Labre nos revela que grupos indígenas que habitavam a região do “Grande Aquiri” mantinham contatos permanentes (de caráter comercial ao menos) com sociedades andinas. Uma afirmação que é corroborada por afirmações de outros autores como Chandless e Euclides da Cunha, para me ater só aqueles já citados aqui. Mas que, além disso, parece ser indicativa de relações muito mais profundas e permanentes do que até aqui se supunha.

Ainda citando o relato de Carvajal (1542), Antonio Porro nos revela que “Da aldeia dos bobos ‘entravam muitos caminhos pela terra adentro, porque o senhor não reside sobre o rio’. Aqui o cronista fez a surpreendente afirmação de que ‘este senhor possui muitas ovelhas das do Peru e é muito rico em prata’. Sendo muito improvável que o chefe Paguana estendesse seu território até o habitat da lhama, ou que algum cacicado andino tivesse conquistado todo o curso do rio Purus até o Amazonas, a posse de lhamas e prata só pode ser explicada por um comércio regular de longa distancia, fato até aqui não comprovado, mas tão plausível quanto a rota do ouro do alto rio Negro, já referida anteriormente.”5

Todas estas referencias históricas começam, portanto, a nos esclarecer sobre uma possível interpretação dos sítios geométricos com estruturas de terra. Inicialmente porque as datações que possuímos destes sítios nos revelam uma ocupação muito antiga e duradoura (entre 3.000 e 1.000 anos antes do presente, pelo menos) que poderiam ter deixado fortes reflexos na realidade que foi encontrada pelos europeus do século XVI. Por outro lado, as pesquisas arqueológicas tem nos mostrado também que esses grupos pré-históricos estavam migrando do sul (da região do rio Beni, na Bolívia) para o norte (em direção ao rio Amazonas), tendo como eixo de deslocamento a terra firme e não apenas o curso dos rios, questões às quais retornaremos nos próximos artigos. Mas, principalmente, estes relatos começam a nos dar uma possibilidade de explicação, não só para as formas geométricas que caracterizam estes sítios, mas também para as estruturas lineares que partem em diversas direções de muitos dos sítios com estruturas geométricas de terra (ver fotos dessa matéria).

Ou seja, estas estruturas lineares, sempre muito retas, poderiam ser vestígios de caminhos terrestres (varadouros e varações) que seriam de importância fundamental para os fluxos internos e externos do território destes grupos uma vez que podem indicar relações comerciais e culturais estabelecidas de forma permanente numa ampla região que se estende (até onde sabemos hoje) do norte da Bolívia até a região de Boca do Acre, no sentido norte-sul, e do norte de Rondônia até Sena Madureira no sentido leste-oeste. É claro que tudo isso ainda deve ser considerado com caráter hipotético, mas, no mínimo, é uma interessante direção para as futuras pesquisas a serem realizadas no Acre.

1 – Euclides da Cunha, “O Paraíso Perdido”, 2000

2 – W. Chandless, Notas sobre o rio Purus, 1868

3 – A. Porro, O povo das águas, 1996

4 – A.P.Labre, Rio Purus, 1872

5 – A. Porro, Op cit

 

 

 
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Rio Branco-AC, 30 de março de 2008
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