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Maria Regina Canhos Vicentin * |
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Quantos filhos devemos ter? Pergunta interessante e atual: quantos filhos devemos ter? Alguns acreditam que devemos ter quantos Deus mandar. Outros, quanto nosso orçamento permitir. Existem aqueles que procuram imaginar o que seria considerado adequado, principalmente porque têm a visão de que “quem tem um não tem nenhum” e que o “filho único” fatalmente será pessoa problemática. Outros há que, por não se sentirem preparados, simplesmente descartam a possibilidade de filhos. Mas afinal, quem está com a razão? Quem tem um, dois, vários ou nenhum? Antes de responder a essa pergunta vamos refletir um pouco acerca do que é ter filhos. Será que tê-los é simplesmente pari-los? Constituí-los através de nossa carne e nosso sangue, e entregá-los ao mundo? Acredito que ter filhos é muito mais do que simplesmente colocá-los no mundo. Existe um compromisso entre as pessoas que geraram e a pessoa que foi gerada. Uma co-dependência necessária até que a criança tenha condições de manter-se por si mesma e angariar recursos próprios. Ninguém pede para vir ao mundo, e é preciso que os pais tenham consciência disso para assumir integralmente a responsabilidade pela nova vida que acabam de gerar. O que ocorre atualmente é que a maioria dos pais não assume a maternidade e/ou a paternidade da forma como deveria. Trata a concepção como se fosse acaso do destino ou vontade de Deus, sem se dar conta de sua efetiva participação na existência dessa nova vida. Tem gente que pensa que ser pai e mãe é brincar de casinha. Acham bonitinho ter um ou dois filhos pra mostrar a todos que são férteis e, aparentemente integrados às expectativas sociais, para quem o certo é um casal ter filhos. Não pensam muito em como vão educar. Pensam em atingir um padrão preestabelecido e socialmente aceito. Agora, pergunto: e a vocação? Será que todos têm vocação para serem pais e mães? Têm desprendimento, desejo, afetividade, disposição, paciência e amor para criar esses tão sonhados filhos? Sim, sei que não nascemos “pai” e “mãe”. Nós nos tornamos “pai” e “mãe” em contato com nossos pequerruchos. Vamos aprendendo com eles, vamos nos aprimorando. Mas é necessário, antes de tudo, a nossa disposição em tê-los e amá-los. O nosso compromisso em bem criá-los, educá-los e assisti-los em suas necessidades, que não são poucas e acontecem diuturnamente. Penso que quem não tem disposição para ter filhos não deve tê-los. É isso mesmo! Ter filho pra quê?! Pra cumprir uma expectativa social? Quem vai pagar a conta? A sociedade? Os pais? O próprio filho? Filho não deve ser imposição, mas opção consciente. Não deve ser descuido, mas preparativo para uma vida familiar ampliada, composta de novas possibilidades. Os filhos são a extensão do casal. Eles perpetuam a imagem de ambos numa fusão que nem o Direito será capaz de dissolver no caso de uma posterior separação conjugal. Mesmo aqueles que não são filhos próprios, mas foram adotados num ato de sublime amor, incorporam características dos pais adotivos e passam a se comportar de modo semelhante ao de sua nova família. Quando existe preparo e consciência os filhos são uma verdadeira benção, venham de onde vierem. Quando não existe vocação nem amor, a experiência da maternidade e da paternidade pode surpreender pelo grau de insatisfação, agrura e tormento, redundando numa das experiências mais frustrantes e dolorosas de nossa existência. Não é à toa que muitos pais sintam os filhos como um peso enorme a ser carregado, e muitos filhos busquem em vão a satisfação de seus pais. Quando não há vocação e desprendimento tudo fica muito difícil e amargo. Perdoar erros é quase impossível. Entender tropeços e falhas algo que não faz parte da relação familiar. O crescimento é truncado, problemático e angustiante. Quando existe vocação a coisa é muito diversa. As dificuldades existem logicamente, mas são trabalhadas em compasso amoroso. Investe-se na relação. Planta-se, rega-se e se aguarda pacientemente a colheita dos frutos. Não há revolta, mas compreensão. Não estou pedindo que os pais sejam perfeitos, mas cientes de seu compromisso com a prole. Sei que existem muitos que buscam insistentemente acertar e, a despeito disso, inúmeras vezes erram. Isso faz parte. Faz parte da vida de todas as pessoas, pais e filhos. Mas a intenção conta muito. Talvez, conte bem mais do que se imagina. E então, o que me dizem agora? Quantos filhos devemos ter? * É psicóloga e escritora. Conheça o site da autora: www.meguia.net/buscandoafelicidade. |
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