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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 6 de março de 2003

Cinco dias de paz, alegria e samba no pé

Folia na Gameleira faz o carnaval da família com arte e folclore como antigamente

Rose Farias

O folião acreano merece aplausos. O Carnaval 2003 em Rio Branco foi recheado de muita paz e tranqüilidade. O baixo índice de violência em relação aos anos anteriores registrados nos bailes e nas ruas da capital marcou o diferencial durante a quina carnavalesca.

Um outro aspecto importante foi o resgate do Carnaval como antigamente, com o Folia na Gameleira, organizado pelo governo do Estado, que em seu segundo ano levou as famílias de foliões acreanos a fazerem da festa popular um sucesso.

Unindo arte e folclore, idealizado e promovido pelo governo do Estado, que teve como passarela do samba, a rua Eduardo Assmar, o “Folia na Gameleira - Carnaval como Antigamente”, emplacou, graças a sua impecável organização que transformou o Carnaval de Rio Branco numa festa da família. Segundo dados da Polícia Militar, cerca de 70 a 80 mil brincantes aportaram no Calçadão da Gameleira durante os cinco dias de Carnaval.

Blocos de sujos, homens fantasiados de mulher, drag-queens, crianças com fantasias de bailarinas, baianinhas, palhaços, Emílias e irreverentes foliões, todos caíram na folia embalados pelas marchinhas e sucessos do Carnaval como antigamente e hits do axé entoados pelas bandas Pimenta de Cheiro, Mugs II, Carlinhos Bahia e Geraldo Leite.

Para selar a harmonia carnavalesca, passaram pelo Folia na Gameleira, saudando o Carnaval da família, o governador Jorge Viana e o senador Tião Viana, acompanhados de suas famílias. Os dois aproveitaram o momento para enviar uma mensagem à multidão que tomou o Calçadão da Gameleira, em teor de agradecimento pelos foliões terem transformado o evento numa festa na qual reinou a paz.

Para delírio dos brincantes, perto de encerrar a última noite de Carnaval, às 21 horas, o governador Jorge Viana, contagiado pela folia, pediu à organização do evento que estendesse por mais meia hora o evento. A grande festa momesca encerrou-se com uma queima de fogos. E um saldo positivo de muita paz.

Blocos revivem nas ruas do Segundo Distrito

Um diferencial que marcou o Folia na Gameleira 2003 foi a participação dos blocos, composto em sua maioria por foliões dos bairros do Segundo Distrito.

Entre os que fizeram a alegria durante os cinco dias de Carnaval estavam o Bloco da Cultura, da Fundação Elias Mansour, Maracatu do Guarda-Chuva Achado, criado pela setor de educação ambiental do Instituto do Meio Ambiente do Acre, Lourival Pinho, Fuxico (Bairro Quinze), Cobra Grande, 6D+ (Seis de Agosto).

A foliã Edna Serra, moradora do bairro Quinze, uma das integrantes do Fuxico, acredita que a tendência é que a cada ano o número de blocos dobre.

“Nós, que somos enraizados no Segundo Distrito, amamos o Carnaval de rua. Sou da época das escolas de samba e do Barracão do Quinze. Como esse Carnaval desapareceu, temos que cada vez mais resgatar essa história de alegria em que as famílias, crianças, idosos iam para as ruas com tranqüilidade. Ano que vem outros blocos irão aparecer. Foi tudo lindo nesses cinco dias. Estou com os pés esfolados, mas muito feliz, pois botei todas as mágoas para fora”, disse.

O Maracatu do Guarda-Chuva Achado, criado pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), com a temática sobre o destino e o tempo de decomposição dos resíduos sólidos na natureza, foi outro bloco que chamou a atenção.

Com fantasias criadas pelo diretor de teatro e figurinista Romualdo Freitas, a partir de material reciclável, como latinhas de cerveja, garrafas de refrigerante Pet, tampinhas, papelão, canudinhos, o bloco trouxe para o espaço da Gameleira artistas que atuam no movimento cultural acreano e o grupo Protetores da Vida, formado por adolescentes que trabalham com a questão ambiental em escolas da capital.

Mostrando energia e disposição para cair no Carnaval, o Bloco da Terceira Idade, embalado pela Banda da Polícia Militar, A Furiosa, marcou presença durante os cinco dias no abre-alas do Folia na Gameleira.

Limpando e curando a ressaca

Passada a quina Carnavalesca tudo volta ao normal. Na quarta-feira de cinzas, enquanto alguns foliões dormiam, outros já estavam na labuta desde cedo, caso dos garis. A ordem era manter a cidade limpa. Tanto no Calçadão da Gameleira como em frente à prefeitura, os trabalhadores incansáveis variam e lavavam os espaços.

“Temos que deixar tudo limpo para quando o povo acordar da ressaca. Eu por exemplo, aproveitei para descansar pois sabia que o trabalho ia ser grande na quarta-feira”, disse o gari Sebastião de Souza.

Mas, alguns foliões que viraram à noite, esticando pela quarta-feira aproveitaram para tomar banho nas águas do rio Acre e curar a ressaca.

Caricatos improvisam para satirizar a vida

No Calçadão da Gameleira as “negas-malucas”, palhaços, Carlitos, mortes, baianinhas, Drag-Queens e inúmeras outras fantasias improvisadas e satíricas formaram o grande bloco de caricatos.

Seguindo uma tradição antiga no Carnaval, homens se vestiram de mulher, relembrando a aparição de blocos de “piranhas”, que reuniam esses foliões com suas fantasias e brincadeiras.

A maioria dos caricatos era de jovens, caso do estudante Felipe Martins, 17 anos, travestido com uma fantasia, segundo ele, inspirada nas divas de Hollywood.

“Se não sou uma das divas, estou parecendo. Olha, aqui tudo é uma alegre brincadeira. Meu pai era um grande folião e costumava sair de mulher durante o Carnaval. Eu e meus amigos embarcamos na onda e estamos curtindo adoidado”, disse.


Todos iguais na rua

Itaan Arruda Dias

A Folia na Gameleira - carnaval como antigamente exige uma reflexão do que aconteceu nos dias de alegria ritmada em marchas e sambas. A folia foi uma lição de cidadania às margens do rio Acre, sob as bênçãos da Bandeira Acreana e do olhar vigilante da imponente Gameleira.

Aproximadamente 80 mil pessoas atravessaram o rio para reviver a sensação inovadora de simplesmente pular carnaval. Reunir tanta gente sem o registro de incidente grave aconteceu porque há algo especial a envolver todos naquele lado do rio. Uma espécie de benção protetora que o próprio povo soube pedir e viver.

Houve briga? É claro que houve. Até em reunião de família grande, em menos de cinco dias, é provável que haja algum desentendimento. Mas, durante toda a festa, não chegou a uma dezena sequer o número de ocorrências. E onde está o porquê desse comportamento coletivo pautado pela tolerância e pela alegria? Há que se ressaltar, de imediato, o cuidado histórico que todos tiveram.

A revitalização da rua Eduardo Asmar colocou a responsabilidade para todos os acreanos de cuidar dela como se fosse efetivamente de cada um. Em todos os discursos de importantes políticos do estado, é difícil não se fazer referência a algum personagem, monumento ou passagens históricas relevantes.

A história é, portanto, um processo em que cada acreano é responsável por moldá-la e eternizá-la. Logo, não caberia brigas, intrigas e tristezas em uma rua onde todos são donos. Democrática e historicamente, a rua é de todos.

A frase que pode ser símbolo da volta do carnaval de rua foi dita pela professora Íris Célia Cabanela Zanini, durante entrevista a uma emissora de TV:

- Na rua, todos são iguais.

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