© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, quinta-feira, 6 de março de 2003
Acerto de contas

Tião Maia *

Nas páginas a seguir, o leitor deverá encontrar uma reportagem de minha autoria informando que o TCU (Tribunal de Contas da União) condenou o ex-governador Flaviano Melo e seu ex-fiel escudeiro Carlos Oscar Abrantes Nogueira Guedes a devolverem aos cofres do Tesouro Nacional algo em torno de R$ 8,5 mil (isso mesmo: 8 mil e 500 reais) por irregularidades na prestação de contas dos recursos repassados pelo extinto Ministério do Interior para o socorro das vítimas da grande alagação de 1988.

Quinze anos depois de um dos maiores escândalos em que o Acre esteve envolvido, chega a ser risível que os principais protagonistas do famigerado desvio de donativos a desabrigados sejam condenados a devolver quantia tão insignificante. Mais risível ainda quando a gente sabe que os dois, além de uma autêntica quadrilha cujos membros continuam a atuar em alguns órgãos da Prefeitura Municipal, que se apoderaram de verdadeiros prêmios de loteria, sejam punidos por uma quantia correspondente a furtos de ladrões pé-de-chinelo.

Mas antes que o leitor se pergunte por que me ocupo de um fato de quantia tão insignificante, apresso-me a explicar:

1) a notícia tem fundamento porque traz um alento de que nem tudo está perdido e que processos protegidos nos escaninhos da burocracia e da impunidade no país, de alguma forma, começam a andar.

2) Se esses medalhões foram condenados a devolver pouco mais de R$ 8 mil, por que as autoridades não se interessariam pelos processos que tratam de verdadeiras fortunas e que têm os implicados naquela mixaria como atores dos furtos milionários?

3) A notícia também serve para expor, com a letra fria e desapaixonada dos relatórios de instituições insuspeitas, aquilo que é público e notório e que, ao chegarem às páginas dos jornais, há sempre alguém disposto a contestar com o sórdido argumento de que esta e aquela publicação fazem campanha contra os implicados.

Então, que agora fiquem claras as coisas: não é este repórter, tampouco este Página 20, que afirma ter havido irregularidades nos desvios dos donativos enviados aos desabrigados e desvios nos recursos a serem aplicados no socorro às vítimas. É o TCU que está a enxergar e pedir a punição dos culpados. O valor pode ser ínfimo em relação ao montante envolvido, mas põe por terra o argumento de inocência daquela quadrilha. Quem tem mais de 20 anos de Acre sabe que, em 1988, no segundo ano do governo de Flaviano Melo, foram roubadas toneladas e mais toneladas de alimentos e outros produtos que se destinavam aos flagelados e que acabaram virando moeda de troca na eleição daquele ano.

A função daquela reportagem a que me referi no início é esta: um acerto de contas com a história e com a verdade.

* Jornalista

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal