
Naluh Gouveia
“Nós, mulheres,
precisamos ser mais
solidárias umas com as outras”
Leonildo Rosas
Nas eleições de 2002, os acreanos elegeram apenas duas deputadas estaduais: Naluh Gouveia (PT) e Antônia Sales (PMDB). A peemedebista, nem bem assumiu, pediu licença do cargo em favor do suplente. A petista ficou sendo, então, a única, mulher num Parlamento composto por mais 23 homens.
Casada com o sindicalista Jair Santos, Naluh é professora e formada em Letras pela Universidade Federal do Acre (Ufac). Mãe de duas adolescentes - Inara, 18, e Mariana, 13 -, a deputada, na atual legislatura, será líder da bancada do PT na Assembléia Legislativa pelo quinto ano consecutivo, apesar de os outros quatros petistas serem do sexo masculino.
Um dia antes de se comemorar o Dia Internacional da Mulher, Naluh fala sobre as dificuldades e os desa-fios que as mulheres têm para quebrar as barreiras impostas por uma sociedade machista.
Deputada, como é ser a única mulher dentro do Parlamento acreano?
Agora está mais tranqüilo. No primeiro mandato foi mais difícil porque alguns temas não eram tratados por homens. Isso é muito ruim porque a Assembléia Legislativa é a cara da sociedade. Ver um Parlamento com 23 homens e apenas uma mulher é como se essa sociedade não estivesse representada.
Quais são os temas que os homens não debatem?
Questão de prostituição infantil, aborto e principalmente a violência e o planejamento familiar. Esses temas são tratados basicamente por mulheres.
A senhora nunca conviveu com o preconceito machista na Aleac?
Não. Não porque soube me impor. Foi difícil porque homem, quando quer alguma coisa, começa a falar alto. Mas não se pode negar que sempre há, com relação às mulheres, uma tentativa de diminuí-la na coisa mais preciosa, que é sua honra.
Como assim, deputada?
Se uma mulher fala alto, é porque está querendo chamar atenção. Se uma mulher bate na mesa, é doida. Se uma mulher brinca, é tachada de prostituta. Mas eu soube colocar as coisas no devido lugar. Impor o respeito não foi fácil. Mas hoje tenho espaço garantido. Os outros deputados escutam o que falo e me chamam para participar das discussões. No início, eu percebia que os homens tentavam me alijar de alguns debates.
Que debates?
Sempre que se discutia orçamento, eles argumentavam que esse era um assunto de homem. Essa idéia foi repassada para as outras mulheres que exerceram o mandato de deputada antes de mim. Elas ficavam mais nas questões sociais. Eu não! Sempre participei das discussões sobre o orçamento, por entender que, agindo assim, posso garantir recursos para serem investidos no social.
A senhora fala que não há preconceito. Isso parece contraditório porque a senhora já foi tachada de prostituta por uns deputados no plenário. Isso não é preconceito?
Não. É leviandade. Na verdade, os homens não são acostumados a dividir o poder. Como não fiquei calada, os ex-deputados Vagner Sales (PMDB) e Franesi Ribeiro (PFL) tentaram me agredir com esta palavra. Infelizmente, todas as vezes que as mulheres chegam para dividir poder, eles partem para o lado bruto que há dentro da maioria dos homens. Não me intimido.
A maioria dos eleitores acreanos é feminina. Mesmo assim, as mulheres candidatas não obtêm votações expressivas. A que a senhora credita isso?
Credito isso ao fato de que nós, mulheres, ainda estamos engatinhando na conscientização política. Por isso, acabamos sendo dominadas pelos maridos, pelos pais ou pelos irmãos mais velhos. Essa submissão histórica afetou o crescimento político das mulheres. Infelizmente, apesar dos avanços, ainda existem muitas companheiras acreditando que a política partidária é apenas para homens. A mudança desse conceito é difícil porque nossa trajetória é de dominação.
Mas a senhora acha que houve avanço no Acre?
Sim, é claro. Em relação à eleição de 1998, eu quase dobrei minha votação em 2002. A companheira Perpétua Almeida (PC do B) é a deputada federal mais bem votada da história acreana. Temos uma ministra porque a senadora Marina Silva (PT) passou na frente de todos os homens. Por mais que as mulheres não votem maciçamente em mulheres, temos exemplo que apontam para mudanças no comportamento da sociedade.
A senhora, a deputada Perpétua e a ministra Marina são exceções. O que falta para as mulheres se engajarem na política?
Falta, principalmente, oportunidade. Nós não temos as mesmas oportunidades que os homens. Para nós, ainda recaem todas as obrigações dentro de uma casa. Além de trabalharmos fora, temos que cuidar dos filhos, da roupa do companheiro e do lar.
O governo do Estado, neste segundo mandato, criou uma secretaria para tratar exclusivamente de assuntos relacionados às mulheres. O que a senhora espera da pasta?
A secretaria é uma reivindicação nossa, em conjunto com a sociedade organizada, porque percebemos que o primeiro mandato do governador Jorge Viana deixou a desejar nessa questão. Infelizmente, o índice de violência intrafamiliar é altíssimo e a discussão de planejamento familiar não avançou. Percebendo isso, colocamos para o governador a necessidade da criação de uma Secretaria da Mulher. Ele não colocou nenhum obstáculo.
Mas qual é contribuição concreta que a Secretaria da Mulher pode dar?
Pode ajudar no combate à violência e no atendimento médico às mulheres. Costumo dizer que exame ginecológico é extremante frio. A idéia é utilizar a secretaria para estreitar relações com os ginecologistas para que o atendimento seja humanizado. Pela forma como os exames são feitos, as mulheres, principalmente as da zona rural, ficam extremamente envergonhadas. Muitas preferem não fazer por causa do constrangimento que passam.
Nessa guerra dos sexos existe a afirmativa de que os homens são mais solidários entre eles. As mulheres realmente são desunidas?
De fato, falta muita solidariedade entre as mulheres. Precisamos ser mais solidárias umas com as outras. Eu espero que a Secretaria da Mulher trabalhe mais o sentimento de solidariedade entre as mulheres.
Mas que tipo de solidariedade falta entre vocês mulheres?
Infelizmente, as mulheres não são solidárias como os homens. Eles são muito mais solidários entre eles. São cúmplices uns dos outros. As mulheres não! A competição de mulher com mulher é pior do que entre os homens. Isso é muito ruim para todas nós.
Talvez seja por causa dessa competição que mulher não vota em mulher?
Pode ser. Acho que muitas mulheres não votam em mulher por causa dessa competição que não leva a nada.