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Rio Branco - Acre, sábado, 8 de março de 2003

Mulheres no batente

Numa dupla jornada, a açougueira Elonise
de Freitas ocupa um posto de trabalho
que antes era apenas dos homens

Rose Farias

Elas dispensam títulos e clichês como saradas, purpurinadas, cachorras e Amélias. Apenas querem ser reconhecidas exigindo igualdades e respeito. Fazem parte do chamado exército de mulheres que, afinadas com a profissão, saem de casa pela manhã rumo ao trabalho. São as mulheres operárias que carregam em mente um único objetivo: consolidar a luta por um espaço no competitivo mercado de trabalho, igualdade de oportunidades, reconhecimento de competência e o fim da discriminação de gênero.

São ferreiras, motoristas de ônibus, políticas, mototaxistas, açougueiras e tantas outras.

A reportagem do Página 20 foi encontrar uma dessas guerreiras operárias labutando num espaço que antes era ocupado apenas por homens: um açougue.

Elonise Tavares Bastos Coelho, 41 anos, viúva, mãe de 4 filhos, profissão: açougueira. O ofício ela diz ter aprendido com o pai açougueiro, ainda adolescente. Mas, ao casar-se, teve que deixar o trabalho de lado para assumir os afazeres domésticos.

“Meu pai foi açougueiro e quando eu o via trabalhando dando um duro danado resolvi ajudá-lo. Não segui a profissão, pois casei e tive que cuidar dos meninos. Mas nunca deixei de trabalhar”, conta.

Preconceito? Ela diz não ter sofrido pelos homens da família, principalmente porque ao ficar viúva teve que correr atrás da sobrevivência trabalhando fora de casa.

“Os homens lá de casa nunca acharam ruim e depois que perdi meu marido tive que ser o homem e a mulher da casa. Vi que o único jeito era me virar para criar os meninos”, recorda.

“Trabalho duro para pôr o pão
na boca dos filhos”, diz Elonise

Um trabalho informal aqui, outro ali. Elonise, mesmo que o dinheiro fosse pouco, ia levando. Tudo por uma questão de não deixar faltar a comida na boca dos filhos. Mas o sonho de exercer o ofício deixado pelo pai não lhe saia da cabeça. Há cinco meses surgiu sua grande oportunidade. E quando pensava que estava tudo resolvido, ela conta que teve que passar por um teste.

“Não deixava faltar nada para meus filhos depois que fiquei viúva. Trabalhei fazendo ‘bicos’. Estavam precisando de uma pessoa aqui para tratar dos peixes. Vim e falaram que podia ficar, mas se desse conta do trabalho eu podia continuar. Graças a Deus passei no teste”, conta, satisfeita.

Junto com os companheiros de labuta, Elonise se diz afinada, feliz e incansável com o ofício: corta carne, trata peixe, mói, enfim, faz de tudo um pouco, numa jornada de trabalho de 9 horas por dia e que continua após retornar para casa. E sem preconceito dos amigos.

“Me sinto feliz aqui e não sinto cansaço. Chego em casa e vou preparar o jantar, limpar algumas coisas, deixar tudo pronto para começar tudo de novo no outro dia. Mas meu filho também me ajuda, varre a casa e lava a roupa dele. Ensinei a eles a se virarem”, conta.

Mensagem às mulheres

Morando no residencial Santo Afonso, Belo Jardim, todos os dias Elonise cumpre a mesma rotina. Às 5 horas já está de pé, prepara o café para a família, vai para frente do espelho, passa um discreto batom, faz recomendações ao filho de 14 anos, que a ajuda nos afazeres da casa e pronta sai para o trabalho.

Perguntado sobre o Dia Internacional da Mulher ela falou em tom de simplicidade: “Nem lembrava”. E aproveitou para deixar uma mensagem às mulheres: “Elas tem que ir em frente, assim como eu lutei e tantas outras. Porque é melhor você trabalhar do que roubar. E vá trabalhando que você consegue. A gente não pode se desesperar quando fica sozinha sem o companheiro. A partir que fiquei só, tudo aprendi um pouco. E tive que tomar duas responsabilidades: de pai e de mãe. Não sei ler bastante, mas tenho orgulho do que sei fazer. Todas as mulheres precisam ir em frente, pois nada é difícil.”

Apesar de ter conquistado muitos direitos nas últimas três décadas, a mulher ainda enfrenta o preconceito machista de boa parte da sociedade. Além de trabalhar fora, a maioria arca com os chamados cuidados do lar-doce-lar, lançada numa dupla jornada de trabalho. Ela é trabalhadora, dona-de-casa, mãe e ainda amante. Mas com um diferencial: carrega em sua verve a sensibilidade para tratar de assuntos delicados. Uma sensibilidade natural e inerente ao sexo feminino.



Dia Internacional da Mulher,
uma data de conscientização

Um século e meio depois do assassinato das operárias, as mulheres continuam a ser violentadas

Elas queriam melhores condições de trabalho, redução na jornada de 17 para 8 horas diárias e um salário equivalente ao dos homens - o que recebiam eram 60% inferior ao masculino. Trabalhavam na fábrica de tecidos Cotton, em Nova Iorque. Em 1857 operárias não tinham direito à greve nos Estados Unidos.

Cerca de 120 mulheres ousaram protestar e receberam a negativa dos patrões. Não desistiram. O próximo - e último - passo foi ocupar a fábrica em que trabalhavam. Em represália, os patrões fecharam as portas, jogaram gasolina no telhado e atearam fogo no edifício. Todas as manifestantes morreram queimadas.

Como forma de homenagear essas mulheres, que ousaram lutar por seus direitos numa época em que apenas os homens eram considerados cidadãos, Clara Zetkin propôs durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres que a data 8 de março fosse instituída como o Dia Internacional da Mulher.

A Secretária Extraordinária da Mulher, Mara Vidal, lembra que o 8 de Março não é uma data comemorativa. É na verdade um dia de conscientização da sociedade sobre a importância e o papel da mulher como sujeito na construção da história.

“É lembrarmos a luta de todas que reivindicaram melhores condições de vida, de trabalho, a igualdade e a justiça”, disse Vidal.

A violência continua

Hoje, 146 anos após as mulheres operárias terem sido assassinadas por patrões que as condenaram pelo “crime” de pedir justiça social, a mulher continua a sofrer as mais variadas formas de violência. E a maior parte delas, segundo Mara Vidal, acontece dentro da própria família.

No ano passado mais de seis mil casos de violência contra a mulher foram registrados no Acre. Destes, 80% são cometidos por familiares.

“Isso vem mostrar que as mulheres estão denunciando os abusos que sofrem, estão falando para a sociedade, e este é um bom sinal. É preciso dizer que hoje a violência vem atingindo também crianças e adolescentes. E todos os criminosos devem ser punidos”, comentou a secretária.

Considerada uma das políticas mais atuantes no Estado, a deputada estadual Naluh Gouveia (PT) aproveitou para deixar o seu recado às mulheres: “Vamos continuar lutando com a força e com a garra que temos, a força mãe que nos move. Tudo começa em nós. Muita sabedoria, muita paz. E não nos esqueçamos que a mulher não deve estar nem atrás e nem na frente do companheiro. Temos que estar ao lado dele”, comentou.

Atividades da Secretaria Extraordinária da Mulher

Uma vasta programação foi preparada pela secretaria, com o apoio de diversos setores do governo e do Sebrae, para marcar a passagem do Dia Internacional da Mulher.

Atividade: Ato pela Paz nas Famílias Acreanas
Local e data: Concha Acústica do Parque da Maternidade, 18 horas, 08/03/03
Atividade: Missa em Ação de Graças às Mulheres Acreanas
Local e data: Igreja Santa Inês, 07 horas, 09/03/03

Atividade: Seminário sobre Gênero: Tecendo a igualdade com respeito às diferenças
Local e data: Auditório da Secretaria de Educação, das 9 às 12 horas, 11/03/03

Atividade: Exposição “Cara de Mulher”
Local e Data: Palácio Rio Branco, das 9 às 13 horas (terça à sexta) e das 15 às 21 horas, de 11 de março à 30 de abril.

Atividade: Cinema no Sesc
Filme: “Escolhas do Coração”
Local e data: Sala de cinema do Sesc, 19 horas, 12-13/03/03

Atividade: Manhã Cultural
Local e data: Senadinho, 9 horas, 14/03/03

Atividade: Workshop: Gênero e Políticas Públicas
Palestrante: - Vera Soares (militante feministas, membro da ELAS )
- Elizabeth Lobo (Consultora Científica do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP)
Local e data: Auditório da Secretaria de Educação, das 8 às 17 horas, 13/03/03

Atividade: I Feira de Produtoras do Acre
Local e data: Praça da PM, das 8 às 20 horas, dias 27-28/03/03

Atividade: Agita Mulheres
Local e data: Concha Acústica do Parque da Maternidade, das 16 às 19 horas, 29/03/03.

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