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Rio Branco - Acre, sábado, 8 de março de 2003
Na semana da mulher, Marina
revela várias outras ‘marinas’

Em entrevista a Marie Claire, a ministra do Meio Ambiente conta por que desistiu de ser freira e optou pela militância política

ReproduçãoUma da mais importantes revistas nacionais direcionada ao público feminino, a Marie Claire, dá destaque na edição deste mês para a acreana Maria Osmarina Silva de Souza, ministra do Meio Ambiente, senadora da república, ou simplesmente Marina Silva. São cinco páginas inteiras com uma longa entrevista e fotos que retratam a trajetória da seringueira que conseguiu quebrar os limites de sua condição e chegou ao centro do poder brasileiro lutando pela igualdade social no país.

A matéria não trata de política ambiental ou de projetos para o seu ministério. Seguindo a linha editorial da publicação, a entrevista é na verdade uma conversa descontraída que tenta mostrar para o leitor quem é Marina Silva. E ela acaba por revelar as várias Marinas que existiram durante sua trajetória do seringal até o cargo de ministra do Meio Ambiente. Essa é a leitura que faz a autora da reportagem, Tânia Nogueira.

Marina fala à jornalista sobre seus anseios e sonhos ainda no seringal Bagaço de onde saiu em 1975 para conquistar reconhecimento e admiração em todo o mundo. Conta que entrou no convento porque sempre teve um lado espiritual muito forte, mas que desistiu da idéia quando se aproximou dos movimentos populares e da pastoral da terra. Indagada sobre se a motivação do abandono do convento não teria a ver também com vontade de namorar e casar, Marina garante que não era isso que a mobilizava, mas confessa que tinha sim a idéia de constituir uma família. Em outro trecho, ela conta como tem sido a tarefa de conciliar as tarefas de ser ministra e mãe ao mesmo tempo. Fala sobre o dia-a-dia da mulher comum, Marina Silva, da criação dos filhos e do relacionamento com o marido.

Apesar de não tratar de política, a matéria ressalta a importância de Marina não só no contexto atual do país, mas na História do Brasil como um todo. “Em 1958, ano em que Maria Osmarina Silva de Souza nasceu num seringal a dois dias de barco de Rio Branco, ninguém poderia sonhar que aquela filha de migrantes cearenses um dia viria a desempenhar um papel importante na História do Brasil.” Assim começa a apresentação da entrevista.

A ministra revela ainda que nunca se identificou com trabalhos domésticos, como cozinhar, lavar louça ou roupa. Quando menina no seringal, sempre preferiu os trabalhos na roça ou na coleta do látex, e até hoje, quando retorna à floreta para visitar os irmãos, continua assim. Ela sempre preferiu os trabalhos na mata e também queria muito estudar. “Quando estou com minhas irmãs no seringal, cada uma assume uma tarefa, mas elas não querem nem que eu chegue perto da cozinha, porque cozinho muito mal. Me põem para lavar louça, quebrar castanha, ralar milho para pamonha e canjica, essas coisas mais pesadas que gosto de fazer”, disse.

Outra parte interessante da entrevista é quando Marina analisa sua criação no seringal, durante a infância. Ela conta à revista que considera que o fato de ter convivido com muitos idosos na infância, foi um fator decisivo que contribuiu bastante para sua formação. Segundo ela, isso seria um dos elementos que influiu para ela ser uma mulher com o caráter muito reflexivo e denso. Marina cresceu com sua avó e outros parentes mais velhos, como um cunhado viúvo, o avô Manuel, um tio solteiro, Pedro Mendes, e uma tia moça-velha, “solteirona”. “Eram pessoas que tinham uma vida consistente, de valores. Era gente que sobreviveu à seca, que sobreviveu à floresta, que sabia vencer as dificuldades. Cresci ouvindo essas histórias e aprendendo com elas”, disse.

Falou ainda sobre sua pesquisa de doutorado onde iria estudar os mitos e a proteção da floresta e apresentou numa das antigas histórias que contou, um cachorro que tinha quando criança que demostrava todo o carinho pelos irmãos. Seu nome era ‘Vencedor’. Ele até acabou salvando sua irmã de um enorme cobra (uma surucucu). “Quando minha irmã enfiava o braço na toca, o vencedor pegava a saia dela, puxava, gania e mexia as patinhas”, lembrou.

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