
Cidade aberta no meio da floresta ganha primeira agência dos Correios
Local também será sede de Banco Postal e Prefeitura não precisará mais guardar recursos públicos em gavetas
Tião Maia Enviado Especial
Santa Rosa - Instalada no coração da selva amazônica, com as ruas de terra batida ainda completamente virgens em relação ao tráfego de veículo, Santa Rosa, cidadezinha fundada há 11 anos às margens do rio Purus, na fronteira com o Peru, já não pode mais ser apontada como um dos municípios mais isolados do país.
Desde ontem, a cidade está conectada com o sistema financeiro nacional e seus habitantes poderão abrir conta corrente, ter acesso a talões de cheques, cartões de crédito e outros serviços bancários prestados pelo Bradesco em parceria com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O presidente da empresa, Airton Dipp, e os senadores Tião Viana (PT) e Geraldo Mesquita Júnior (PSB), além da deputada Perpétua Almeida (PC do B), participaram da inauguração que completa uma série de investimentos para por fim ao isolamento. O secretário para as cidades e habitação, Raimundo Angelim, representante do governador Jorge Viana na solenidade, anunciou que, além de energia elétrica 24 horas por dia, telefone, antenas parabólicas e ensino de segundo grau, em breve a cidade também deverá ser ligada à rede mundial de computadores, a Internet.
Atualmente, o único meio de comunicação é um alto falante operado pela Igreja. De acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000, a população de Santa Rosa é composta por cerca de 1.500 pessoas na zona urbana, que se abrigam em exatas 280 edificações, das quais apenas seis são em alvenaria. Quando a cidade estava sendo construída, há dez anos, as obras tiveram que ser paralisadas por falta de prego - o barco que trazia o produto afundou.
O restante da população - cerca de 2.500 pessoas - vive na zona rural. Segundo o censo, 85% da população é composta por índios das etnias Kaxinawá e Kulina. Há pessoas na cidade, inclusive adultos, como o agricultor Manuel Alberto Pinheiro, 59 anos, descendente dos Kaxinawás, que nunca andaram de carro. “Eu só vi em foto”, diz ele, apressando-se em demonstrar suas habilidades em motor de popa de pequenas embarcações. “Mas aqui eu duvido que tenha alguém melhor do que eu. Já naveguei por esses rios de meu Deus até mesmo de noite e nunca dei de cara no barranco ou nos balseiros”, conta.
Tamanha intimidade com a via fluvial tem explicação. Para uma cidade que não passa de uma clareira no meio da floresta, o elo da população com o mundo é o rio. A distância, aliás, é medida pelo tempo de navegação. A cidade mais próxima, por exemplo, é Manuel Urbano, distante dois dias de barco rio abaixo e de quatro a cinco dias rio acima. A cidade seguinte é Sena Madureira, distante três dias de barco rio a baixo e de sete a oito dias rio acima. A outra forma de chegar a Santa Rosa é em avião monomotores que pousam numa pista de grama onde o gado pasta.
Viagens como essa eram feitas todos os meses pelo ex-prefeito Manuel Roque de Carvalho, o primeiro eleito no município em 92. As viagens eram para Sena Madureira em busca dos recursos públicos com os quais o prefeito administrava o município. “A gente trazia o dinheiro numa sacola. Como só eu e o secretário de finanças poderíamos sacar o dinheiro, a gente era obrigado todos os meses a fazer esse sacrifício. Às vezes deu tinha que vir de avião porque, se demorasse mais de 15 dias fora do município, corria o risco de ser cassado por causa da lei orgânica”, conta.
O atual prefeito, José Altamir Taumathurgo de Sá (PT), foi o primeiro a fazer depósito no Banco Postal (depositou 180 reais em sua conta pessoal) e era um dos mais felizes com a inauguração. “Só eu sei os riscos que corri. A gente ia a Sena Madureira e botava o dinheiro da Prefeitura numa sacola e tinha que sair fugido, com medo de assalto. Eu era obrigado a fretar avião para voltar para a cidade temendo os ladrões”, revelou.
A arrecadação da Prefeitura, representada pelo FPM (Fundo de Participação dos Municípios), é em média R$ 180 mil por mês. A Prefeitura também é responsável por pagamentos de benefícios do INSS e aposentadorias do Funrural. O dinheiro ficava trancado numa gaveta na sede da Prefeitura. Agora, como numa cidade de verdade, vai para o banco.