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Rio Branco - Acre, domingo, 9 de março de 2003

Perpétua Almeida

Deputada revela que chorou ao chegar
em Brasília e fala das suas prioridades

Leonildo Rosas

Nascida em Porto Walter, Perpétua Almeida poderia ter seguido carreira religiosa. Estudou no colégio de freira das irmãs dominicanas dos 14 aos 18 anos e seis meses.

A vocação para defender os excluídos, no entanto, não estava na religião. Estava nos movimentos sociais. Ao deixar o colégio, ela foi atuar nas associações de bairros de Cruzeiro do Sul, onde teve os primeiros contatos com a política.

Em vez de freira, Perpétua Almeida resolveu ser comunista. Já casada com então presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinteac) Edvaldo Magalhães, veio para Rio Branco.

Na capital, como funcionária do extinto Banco do Estado do Acre (Banacre), chegou à presidência do Sindicato dos Bancários do Acre. Em 2000, foi eleita vereadora, com 2.040 votos.

Sua atuação no Parlamento municipal lhe deu cacife para concorrer à deputada federal, quando foi eleita com 21.930 votos, a maior votação obtida até hoje na história política do Acre.

A conquista do mandato de deputada lhe obrigou a se afastar dos filhos Maira, 12 anos, e Pablo, 6 anos, e do marido, o hoje deputado estadual Edvaldo Magalhães. Comunista convicta, ela surpreende quando diz que para superar a distância da família ela se apegar à fé. “Sou comunista, mas também sou católica, apostólica romana”, garante.

Deputada, a senhora não se assustou ao chegar ao Congresso Nacional e enfrentar todas aquelas feras da política brasileira?

A minha primeira semana em Brasília eu passei chorando. No Plenário, eu saia para ir ao banheiro chorar. Às vezes, sozinha no apartamento, chorava também. Quando recebia telefonemas das crianças, a Maira dizia: ‘Mãe, hoje tem reunião na escola e eu não podia ir’. O Pablo perguntava: ‘Mãe, posso jogar videogame?’. Cada vez que isso acontecia, eu chorava muito.

Como a senhora superou isso?

Quando coloquei na cabeça que deveria deixar de lado as questões pessoais e priorizar o fato de está ali para representar as pessoas que votaram e confiaram em mim.

A senhora tomou posse com um vestido com as cores da bandeira do Acre. Até que ponto isso facilitou sua vida?

Esse fato ajudou a me torna conhecida mais rapidamente. Todo mundo hoje sabe quem é a ‘companheira do Acre’, que tomou posse com o vestido com a bandeira do Acre e que usa os colares feitos pelos índios e pelas mãos das produtoras acreanas.

Como a senhora está conseguindo conciliar a vida de mãe e esposa como o mandato de deputada?

Estou fazendo o possível para vir para Rio Branco nas quintas-feiras, depois da sessão, e retornando para Brasília as segundas-feiras à noite. Fico lá terça, quarta e quinta, os dias que têm sessões. Nos outros dias, procurou fazer atendimento às pessoas aqui no Estado e ficar com a família.

Em pouco mais de um mês, já deu para senhora definir um perfil do mandato?

Tínhamos um pouco desse perfil desenhado previamente. Sai daqui com a decisão de ficar meu mandato nas questões da Amazônia e das cidades. Hoje estou na Comissão de Desenvolvimento Urbano, que vai discutir a estrutura e o dia-a-dia das cidades. O meu mandato de vereadora me deu muita experiência. Sei quais são as demandas que nossas cidades e os cidadãos precisam.

E com relação à Amazônia?

Neste caso, não posso perder de vistas que os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia. Infelizmente, nós temos aqui perto, na fronteira com o Peru, os peruanos tirando o nosso mogno, fazendo da área uma rota de tráfico internacional e invadindo terras indígenas. Por isso também fiz questão de atuar na Comissão da Amazônia.

A senhora também atua noutra comissão?

Sim. Sou suplente da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Narcotráfico. Nessa comissão, aliás, já pedi a criação de uma subcomissão para fazer um debate acerca da violência nas cidades, porque a maioria do Estado, inclusive o Acre, sofre com o problema.

Mas o Acre combateu o crime organizado?

Sim, conseguimos. Vencemos uma grande etapa, com a ajuda de todas as instituições que se uniram e traçaram um novo caminho para o Acre. Mas não podemos cochilar nenhum momento.

Na história política do Acre existe um tabu de que os deputados federais mais bem votados sofrem com o “fantasma” do cargo. A senhora não temer ser a próxima vítima?

Quando os votos ainda estavam sendo contados, eu ouvi muito essa brincadeira. Acho que não podemos perder de vistas, sob hipótese alguma, a votação obtida. Ela é a tradução de um desejo popular. Se a gente tem como objetivo acertar para o bem da população, não tem o que temer. Temos que colocar na cabeça que estamos em Brasília com mandato para ajudar nosso Estado e as pessoas que dependem da gente.

Ontem foi comemorado o Dia Internacional da Mulher. Em quê o seu mandato pode contribuir sobre as questões de gênero?

Como vereadora de Rio Branco, eu iniciei, em Cruzeiro do Sul, um trabalho voltado para as mulheres de baixa renda, onde a gente reúne 300 mulheres. Mensalmente, 150 delas fazem cursos de culinária, costura ou outras atividades que possam gerar renda. Quero ampliar a experiência para outros municípios.

O que a senhora acha da criação da Secretaria da Mulher?

Essa Secretaria foi uma reivindicação minha, da deputada Naluh Gouveia, do Mama, da Rede de Homens e Mulheres e do Fórum de Mulheres. Meu mandato vai estar permanentemente ligado à secretaria.

A deputada Naluh Gouveia afirmou que as mulheres precisam ser mais solidárias umas com as outras. A senhora concorda?

No Acre, somos 49,6% da população. Isso significa praticamente a metade. Olhando por essa ótica, metade da bancada acreana deveria ser composta de mulheres. Infelizmente, na Assembléia Legislativa foram eleitas apenas a Naluh e Antônia Sales (PMDB). Isso significa que as mulheres precisam votar mais nas mulheres. Embora reconheça que grande parte dos votos que eu e a Naluh tivemos foram de mulheres.

A senhora acredita que as mulheres vêm em você aquilo que elas gostariam de ser?

A gente tem escutado muito do eleitorado feminino que nós somos a extensão delas no Parlamento. Embora defenda que nas próximas eleições tenha muitas outras mulheres disputando e ganhado eleições. Mas é preciso que os partidos também incentivem isso.

Deputada, a senhora foi eleita basicamente por Rio Branco, onde obteve 14 mil votos, e por Cruzeiro do Sul, onde também teve uma votação expressiva. A senhora pretende focar seu mandato apenas nessas duas cidades, ou vai se preocupar com todo o Estado?

Não posso negar o carinho especial que tenho pela região do Juruá, onde nasci. Na minha carteira parlamentar fiz questão de colocar ‘nascida em Porto Walter’. Não posso esquecer minhas raízes, embora saiba que minha votação em Rio Branco garantia minha eleição. Mas também tive votação importante em outros municípios. Por isso, como deputada federal, vou ter que atuar em cada canto do Estado. Trabalharei para garantir recursos a todos os municípios.

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