
Jorge Lescano Perez
“Estrela solitária une Acre e Cuba”
ALTINO MACHADO
O embaixador Jorge Lescano Perez esteve no Acre durante a semana para tratar com o governador Jorge Viana do detalhamento de uma extensa agenda de parceria envolvendo Cuba e Acre.
O embaixador cubano está entusiasmado com o horizonte aberto para seu país nas relações com o Brasil a partir da eleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Dos estados brasileiros, o Acre é um dos mais prestigiados na agenda diplomática que envolve os dois países.
“Existem muitos segmentos de prioridades estratégicas para Brasil e Cuba, nos quais os dois países dispõem de tecnologia de ponta e complementam suas economias”, afirma o embaixador.
Jorge Perez aponta semelhanças entre o povo cubano e acreano e anuncia a disposição do governo de seu país em ajudar o governo estadual em programas de esportes, saúde e na erradicação do analfabetismo em três anos.
“As populações do Acre e de Cuba são representantes de pessoas, de cidadãos de muita humildade, inteligentes, capazes, trabalhadores, que sabem tratar as pessoas de forma generosa”.
Ele
disse que o governo de Jorge Viana tem sonhos semelhantes
aos sonhos do governo de Cuba. “ Estamos unidos pela estrela solitária
em nossas bandeiras”, afirma o embaixador.
Leia os melhores trechos da entrevista:
A eleição do presidente Lula poderá servir para que sejam ampliadas as relações de Brasil e Cuba?
Sim. A relação de Cuba com o governo FHC já era muita boa. Houve avanços importantes, porém, a partir de agora, esperamos que essas relações sejam intensificadas e ampliadas. São maiores e melhores as possibilidades para que isso se torne realidade.
Quais sãos as prioridades que o senhor considera estratégicas?
Existem muitos segmentos de prioridades estratégicas para Brasil e Cuba, nos quais os dois países dispõem de tecnologia de ponta e complementam suas economias. Exemplos disso: biotecnologia, produção de medicamentos genéricos, vacinas, formação de equipes médicas, industria açucareira, produção de energia a partir da cana-de-açúcar, maquinário agrícola e software. Cuba produz barcos pesqueiros e pode fazer parceria com o Brasil para a captura de lagostas.
Como o senhor encara o empenho do governador Jorge Viana em buscar consolidar parceria com Cuba tão logo começou o segundo mandato dele?
Devo dizer que a relação de Cuba com o Acre, com o governador Jorge Viana, deve ser aprofundada e ampliada. Já tivemos relações anteriores. A viagem do governador Jorge Viana ao meu país foi uma viagem de muito sucesso. Ele se reuniu com vários ministros, cientistas, diretores de instituições de instituições das áreas da cultura, educação e desporto. Ele explorou todas essas possibilidades da presença nossa no Acre. A minha visita é a continuidade dos acordos que se adotaram, que agora exigem o acerto de detalhes.
Quais as semelhanças que o senhor identifica entre o Acre e Cuba?
A primeira semelhança está na população.
Por quê?
As populações do Acre e de Cuba são representantes de pessoas, de cidadãos de muita humildade, inteligentes, capazes, trabalhadores, que sabem tratar as pessoas de forma generosa. Existem muitos elementos que se complementam também em interesse na economia e no comércio entre Cuba e Acre, que estamos explorando agora. O Acre tem um domínio grande em manejo florestal. Cuba não tem e podemos aprender muito com o Acre nesse sentido. Existe semelhança na preocupação com a produção de fitoterápicos. Nesse campo, Cuba tem domínio da tecnologia e o Acre tem o domínio da extração da matéria-prima de suas florestas. Aqui pode haver uma complementação muito interessante.
O senhor acha que o resultado desse esforço poderá resultar na superação de problemas graves nas áreas de saúde e educação, que atinge uma população em torno de 500 mil habitantes?
Não acho. Tenho certeza que sim. O Acre é pequeno. Cuba é uma ilha também pequena. A escala dos problemas de Cuba e Acre é muito semelhante. As experiências podem ser aplicadas com muita facilidade, tanto de Cuba para o Acre quanto do Acre para Cuba.
O senhor mencionou anteriormente várias semelhanças entre o povo acreano e o povo cubano, mas parece ter esquecido a semelhança política. Ela existe ou não?
São dois povos lutadores. São povos que lutaram pela superação dos seus problemas, pela criação do seu próprio Estado, como é o caso do Acre. Claro que entre esses dois povos existe a semelhança de lutar pela melhoria de vida, pela liberdade, por alcançar a conquista da terra.
O Governo da Floresta abriga muita gente que sonha com o socialismo, que tem em Cuba uma inspiração histórica e política. Como o senhor encara isso?
Hoje, o mundo debate muita coisa no campo filosófico e da prática. Hoje se debate muito sobre o desafio de se resolver o problema da fome das pessoas, de resolver as enfermidades que são curáveis, que podem ser prevenidas, mas que estão matando as pessoas. Também se debate muito sobre a necessidade de se educar as pessoas, de ensina-las a ler e a escrever, dando a preparação técnica e profissional para que elas estejam preparadas para competir com esse mundo tão complexo e tecnológico. Hoje a luta envolve o meio-ambiente, a sobrevivência humana, a proteção do planeta. Identificar tudo isso política ou ideologicamente já não é mais tão importante.
Mas o senhor concorda que não se pode viver sem sonhar?
Cuba tem sonhos de uma sociedade mais justa, igualitária, sem desigualdade, com distribuição de sua riqueza igual para todos etc. Esse é o sonho de Cuba para um sistema socialista. Cada país é capaz de encontrar seu próprio caminho, sua fórmula, seu sistema. O governo de Jorge Viana tem sonhos semelhantes aos sonhos de Cuba. Estamos unidos pela estrela solitária em nossas bandeiras.
Os governos federal e estadual assumiram o compromisso de erradicar o analfabetismo de 60 a 100 mil pessoas dentro de três anos. Cuba pode contribuir com esse esforço?
Cuba pode contribuir com esse esforço, sim. Cuba erradicou o analfabetismo em apenas um ano. Isso aconteceu em condições de agressão do governo americano contra Cuba. Um milhão de pessoas alfabetizadas no instante em que o governo norte-americano fazia contra Cuba uma invasão mercenária. Essa meta pode ser alcançada plenamente e Cuba pode contribuir com a experiência que adquiriu.
Cuba produz os remé-dios que usa para curar as doenças de sua população. O Acre pode chegar a esse ponto?
É preciso destacar que o Acre, assim como Cuba, dispõe de vontade política para tornar isso realidade. O caminho para fazer nós não sabemos, mas temos que encontrar soluções técnicas, financeiras e de pessoal. Quando se tem vontade e disposição, a idéia move montanhas.
Por que o mundo capitalista constrói estações espaciais e não erradica doenças como a dengue ou a malária?
Porque se fizesse isso deixaria de ser capitalista. O mundo capitalista está preocupado com a ganância, não cuida das pessoas. Por isso eles deixaram de atentar para as enfermidades do Terceiro Mundo para cuidar das enfermidades dos ricos apenas.
Muitos brasileiros se formaram em medicina em Cuba, mas até hoje enfrentam dificuldade para obter registro junto ao Conselho Federal de Medicina. Existem avanços diplomáticos para a superação dessa questão?
Existem dificuldades e negociações diplomáticas envolvendo os dois governos e várias instituições. Espero que em curto prazo haja uma solução.
A presença de mais médicos para atender a população parece assustar o corporativismo da medicina brasileira. Como o senhor explica isso?
Posso contar a experiência que tive na Noruega, que é um dos países mais desenvolvidos e ricos do mundo, com um extraordinário produto interno bruto per capta. Eu era presidente da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento Cubano quando visitei a Noruega e me informaram que havia um médico para cada 500 habitantes. Então expliquei que em Cuba havia um médico para cada 167 habitantes. Na Noruega uma pessoa tinha que esperar seis meses numa fila para ser atendida com uma cirurgia. Quis saber por que não formavam mais médicos se tinha condições para isso. O que eles me explicaram era que havia um compromisso para proteger o mercado, não deixando que a quantidade de médico fosse maior que a demanda de atendimento. Aquele era um compromisso para atender a ganância dos médicos. Esse é um problema do capitalismo. Cuba tem um PIB per capta infinitamente inferior ao da Noruega, mas em nosso país não falta médico para atender a população.
Muita coisa que está acontecendo hoje no Acre foi sonhada por Chico Mendes, um seringueiro sem instrução acadêmica, que foi assassinado por lutar em defesa do Acre. O que o senhor sabe a respeito dele?
Como embaixador, me interesso muito sobre a história brasileira. Chico Mendes faz parte dessa história. Outro dia tive a oportunidade de saber mais dele com a ministra Marina Silva. Chico Mendes foi um exemplo dessa capacidade de luta do povo acreano. Ele era um amigo de Cuba e Cuba era amiga dele.