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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 14 de março de 2003

Carmem Bastos Nardino

Presidente do Saerb defende gestão
conjunta com o Estado

Josafá Batista

A nova diretora-presidente do Serviço de Águas e Esgotos de Rio Branco (Saerb), Carmem Bastos Nardino, 41, engenheira civil formada pela Faculdade Ferreira de Almeida, no Rio de Janeiro (RJ), recebeu com entusiasmo o projeto de “gestão compartilhada” com técnicos do Departamento de Estado de Águas e Saneamento (Deas).

Acreana de Cruzeiro do Sul, casada e mãe de dois filhos, Carmem prefere não comentar o posicionamento xiita de seu predecessor, Adalberto Ferreira, acerca da implantação da segunda ETA. Simpática à idéia, ela revela, em entrevista exclusiva ao Página 20, que o Saerb esteve sim muito próximo da privatização e que a produção atual de água, ao contrário do que alardeava Adalberto, é suficiente para atender apenas 80% da capital.

Carmem diz que não vai reutilizar as obras inacabadas construídas nos governos estaduais do MDA, diz que a atual crise no abastecimento é causada, entre outras coisas, pelo desperdício, e que pretende aproveitar ao máximo o braço estendido do Estado para minimizar o déficit orçamentário que tem hoje a autarquia - um dos entraves para a melhoria do sistema.

A seguir, as propostas da nova chefe da companhia municipal de águas.

Não há críticas nos corredores do Saerb à parceria com o Estado?

Não e eu estou bastante otimista com essa parceria, que leva a idéia de uma gestão compartilhada no Saerb. Quem ganha é a população, que terá um sistema de saneamento com qualidade. Nesse primeiro momento está sendo montada uma equipe de técnicos do Estado e do município para elaborar um diagnóstico da autarquia, que visa o levantamento de soluções para resolver todos os problemas atuais.

Havia um rumor anterior de privatização...

Na verdade havia três saídas em discussão para o Saerb: privatização, reversão para o Estado ou gestão compartilhada. O prefeito trouxe o tema para uma discussão e nós optamos pela terceira via, que me parece, particularmente, a melhor. O Saerb é viável, apenas faltam ações na área comercial para minimizar a inadimplência.

Por que falta tanta água em Rio Branco, hoje?

Podemos dizer que esse problema é complexo. São muitos os pontos que devemos atacar para que a população possa contar com um serviço de qualidade. Devem ser desenvolvidas ações em todas as áreas, e, aos poucos tentar resolver o quadro geral.

Houve uma injeção de finanças, há cerca de três anos, de R$ 35 milhões no Saerb. O que foi feito desse dinheiro?

Essa verba, em parceria com a Funasa, foi utilizada em investimentos em todo o sistema nos anos de 97, 98, 99 e 2000. Tivemos várias etapas. Na primeira e na segunda os investimentos foram voltados ao aumento da produção, já que era 1997 e tínhamos recebido o sistema da Sanacre, com uma capacidade de apenas 300 litros por segundo, insuficientes para atender a demanda.

Então os recursos da primeira etapa foram usados para ampliar a produção?

Exatamente. E também para duplicar as adutoras para que pudéssemos ter a água produzida na Sobral distribuída aos centros de reservação e depois à população. Também aumentamos a nossa capacidade de reservação, pondo em operação aquele centro do Adalberto Sena, que ainda não tinha sido concluído.

E assim esgotou-se a espantosa cifra...

Não. Os 30 milhões são a soma de todos os convênios e ainda estou falando da primeira etapa. A maioria dos equipamentos que trabalhávamos eram da reserva, então resolvemos comprar novos equipamentos, de grande porte, como bombas eletromecânicas, que têm custos elevados. Depois procuramos investir no sistema de produção em si. Em Rio Branco temos dois, um na Sobral e outro do igarapé Judia.

Por que esses locais não apresentam a tecnologia que deveriam?

Mas houve investimentos, desde a captação na Judia até a construção de um centro de reservação inédito no Segundo Distrito. Houve ainda investimentos na Estação de Tratamento da Sobral, que produzia 400 litros por segundo. Nós duplicamos isso. A demanda na cidade era muito grande, precisávamos ampliar o sistema.

Quais foram mesmo os anos de investimento?

A maioria de 1999 a 2001.

Não foi nesse ano, 2001, que o Sindicato dos Urbanitários apresentou à imprensa um relatório contendo diversas denúncias? Entre elas, a falta de produtos químicos na ETA Sobral, o nepotismo no alto clero do Saerb e as condições sub-humanas de trabalho nas estações elevatórias?

Não tenho conhecimento desse relatório. O que posso dizer é que os produtos químicos da ETA sempre foram manuseados por especialistas. Quanto às outras denúncias, não tenho o que comentar, uma vez que não conheço o tal documento.

Ainda sobre os servidores: e o PCCS, sai ou não sai?

Há um plano em análise. Até o final deste mês estaremos encaminhando a documentação à Câmara de Vereadores e daí entra a fase de aprovação no Legislativo. Não posso adiantar os valores dessa tabela, mas como ela foi elaborada por técnicos em conjunto com o Sindicato dos Urbanitários, com certeza deverá atender às expectativas dos trabalhadores.

E quanto ao abastecimento integral da cidade, como resolver?

Isso é mais complicado. Hoje o que as estações do Saerb produzem é suficiente para atender 80% da população de Rio Branco, mas temos problemas na distribuição gerados por diversos fatores, como a falta de reforço no sistema. Esse reforço já está previsto em nosso novo plano diretor, mas, por enquanto, a distribuição é deficiente em vários bairros.

Essas obras já previstas no “plano” não foram construídas antes por que?

Nosso plano é recente, de 2000. Até aquele ano trabalhávamos com um plano diretor de 1988, da época da Sanacre. Estava defasado. O novo deve nortear todas as nossas ações num espaço de 20 anos. Algumas obras são caras, como o programa de reforço dos anéis das estações, mas estamos tentando viabilizar recursos junto ao Legislativo.

Mas o que há, de prático, no cronograma de obras?

Temos convênios de 2001, que vêm nos permitindo executar algumas obras de reforço no sistema de distribuição, e alguns recursos de emendas parlamentares que estão em processo de análise, assinaturas, aprovação. No momento, estamos fazendo um levantamento sobre todos os projetos assinados ou que estão em estudo e tentar viabilizar mais recursos ou os projetos, conforme o caso.

Resumindo: o problema é dinheiro.

É. Além dessa demora, os preços do tratamento da água são bem elevados. E assustam os que liberam a verba, em Brasília, durante o fatiamento do OGU.

Por que não se tenta uma alternativa? Durante a campanha para a prefeitura, em 1996, o então candidato Mauri Sérgio defendeu umas maquininhas de tirar água dos açudes e igarapés. É possível isso?

Este sistema é inviável aqui. O único manancial que temos é o rio Acre e o igarapé Judia e ambos já têm problemas de poluição. Há uma proposta da área técnica de perfurar um poço ou remanejar a captação do igarapé Judia para outro local. Pode ser, estamos estudando. Mas esta idéia de estações isoladas é impossível, absurda.

Durante a gestão de Adalberto Ferreira, discutiu-se muito acerca da real causa do mau abastecimento. A dúvida é: produção ou distribuição? Onde está o problema?

O quadro é o seguinte: temos 80% de nossa capacidade de atender à população, mas existem, ao mesmo tempo, vários bairros sem tubulação. Para atender esses bairros precisamos reforçar a produção, e, claro, expandir a rede.

A construção da nova ETA ajudaria?

Ajudaria e muito na produção. Com ela, sim, teríamos a capacidade de levar água aos outros 20% da população.

Então por que o ex-presidente do Saerb, Adalberto, era contra?

Porque na época não havia necessidade de construção dessa ETA. Nosso sistema é suficiente para abastecer Rio Branco inteira até 2005.

Eram 80% agora há pouco...

Sim, mas esses 20% restantes são regiões da periferia que hoje não dispõem de rede de distribuição, como Custódio Freire e alguns pólos agroflorestais. É preciso também implantar a rede...

Por que existem bairros sem rede ao lado de estações de tratamento?

Geralmente são bairros de invasão ou mais recentes. Claro que há todo um projeto para a criação de redes nesses bairros. É o caso do Vitória, Eldorado, Chico Mendes, regiões invadidas, que não tinham, antes, a encanação.

Por que falta água no centro da cidade?

São vários fatores que contribuem para esse problema. Um deles é o grande desperdício. A população usa água para lavar a calçada, limpar a rua. Acaba faltando mesmo, além de encarecer o produto.

Quanto custa tratar a água?

Temos uma média de despesa mensal na casa de R$ 100 mil. Os recursos são repassados pela prefeitura de Rio Branco, já que a arrecadação própria do Saerb é insuficiente. Hoje temos um índice de inadimplência em torno de 50%. Um verdadeiro absurdo. E ainda há os picos. Em fevereiro, por exemplo, fizemos um levantamento e verificamos um gasto de R$ 700 mil. Já a arrecadação, no mesmo mês, foi de R$ 300 mil.

Mas não há outra fonte de recursos, emenda parlamentar ou tributos?

Tem, mas juntando todos os repasses dá algo em torno de R$ 100 mil. Tem ainda a conta d’água da prefeitura, em torno de R$ 50 mil.

Dá R$ 450 mil. É impressão ou há um rombo nas contas do Saerb?

Não há. Esse foi o balanço das contas de fevereiro. Nem todo mês é assim. Em 2000 chegamos a ter uma arrecadação média de R$ 400 mil. Terceirizamos alguns serviços, minimizamos alguns gastos. E deu para sair do vermelho. Não há rombo, não.

E como vocês pretendem sair dessa, digamos, faixa de risco?

Pretendemos investir na imagem do Saerb, para que o consumidor se sinta seguro e entenda que, ao contribuir, está viabilizando a própria água.

Como o Saerb pretende agir em relação às obras fantasmas construídas pelo Estado na década de 80?

É impossível retomá-las devido à grande concentração popular no redor de todas. O que podemos dizer é que a prefeitura utilizará essas áreas para outros fins, a exemplo do projeto já vigente com a Lagoa de Estabilização do Universitário.

Então como se vai tratar o destino final dos esgotos em Rio Branco?

Temos um projeto alternativo, que depende unicamente da liberação de verbas, que inclui a construção de uma estação ao lado do Horto Florestal, abrangendo uma interligação entre os esgotos de vários bairros e um destino final.

No relatório dos servidores, aquele de 2001, havia também alusão a obras superfaturadas...

Na verdade, eu tive conhecimento deste relatório na época em que fui diretora técnica. Mas nesse momento, em que todos estamos numa correria para melhorar o abastecimento na cidade, melhor não tocar no assunto. É melhor comentar em outra ocasião.

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