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Rio Branco - Acre, sábado, 15 de março de 2003
Pacatos cidadãos da periferia social

José Cláudio Mota Porfiro *

Somos parte de uma casta de brasileiros mais pobres que têm a obrigação de matar um leão a cada dia, à unha, se quisermos permanecer vivos, para contar a história na manhã seguinte.

O trabalho de professor reserva a mim, ao fim da faina diária, das dezenove às vinte e duas e trinta, a felicidade de poder ajudar a uns jovens de dezoito ou dezenove anos, do terceiro ano do ensino médio, no antigo CESEME.

É verdadeiramente gratificante ensinar pistas para o bom uso da língua portuguesa a estes projetos de bons cidadãos que passam o dia trabalhando e, à noite, ainda buscam adquirir algum conhecimento que lhes garanta um futuro melhor. São semi heróis, sim senhor! Parte deles dorme muito mais que presta atenção ao que se tenta transmitir. Mas, mesmo assim, vale muito a pena...

A eles, tenho tentado dar algumas lições de vida decente, mesmo porque, depois dos quarenta, as experiências fluem, transbordam. Passo ainda noções de filosofia que buscam a formação de um cidadão crítico consciente do seu papel de transformador da sociedade, bom para si e amigo dos demais, em prol do desenvolvimento geral da comunidade.

Uma mensagem que trago pronta, como uma oração a ser repetida sempre que possível, diz respeito à crueldade do mercado de trabalho capitalista, que os cerca e os tem feito presas prontas para serem trituradas e devoradas a qualquer momento. Garanto-lhes que um empresário não pode contratar aqueles que não têm conhecimentos mais precisos do português e da matemática, dentre outras áreas do conhecimento. Se o patrão contrata um cidadão que não foi bom aluno, não será difícil chegar à falência... E o conjunto das falências de muitas empresas acaba por prejudicar a economia em geral. Daí começam a faltar os empregos - como ocorre hoje - justamente porque a escola não tem levado a sério o seu papel. Por isto, convém o esforço de todos... E aquele que não se esforça estará condenado a viver das migalhas miseráveis que caem das mesas dos mais ricos... É isto o que as elites querem para os mais pobres: que eles sejam cada vez mais pobres. Uma lástima!

Vou um pouco mais além e quero lembrar a todos, em síntese rápida e grosseira, a temática principal tratada pelo grande general chinês, Sun Tzu, no monumental livro A arte da guerra (SP : Martin Claret, 2002).

É preciso agir - estudar - sempre levando em conta os seguintes aspectos: a sabedoria, a sinceridade, a humanidade, a coragem e a exigência. Nada mais além disso!

É conveniente ter muita sabedoria para observar que os conhecimentos escolares adquiridos são a mola propulsora do futuro melhor que se busca. É sempre oportuno agir dentro dos princípios da sinceridade, uma vez que mentir para os outros pode ser muito ruim, mas mentir para si próprio é crime, inclusive, contra pai e mãe. É louvável observar o caráter de humanidade que deve estar presente nas ações levadas a efeito em qualquer momento e em qualquer lugar, uma vez que precisamos reconhecer no companheiro ao lado um ser humano com tantos defeitos quanto eu e quanto todos. A coragem é a principal arma dos vencedores, posto que, se nunca tentarmos, jamais conseguiremos o que quer que tenhamos buscado. Sobre a exigência, digo-lhes que é imprescindível exigir de si próprio muito esforço, dedicação e disciplina, sem os quais os melhores dias jamais hão de vir.

Talvez tenha eu ficado ranzinza antes dos cinqüenta anos, mas estas são verdades que têm norteado a minha personalidade e o meu trabalho, para honra e glória daqueles que um dia houveram por bem acreditar em mim. Graças a Deus!

* claudiogibiri@hotmail.com

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