
Archibaldo Antunes
Com a partida do único neto para o exterior, o casal de velhinhos de repente se viu só naquela casa enorme. Ao cair da noite ela reclamava por não terem uma televisão, pois gostaria de ver novela, e ele poderia assistir ao noticiário. Antiquado e rabugento, o velhinho não concordava, dizendo que televisão era coisa de gente desmiolada.
No início, após o jantar, ainda tinham o que dizer um pro outro, sendo que a conversa preferida dos dois era o neto distante.
- Ele esqueceu dois pares de meia atrás da geladeira - ria-se a velha, lembrando das centenas de vezes que havia pedido ao Rubinho que ele não secasse roupa atrás do eletrodoméstico.
- E também não levou a coleção de selos - acrescentava o velho, sério.
O tempo, porém, foi minando as conversas entre os dois. Ela ainda falou que poderiam comprar uma tevê para se distraírem, mas ele sequer ergueu o olhar da revista, não queria saber de aparelhos barulhentos dentro de casa. Bastavam-lhe o rádio, que raramente era ligado. Antes de irem pra cama, ela tricotava, ele lia ou fumava em silêncio.
- Rubens nunca nos escreve - ela suspirou um dia, largando o tricô.
- E por que haveria de nos escrever? - perguntou o velho, fazendo questão de acentuar o tom rabugento.
- Para nos contar como são as coisas na Europa - disse a velha, sonhadora. - Eu queria muito conhecer a Itália.
- Você não tem disposição de ir sequer ao supermercado aos domingos, quando o movimento é menor.
Quanto mais à Itália!
Ela não gostou do que ele disse.
- Quem não tem coragem de ir ao supermercado é você! - retrucou, aborrecida. - Ainda me sinto jovem o bastante para ir a qualquer lugar, até mesmo a um país estrangeiro.
Ele soltou uma gargalhada cínica.
- Pois essa eu queria ver.
Ela não disse mais nada.
No domingo, roupa de missa, destrancou a porta da frente para sair.
- Aonde você vai? - ele perguntou, levantando os olhos da revista.
- Ao supermercado.
- Pensei que fosse à Itália - riu-se o velho, voltando à leitura interrompida.
O rapaz ajudou a levar as compras até a cozinha. O velho tinha se retirado para um cochilo. Quando acordou, percebeu que faltavam alguns itens na compra que a mulher tinha feito.
- Estou economizando - ela explicou. - Pra viajar.
E aquela história passou a ser uma obsessão na vida dela. Ele fazia chacota da idéia, dizendo que só podia ser um indício de senilidade querer ir ao exterior na idade deles. No fundo, porém, passou a ficar preocupado com o projeto individual. E se ela de fato conseguisse juntar o dinheiro da passagem? Como ele haveria de se virar sozinho?
O ano se passou sem que ele visse um único vidro de picles sobre a mesa, pois ela havia deixado de comprar tudo que julgasse supérfluo. Guardava os centavos com avareza, sonhando poder multiplicá-los para ir ver o neto. Por causa disso, os dois velhinhos deixaram de se falar por um longo tempo, até o dia em que ele a viu de vestido novo, contando o dinheiro que havia guardado durante todos aqueles meses.
- Vai sair?
- Vou.
- Posso saber aonde a senhora vai?
- À agência de viagem comprar um bilhete - ela disse. - Pra Itália. Viajo ainda esse mês.
Ele primeiro ficou nervoso, dizendo que aquilo era uma insanidade, não podia acontecer, que ela não tinha consideração, a vida inteira juntos, mais de 56 anos de casamento, etc e etc, o dedo em riste, a cara vermelha, um fio de baba escorrendo no canto da boca. Por último, já distribuindo bengaladas nos móveis, teve um achaque e caiu duro no chão.
Quando acordou, dois dias depois, estava no hospital, tomando soro na veia. A mulher ali, ao lado da cama. Ele voltou para casa com recomendações médicas de não se exaltar.
Na sala, encontrou uma tevê de 29 polegadas.
- Foi com o dinheiro da passagem? - ele perguntou, e ela fez que sim com a cabeça.
Ele então se sentou no sofá pra ver o jornal.
*Cronista/ark30antunes@bol.com.br