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Rio Branco - Acre, domingo, 16 de março de 2003

Mãe de adolescente assassinado
em casa por policial enlouquece

Família passou oito meses esperando condenação exemplar e agora está inconformada com pena em regime aberto

J. Guimarães

Isolado do mundo, em uma chácara nas margens do igarapé Judia, o casal de evangélicos Milton Cunha, 40, e Ivanildes Fernandes Cunha, pais de duas meninas, até ontem ao meio dia ainda não sabia o resultado do julgamento do homem que matou o único filho do casal, Welesson Fernandes da Cunha, de 11 anos.

A notícia de que o acusado foi condenado somente a um ano e seis meses, em regime aberto, chegou ao conhecimento deles por meio da equipe do Página 20, e revoltou o casal, agravando ainda mais o estado de saúde de Ivanildes, que sofre de problemas mental desde que o filho foi assassinado a tiros de revólver pelo soldado PM, Edilson Silva da Costa, no dia 29 de junho do ano passado, às 21h30, no bairro Novo Esperança.

Consta nos autos policiais que o soldado teria discutido com a esposa, se embriagado num bar na rua onde morava e ao retornar para casa fez vários disparos no meio da rua. Um dos tiros atingiu o menor Welesson Fernandes no peito, que morreu na calçada de casa, onde o garoto brincava e dividia o refrigerante com um colega.

O crime foi tratado como fatalidade pelo advogado do acusado e o júri acreditou. Decidiu lhe aplicar a pena de um ano e seis meses, em regime aberto, o que lhe dá direito de continuar pertencendo ao quadro da Polícia Militar do Acre e levando uma vida normal nas ruas da cidade, exceto a restrição de que não pode ultrapassar as 22 horas em locais públicos.

A sentença do júri popular indignou o pai da vítima. “Eu esperava que esse rapaz perdesse pelo menos a farda, porque um policial que se embriaga, puxa a arma e sai atirando no meio da rua não passa de um irresponsável. Um homem que se comporta dessa maneira não têm as mínimas condições psicológicas de usar uma arma. Ele não matou só meu filho, ele também adoeceu minha esposa, que hoje é louca por causa da morte do nosso filho,” desabafa Milton Cunha, olhando o álbum de família repleto das fotos do filho, a quem ele jamais beijará novamente.

Morte do filho transtorna família

Ivanildes Cunha não é a mesma de antes da morte do filho. A mulher que trabalhava, fazia feira, administrava o lar, cuidava dos três filhos, zelava a roupa do marido e ainda dirigia encontros religiosos no bairro, hoje não consegue sair de casa. Tem medo de andar na rua, vive neurótica na chácara cedida pelo cunhado e toma remédios controlados receitados por médicos de um centro psiquiátrico de Rio Branco.

Segundo o marido, volta e meia ela é flagrada conversando com o filho como se ele estivesse vivo.

“Ela pega o boletim escolar do filho, senta debaixo de uma árvore e começa a falar como se estivesse se comunicando com o garoto. Às vezes eu mesmo chego a imaginar que o nosso filhinho está sentado ao lado da mãe ouvindo seus conselhos, a maioria voltada para o futuro do garoto. Ela passa horas dizendo que o menino deve continuar estudado para ser alguém na vida e até chega a parabenizá-lo pelas boas notas na escola”, relata Milton Cunha.

Na verdade, segundo Milton, seu filho era muito inteligente. Aos 11 anos já cursava a 4ª série do ensino fundamental e sua notas na escola estavam sempre na média de 9 a 10, fato que até hoje orgulha a família, que faz questão de mostrar os documentos escolares do menino. A papelada vive guardada na mesma gaveta onde ainda estão as suas roupas - inclusive a que ele usava no dia em que foi assassinado.

Mulher é presa por roubar comida

A esperança de conseguir comida de graça para alimentar os seis filhos acabou se transformando em pesadelo para a empregada doméstica desempregada Silvana Lúcia Chaves, 32 anos. Com apenas arroz em casa, ela aceitou a proposta de ir de madrugada ao depósito do supermercados Sendas no bairro Quitandinha, em Petrópolis, e, como os vizinhos já faziam há um mês, pegar parte do que estava estocado. Acabou presa enquanto tentava carregar sacos de arroz, feijão e açúcar.

O caso comoveu até policiais da 105ª DP (Petrópolis) para onde Silvana foi levada. “Quando ela chegou, achamos que se tratava de corrupção de menores, mas depois de ouvi-la, deu pena”, disse um dos policiais que pediu para não ser identificado.

Na delegacia, assustada e chorando, Silvana contou que só foi ao mercado porque, além de não ter como comprar comida, vizinhos do conjunto habitacional da Serrinha, no bairro Independência, contaram que os seguranças permitiam que pegassem os alimentos. “Disseram que deixavam todo mundo pegar porque eram produtos que seriam jogados fora. Íamos passar fome e não achei que teria problema pegar na Sendas”, disse, chorando, minutos antes de ser levada para a carceragem.

Na hora em que foi presa, Silvana estava acompanhada de aproximadamente 25 pessoas. A maioria conseguiu sair, mas ela e seis adolescentes, inclusive dois de seus filhos, foram detidos. Os jovens foram liberados, mas ela não.

A doméstica disse que, no início, não acreditou. Mas, depois que, na quarta-feira, o filho mais velho, de 17 anos, acompanhou os vizinhos e voltou com arroz, feijão, açúcar e pacotes de biscoito, passou a achar que era verdade.

O adolescente estava com a mãe na hora em que ela foi detida e disse que eles nem tentaram fugir porque acreditavam não estar fazendo nada ilegal. “Fizemos o mesmo que todo mundo. Passamos por baixo do portão lateral e fomos ao depósito. Depois de cinco minutos, a polícia chegou com seguranças. Todo mundo correu e minha mãe ficou porque achou que não estivesse fazendo nada errado”.

Vizinhos confirmaram a versão. Uma vizinha que incentivou a mulher a se juntar ao grupo, e que não se identificou, garantiu que “o grupo ia diariamente há quase um mês pegar comida”. No dia em que Silvana foi, policiais e seguranças apareceram. A direção do supermercado não quis comentar o assunto.

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