
Fundhacre realiza primeiro
reimplante de mão no Acre
Equipe médica melhora atendimento em ortopedia e reduz os gastos públicos com tratamentos fora de domicílio
Flaviano Schneider
Numa terra onde os índices de acidentes de trânsito são lastimáveis e onde o terçado é a arma mais comum para se resolver as diferenças, a oferta de um bom serviço público na área de ortopedia é fundamental. Depois de anos de dificuldades, este tipo de atendimento vem dando a volta por cima em Rio Branco, mais especificamente na Fundação Hospitalar do Acre (Fundhacre).
Exemplo significativo desta mudança é o caso de Francisco Alves da Silva, morador no bairro Preventório, que, depois de ter a mão decepada por um golpe de terçado desferida pelo vizinho, teve a felicidade de encontrar um quarteto de jovens ortopedistas da Fundhacre disposto a fazer o reimplante de sua mão no centro cirúrgico da maior unidade hospitalar do Acre.
Outro caso é o de Manoel José Pereira da Silva, 47, morador na Vila Acre. Ele teve o pé e perna esmagados pela queda de um pau em derrubada e depois de passar mais de dois anos sofrendo e se arrastando, recebeu a devida atenção dos jovens ortopedistas da Fundhacre, foi operado e vai voltar a andar.
Todos os quatro especialistas na área vieram ao Estado como resultado das gestões do senador Tião Viana, que procurou identificar médicos dispostos a trabalharem no setor de saúde do Estado em vários estados brasileiros, para cobrir as lacunas que existiam (e ainda existem) no serviço público.
Eles vieram ao Acre e estão pegando no batente
Nelson Cesar Marchesini é o ‘veterano’ do grupo no Acre, já está na cidade há nove meses. A esposa, que está se formando em Direito, chega em breve e ele está decidido a se estabelecer na cidade. Natural de São José do Rio Preto (SP), Marchesini atua na ortopedia pediátrica e alongamento ósseo.
Rodrigo Minuano Clementino da Rocha Santos é de Ribeirão Preto, São Paulo é especialista em joelho, quadril e traumatologia. Está há um mês no Acre. Veio para ficar 10 dias em Cruzeiro do Sul e acabou fixando residência em Rio Branco.
Francis Kashima atua na área de micro-cirurgia, cirurgia de ombro. Está em Rio Branco há um mês.
Andréia Fernandes Magalhães é especialista em microcirurgia de mão e está prestando provas de títulos. Também passou inicialmente 10 dias em Cruzeiro do Sul.
Todos estão se adaptando ao Acre e demonstram vontade em atuar no setor de saúde do Estado. E são unânimes em declarar que estão gostando da cidade e do jeito de ser do acreano.
A demanda pelos serviços ortopédicos da Fundhacre chega de todos os municípios do Estado, bem como do Amazonas, Rondônia e até mesmo da Bolívia. Para toda esta imensa região, Rio Branco é referência em atendimento médico.
A jornada de trabalho dos quatro ortopedistas tem início às 6h30 e dependendo demanda pode se estender até as 22h30 em ritmo constante, com atendimentos que cumprem um roteiro que inclui o Pronto-Socorro, Santa Juliana e a Fundhacre.
Cada um atende, por semana, 60 pacientes no ambulatório da Fundhacre; 60 no pronto-socorro por dia e o grupo realiza uma média de 40 cirurgias por semana.
O mais importante nestes jovens abnegados é seu prazer em trabalhar, atender bem e firmar um relacionamento mais próximo com os usuários, fato reconhecido por todos que necessitam de seus préstimos o que, espera-se, venha a contagiar outros setores das unidades de saúde pública.
Atendimento em ortopedia está
evoluindo em todo o Estado
O Centro Cirúrgico da Fundhacre oferece boas condições gerais, mas o jovem grupo de ortopedistas adquiriu, por conta própria, o aparelho artroscópico, que permite fazer cirurgias por vídeo. Por exemplo, para se operar um joelho, ao invés de abri-lo faz-se a cirurgia através de pequenas incisões.
Outras cirurgias delicada são feitas como reconstrução de ligamentos e cirurgias de meniscos, cirurgias de ombro etc.
Na oficina de prótese já se tem o domínio de todos os procedimentos para fabricação de próteses de ombros, joelho, quadril etc. Só está faltando o equipamento e o material para começar a produção. Inclusive já existe paciente aguardando.
Nelson contou que está em andamento um convênio com o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), situado no Rio de Janeiro, que vai colocar a oficina ortopédica local em contato com as mais novas tecnologias e equipamentos necessários para a confecção de próteses. A oficina está sendo preparada para em abril entregar 20 próteses de quadril.
O senador Tião Viana destinou uma emenda parlamentar no valor de mais R$ 1 milhão para a montagem do equipamento.
Segundo Nelson, a tendência na Fundhacre é transformar seu ambulatório em ambulatório de especialidades.
“Nada melhor que cada especialista possa trabalhar dentro de sua área específica, pois o serviço sempre sai melhor”, explica.
A vinda dos médicos foi um grande investimento para o Estado. Desde que a equipe passou a trabalhar em conjunto diminuiu drasticamente a necessidade dos TFDs (Tratamento Fora do Domicílio), que tantos recursos consomem da Saúde Pública. Nelson diz que o objetivo é zerar o TFD.
Dois dos especialistas, Nelson e Rodrigo, fizeram um diagnóstico interessante sobre a origem dos acidentados no Acre. Eles afirmam que a maior parte dos casos no Pronto Socorro é proveniente de acidentes, principalmente envolvendo motociclistas que redundam em fraturas nos pés e nas pernas. Mas, adiantam que chegaram a ficar espantados com o número de casos envolvendo terçadadas, que sempre acabam mutilando seriamente alguns órgãos.
Segundo ele, no interior de São Paulo acontecem problemas com o ‘podão’, um tipo de facão de cortar cana, mas que, segundo ele, não corta tanto como o terçado. Atingido durante derrubada, Manoel sofreu por três anos e depois de passar por uma cirurgia está se recuperando.
Perna de vítima de derrubada volta a funcionar
Manoel José Pereira da Silva, 47, mora na Vila Acre e há cerca de três anos sofreu um acidente, comum no Acre, sendo atingido durante uma derrubada. Ele conta que seu pai pediu-lhe que serrasse uma tábuas para construir a cerca do barracão da comunidade.
Por um erro de cálculo, o pau que derrubava caiu em sua perna provocando-lhe uma lesão no fêmur e esmagando-lhe a parte de baixo da perna esquerda bem como o pé. A lesão do fêmur foi resolvida à época pelos ortopedistas da Fundhacre, mas a perna não teve jeito.
Manoel passou a viver uma vida de sofrimentos. Foram dois anos e meio se arrastando dentro de casa, com dores constantes no local atingido, embora o pé estivesse emendado. Manoel explica que, desesperado com a dor, já estava decidido a mandar cortar o pé que não tinha jeito de sarar.
Até que um dia, o Reis que trabalha no gabinete do senador Tião Viana o descobriu levando sua triste vida e interessou-se pelo caso, levando-o até o doutor Nelson. Conta Manoel que, na primeira vez que esteve com o doutor Nelson este deu um puxão em seu pé que ele quase gritou de dor, mas logo em seguida ele lhe deu um alento afirmando que seu caso ainda tinha jeito.
No dia 9 de dezembro de 2002 aconteceu a operação. Ela durou quatro horas, foi bem sucedida e teve implantado em sua perna um aparelho de origem russa denominado Ilizarov que, além de fixar a perna para a cicatrização, ainda faz o alongamento dos ossos.
No caso de Manoel a perna havia ficado quatro centímetros menor e hoje já voltou ao tamanho normal. Convém frisar que outro paciente, hoje ainda internado no Hospital Santa Juliana, foi além, conseguindo um alongamento de 12 centímetros para recuperar o tamanho da perna.
Hoje, Manoel está todo esperançoso de voltar a uma vida normal. A perna está em franca recuperação, quase não dói. A dor que ainda sente está relacionado à presença do aparelho encravado na perna, mas assim que a perna estiver totalmente recuperada e for retirado o Ilizarov ela vai acabar. Também vai poder andar normalmente.
Vítima de terçadada tem a mão esquerda reimplantada
Francisco Alves da Silva é carpinteiro e mora no bairro Preventório com a família. Ele nem gosta de lembrar mas conta que no dia 9 de fevereiro, às 14h30, quando tirava uma soneca em casa teve seu lar invadido por um vizinho armado de terçado que aplicou-lhe dois golpes: um deles provocou um profundo corte na testa e o outro decepou-lhe parte da mão esquerda, ficando quatro dedos “pendurados só pelo couro” como informa.
A esposa acionou o Pronto Socorro. Levado para lá, Francisco ficou 9 dias em observação e de lá foi encaminhado ao Hospital de Base. Ele conta que desesperou-se quando se viu sem a mão e ficou traumatizado, imaginando-se para sempre um deficiente deste órgão.
Só veio a se tranqüilizar quando conheceu o quarteto de ortopedistas que resolveu reimplantar o órgão. A operação pela primeira vez realizada no Acre durou cerca de cinco horas e foi bem sucedida.
Francisco está se recuperando na Fundhacre e tem o prazer de mostrar que já pode mexer os dedos embora ainda estejam enfaixados. Segundo ele, ainda existe risco de perder o dedo indicador, o mais duramente atingido pelo golpe, que necessitaria de um complicado procedimento de enxertia mas, mesmo que perca este dedo, Francisco ainda assim se mostra satisfeito com a expectativa de recuperar a mão.
Esperando o dia de sua alta, Francisco não se cansa de elogiar o bom atendimento que vem recebendo na Fundhacre. Toda a equipe, ele garante, é muito sensível demonstrando sempre o maior interesse pelo seu caso, especialmente os médicos ortopedistas que sempre passam por lá procurando se inteirar de sua situação.