
Sibá Machado *
Como parte significativa dos acreanos, nasci no Nordeste, mais especificamente no Estado do Piauí, onde comecei a trabalhar aos 11 anos de idade. Não preciso dizer como foi duro para meu pai criar nove filhos com salário de vigilante. Cedo os filhos tiveram que batalhar para sobreviver. Por isso, não tive condições de continuar estudando. Em 1978, em São Paulo, trabalhei como cobrador de ônibus durante um ano. Um ano depois fui para a Transamazônica onde trabalhei por oito anos na agricultura quando meu pai, em 1983, adoeceu do coração e entregou a responsabilidade do sítio para mim.
Na Transamazônica, dividia-me entre a lavoura e a militância em grupos de jovens da Igreja Católica. Foi lá também que ajudei a construir o Sindicato de Trabalhadores Rurais. Em 1986, aceitei outro desafio: ajudar no fortalecimento dos trabalhadores rurais no Acre. Os frutos desse trabalho me levaram a presidir a CUT do nosso Estado de 1991 a 1997. Pelo PT, fui candidato à Assembléia Legislativa e a Deputado Federal. Em 1996 disputei a prefeitura de Plácido de Castro, ficando em segundo lugar. No ano passado fui eleito primeiro suplente ao Senado com a companheira Marina Silva.
Mas o que alguém que dedicou grande parte de sua vida à organização e a militância nos movimentos sociais vai fazer no Senado? A essa pergunta respondo dizendo que a minha história de vida traçaram os eixos que vão orientar meu trabalho no Parlamento.
Primeiro o da reforma agrária. Não esse modelo tradicional desenvolvido pelo Incra e que até hoje não melhorou a vida de ninguém. Acredito e vou trabalhar por um novo modelo de reforma agrária que respeite as populações tradicionais, suas culturas e acima de tudo um modelo que mantenha a floresta de pé. Uma reforma agrária sustentável, adaptada às especificidades da região Amazônia. Nós já temos esse paradigma iniciado no Acre com as propostas do companheiro Chico Mendes. Isso casa também com o trabalho já iniciado pela Marina na elaboração de propostas para a sustentabilidade ambiental e da valorização dos produtos da floresta.
Já neste mês começo a articular com outros parlamentares a criação de uma bancada voltada para a criação de uma Política Nacional de Florestas. Hoje, temos políticas públicas voltadas para a soja, para o café e tantos outros produtos. Está na hora, portanto, de termos a política das florestas nacionais com o viés do desenvolvimento qualificado, que devolva parte desses recursos à população que nela vive e tira seu sustento.
Penso ainda que o país precisa debater uma nova política de recursos hídricos. Nossa Região Amazônica representa 12% de toda a capacidade de água doce do planeta, seja de águas subterrâneas, de águas de superfície ou de águas de atmosfera. Além disso, pretendo incluir o Acre no debate nacional da nova política nacional de desenvolvimento da pesca, com prioridade para a piscicultura.
Outro ponto crucial deste mandato para mim é o debate em torno da redefinição territorial da Amazônia Meridional. E não apenas o debate no âmbito do Congresso Nacional, mas principalmente, um amplo debate que envolva as populações do território em questão. Pude perceber os equívocos cometidos na atual definição dos limites que compõem a região durante o período em que estive na Academia de Geografia da Ufac e por isso me sinto no dever de trazer esse debate à tona assim como envidar todos os esforços na possível correção desta distorção que não é apenas geográfica, mas também política, cultural e social.
Quando foi eleita pela primeira vez para o Senado, Marina fez uma única promessa: fazer valer a voz do Acre em Brasília. Assumo aqui o compromisso de fazer a voz do Acre continuar a valer muito no Congresso. Afinal, como disse certa vez o poeta R.M. Rilke, “nenhum vento é favorável para quem não sabe para onde caminhar, mas para nós que sabemos, mesmo a brisa é favorável”.
* Senador pelo PT
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