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Rio Branco - Acre, terça-feira, 17 de março de 2003
Indesejáveis semelhanças

O assassinato do ex-bancário e pecuarista Mauro Braga reacende a suspeita de que a violência com eliminação de pessoas, embora contida por uma forte, legal e moralizadora ação do Governo da Floresta, pode ressurgir. É o que deixam transparecer a entrevista que a viúva Herloiza Almeida de Oliveira concedeu ao editor-assistente Altino Machado, deste diário, e a investigação feita pela delegacia geral de polícia. Tal qual se fazia num passado recente, um pistoleiro de encomenda teria sido contratado no Centro-Oeste com a missão específica de acabar com a vida do pecuarista. Veio, matou, recebeu o dinheiro e foi embora com as garantias do ou dos mandantes.

Os ingredientes são parecidos com os que eliminaram o líder sindical e ecologista Chico Mendes em 1988, com a diferença que o eliminado, desta vez, foi um membro da classe patronal. Entretanto, a morte de Braga também carrega os indícios de um acerto de contas entre a vítima, que vendeu mais de 3 mil bois e pressionava para receber a conta, e o suspeito, que comprou o gado mas não conseguiu pagar, ou planejou não pagar.

No domingo aconteceu uma reunião entre alguns fazendeiros (tal qual ocorreu no caso Chico Mendes) com o objetivo de dar proteção e assegurar defesa ao suspeito de mandante, o também pecuarista Antônio Augusto, detido pela polícia. A diferença é que a agora a classe dos pecuaristas não quer ser confundida com esse grupo, porque mantém com o Governo da Floresta um profícuo pacto em favor de uma sociedade sustentável no Acre.

O coordenador do encontro de domingo é um velho conhecido dos conflitos pela posse da terra no Acre: o fazendeiro Ricardo Castro, proprietário da Fazenda Ipanema, que em 1976 se envolveu em confrontos com posseiros do seringal Nova Empresa nas proximidades de Rio Branco. Na época, o seringal foi adquirido por um grupo do Sul e dividido em várias glebas de 10 mil hectares, uma das quais coube ao industrial Arquimedes Barbieri, que colocou como gerente das terras o paulista de Marília Carlos Sérgio Zaparoli Siena. O gerente intimidou os seringueiros, queimou barracos e em julho de 1977 foi morto de emboscada pelo posseiro Antônio Caetano de Souza, pai de 18 filhos.

Ricardo Castro limpou sua gleba oferecendo 20 hectares para cada família ameaçada de expulsão. As famílias que aceitaram o acordo, entretanto, não tiveram como sobreviver em lotes com tal dimensão. Nos dias de hoje, porém, pecuaristas e governo se empenham para que essa ligação histórica dos fatos não passe de semelhanças indesejáveis.

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