
“Entre os fazendeiros,
inimigo bom é inimigo morto”
ALTINO MACHADO
Antes de ser assassinado numa emboscada com dois tiros, no dia 19 de dezembro do ano passado, o pecuarista e ex-presidente do extinto Banacre, Mauro Braga, escreveu duas cartas ao fazendeiro Antônio Augusto Rodrigues de Araújo, o Bodão, que se encontra preso desde a sexta-feira como suspeito de mandante do crime.
Ambos mantiveram uma parceria para engorda e abate de bois que durou quase 10 anos. Na primeira carta, de 26 de dezembro de 2001, Bodão dá ciência de que a mesma foi entregue em mãos por Braga. Nela, o ex-presidente do Banacre menciona um saldo de 3.645 bois que deveriam ser abatidos até junho do ano passado.
“Para um bom andamento ético e profissional de qualquer natureza de negócio, está acima de tudo a honestidade, a transparência, boa vontade de ambas as partes, razão pela qual deixo o parceiro inteiramente a vontade para apontar qualquer falha de minha parte e, caso existam, as receberei com naturalidade, procurando sana-las, para evitar descumprimento ou solução de continuidade do que por nós foi pactuado”, assinala Braga.
Na outra carta, com data de janeiro de 2002, Braga menciona o contrato de parceria e estabelece um calendário de matança dos 3.645 bois. Ele sugere ao fazendeiro Antônio Augusto, caso o mesmo queira continuar a parceria, que a reposição se dará de acordo com a matança dos bois. E, mais uma vez, se mostra disposto a negociar, especialmente sobre o calendário de matança.
A viúva de Braga, Herloiza Almeida de Oliveira, a Ló, disse ontem que Augusto ‘Bodão’ devia 3.691 bois quando seu marido foi assassinado. Trata-se de uma dívida avaliada em aproximadamente R$ 2,5 milhões. ‘Bodão’ era acusado por Braga e agora pela família de substituir os bois que abatia por bezerros.
Depois que o marido foi assassinado, a defesa de Ló teria encontrado apenas 528 bois em poder de ‘Bodão’ e dado um prazo de um mês para ele providenciar a entrega do que faltava. O fazendeiro teria alegado que os bois estavam distribuídos em várias fazendas, mas teria silenciado sobre a devolução até ser preso.
Ló está se sentindo insegura com a família depois que ‘Bodão’ foi preso por causa da reação de alguns pecuaristas amigos dele. Ela e a filha, Ussula, 23, que se formou em Direito e voltou para o Acre um dia antes da morte do pai, disseram que Braga foi vítima de crime de pistolagem e querem apuração e justiça para o caso.
Leia a íntegra da entrevista com a mulher e a filha de Mauro Braga:
A vida da família mudou muito depois do assassinato de Mauro Braga?
Ló – Tudo mudou demais. Quando ele era vivo nós nos sentíamos superprotegidos. Ele não queria que a gente fizesse nada e se encarregava de fazer tudo. Até mesmo a feira em supermercado era com ele. O Mauro resolvia tudo sozinho, especialmente os negócios dele. Ultimamente, foi que ele passou a se abrir mais, avisando para mim e para os filhos o que e com quem estava negociando.
Ussula - Mas a verdade é que meu pai era muito fechado e se comportava assim para nos proteger.
A senhora procurou hoje (ontem) a polícia, preocupada com a segurança de sua família?
Ló - Sim, procurei a polícia porque estou bastante preocupada com a minha vida e a dos meus filhos. Depois dessa prisão [do fazendeiro Antônio Augusto], muita coisa mudou. Algumas pessoas amigas do Mauro participaram ontem (domingo) de um almoço de fazendeiros, organizado pelo fazendeiro Ricardo Castro Cunha, primo do preso. Amigos nossos que participaram da reunião nos advertiram que alguns fazendeiros estão se organizando para dar todo apoio ao preso e estão vindo com tudo. Isso me deixou assustada.
Ussula - Claro que isso não envolve todos os fazendeiros porque em todas as classes sociais existem pessoas dignas e honestas. Porém, nesse caso específico, existe a presença de pessoas nas quais não podemos confiar.
A senhora está satisfeita com a evolução das investigações da polícia, que culminou com a prisão do suspeito de ter sido o mandante do assassinato de Mauro Braga?
Ló - Sim, nós da família estamos muito satisfeitos. Nós sempre acreditamos no trabalho da polícia e da justiça. Não tenho nada a reclamar porque a polícia está muito empenhada. Já chegou a um dos envolvidos como mandante e logo deverá chegar aos que estiveram envolvidos na execução do assassinato. Eu só tenho a elogiar porque eles estão no caminho certo.
Esse caso, depois do assassinato, começou com a confusão gerada pela polícia técnica ao atestar que Mauro Braga fora vítima de enfarte.
Ló - Exatamente. Nós não aceitamos essa conclusão precipitada e depois se constatou que realmente ele fora vítima de assassinato, de uma emboscada.
Ussula - Quando o corpo do meu pai estava no Instituto Médico-Legal, o pessoal da polícia técnica me retirou da sala porque eu não parava de protestar com o laudo de que ele fora vítima de enfarte. Aquilo para mim, com o histórico de negócios de meu pai com um devedor e as evidências das balas, era inaceitável. Um policial me retirou do local dizendo que eu não sabia de nada, que era uma criança. Achei um desrespeito. Depois tiveram que reconhecer o erro. Nós denunciamos o caso ao Conselho Regional de Medicina. Não tivemos tempo ainda para saber se está sendo apurado ou não.
A imagem deixada por Mauro Braga é a de um homem muito ambicioso, que evitava desfrutar da fortuna e que fazia de tudo para proteger o patrimônio. O que a senhora tem a dizer sobre isso?
Ló - As pessoas que não conheceram o Mauro suficientemente têm essa imagem dele. Quem teve a oportunidade da convivência sabe que ele não era assim. Algumas reportagens citaram que ele era um homem que colecionava inimigos. O Mauro tinha pessoas que não gostavam dele porque ele era trabalhador, sabia negociar e não aceitava ser enganado.
Ussula - Meu pai trabalhava o dia inteiro. Chegava em casa no final da tarde e ia dormir. Ele sempre falava para nós que o maior medo dele era morrer e deixar a gente tendo que trabalhar duro para sobreviver. Em dezembro, quando cheguei, já estava formada em direito. Esse era o maior sonho dele. Cheguei na quarta-feira 18, no dia seguinte meu pai foi assassinado. Não comparecei à formatura. Posteriormente, acompanhada de minha mãe, prestei juramento. Mesmo vivendo toda a atribulação da morte de meu pai, consegui em janeiro se aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Sinto muita tristeza de meu pai não tido oportunidade de ver a filha dele chegando onde ele queria.
É verdade que Lucas, o filho caçula de 9 anos, sabe que o pai dele morreu, mas desconhece que tombou numa emboscada por causa da cobrança de uma dívida?
Ló - O Lucas me pediu para não ver o pai morto. Até hoje ele acredita que o pai morreu por causa de diabetes, pois ele via o Mauro tomando insulina todos os dias. A gente tem protegido, mas ele está sofrendo demais. Acorda durante a madrugada chamando pelo pai, inconformado com a morte dele, pedindo para abraçar o pai. A escola dele tem colaborado para evitar que ele saiba que o pai foi assassinado a mando de alguém conhecido dele, que negociava com o pai dele.
O fazendeiro Antônio Augusto deu um cachorro de presente para um irmão da senhora. Isso demonstra que ele parecia ter negócios e proximidade com a sua família.
Ló - Sim, isso é verdade. Apavora imaginar qual será a reação do meu filho quando souber que essa pessoa é acusada de ter tirado a vida do pai dele. No dia do velório, nós tivemos que trocar a roupa e o caixão do Mauro porque ele sangrava muito. Dizem que isso acontece quando o assassino comparece ao velório da própria vítima. Esse sujeito com quem Mauro negociava esteve no velório e quando alguém comunicou que o Lucas estava muito abalado ele quis saber quem era Lucas. Ora, ele conhece meu filho. Há muito tempo a gente suspeitava que a qualquer momento o Mauro pudesse ser assassinado por ele.
O fazendeiro Antônio Augusto era amigo do seu marido?
Ló - Ele era um amigo da família. O Lucas andava muito com ele. Como ele está preso, Lucas já pode saber que o pai foi assassinado por causa do roubo de gado.
Ussula - Ele atrapalhou a vida de muita gente. Não foi apenas a nossa. Meu pai tinha muitos amigos e tem muita gente sofrendo por causa desse crime. Os assassinos não sabem o que é amor de pai e filho. Eles detonaram a gente, os nossos sonhos.
Muita gente tombou, nos anos 70 e 80 por causa da violência dos pecuaristas pela conquista de terras na região.
Ussuala - Fazendeiro era para ser a raça mais unida, mas infelizmente eles têm um código de ética que diz que inimigo bom é inimigo morto. Isso não faz sentido. A pecuária é uma atividade rentável para todo mundo. Não faz sentido que haja tanta violência porque todo mundo envolvido com a criação de gado ganha dinheiro. A amizade era para ser grande entre todos. Quem anda na casa de fazendeiros do Acre sabe quem presta e quem não presta. Entre eles próprios existem os comentários de quem presta e de quem não presta.
Um coisa que não dá para compreender: se Mauro Braga considerava Antônio Augusto um ladrão, devedor de mais ou menos R$ 2,5 milhões, por que até andava a sós com ele, como aconteceu no dia do crime?
Ussuala - Eu e nossas filhas cansamos de pedir ao Mauro que ele desse por encerrado o negócio com essa pessoa. Pedi que ele acabasse até dezembro do ano passado com essa parceria. O argumento do Mauro era o de que todo mundo tem direito a uma ajuda, direito a ter uma chance, que se ninguém ajudasse a pessoa não poderia mostrar quem realmente era. Ele também me disse que essa pessoa era uma pessoa bem relacionada, com muitos amigos entre os fazendeiros, mas que nenhum deles negociava com ela por causa de sua história de trapalhadas. Quando descobriu o roubo de gado, o Mauro me disse que o parceiro dele merecia uma chance, pois não acreditava que tivesse coragem de roubar gado novamente.
A senhora está insinuando que o Mauro Braga acreditava na bondade humana?
Ló - Sim, acreditava. O Mauro achava que todas as pessoas eram como ele, que se zangava e explodia, mas que meia hora depois não guardava mais mágoa. Mas sabemos que não é assim. Várias pessoas que freqüentavam nossa casa também acompanhavam esse drama. Sabiam que Mauro corria risco de vida e tentaram juntamente com a família convencê-lo de que desse a parceria por perdida.
Ussula – Recentemente, outro fazendeiro amigo da família presenciou o nosso desespero. Meu pai saiu com essa pessoa [Antônio Augusto] e demorou a chegar. Eu até telefonei para a esposa dele e disse: ‘manda seu marido aparecer logo com meu pai porque eu sei que ele saiu com ele’. O medo de que ele pudesse matar meu pai já vinha de longe.
O que aconteceu no dia do crime?
Ló – No dia do crime nós pedimos várias vezes para que ele não saísse na companhia dele [Antônio Augusto]. Minha outra filha implorou e ele então prometeu que iria sair com ele, mas que não iria sozinho. Mas ele não fez isso. O Mauro inclusive vinha enfrentando dificuldade para conferir o gado que estava em poder do parceiro dele, que chegou a proibir a entrada do meu marido na fazenda dele.
Conte mais sobre como era a relação de Mauro Braga com o fazendeiro Antônio Augusto. A senhora lembra de outro fato marcante?
Ló - O parceiro dele chegou a adoecer e o Mauro então deu R$ 50 mil para ele. Quando o Mauro me falou isso, fiquei sem entender nada e reclamei. Fiquei sem argumento quando o Mauro disse assim: ‘Ló, preciso cuidar da saúde dele. Ele tem uma dívida grande comigo e defunto não paga dívida. Vou cuidar dele para que a gente possa negociar, para que eu tenha as minhas coisas de volta’. Essa foi a resposta que o Mauro me deu quando disse que ele não deveria dar R$ 50 mil para quem estava roubando gado dele. Quando ele saiu do Acre para sofrer uma cirurgia, o Mauro tentou visitar o gado na fazenda e encontrou a proibição deixada pelo proprietário. Cheguei a conversar com a Lúcia, esposa do Antônio Augusto, para que ela pedisse ao marido para atender os telefonemas do Mauro.
O Mauro Braga não gostava de gastar o que ganhava. Dizem que criava peixes, mas preferia comprar peixe no mercado. É verdade que ele nunca viajou para passar férias com a família em outra cidade?
Ló - Isso é verdade. Nós nunca viajamos em família durante as férias escolares de nossos filhos. Lucas, por exemplo, até hoje não conhece o mar. Essa viagem estava programada agora para o final de ano passado, quando aconteceria a formatura da Ussula. A gente então ia aproveitar para prestigiar a formatura de nossa filha e passar uns 15 dias viajando em família pela primeira vez, dando oportunidade do Lucas conhecer o mar finalmente. Você não vai encontrar alguém que diga ter encontrado o Mauro numa festa.
Ussula – Ele era um homem que só se preocupava em trabalhar. O que ele fazia muito raramente era um churrasquinho para os amigos aqui em casa. Aqui só entrava aqueles que meu pai considerava amigos de verdade. Tanto que tem gente com quem ele mantinha parceria, mas que nunca entrou em nossa casa.
O fazendeiro Antônio Augusto era desse restrito grupo que freqüentava os churrascos ocasionais preparados por seu pai?
Ussula – Não, ele não freqüentava nossa casa. A presença dele era do portão para fora. Daí porque a gente ficava desconfiada em casa. Quando meu pai gostava de uma pessoa, costumava chamar para almoçar na minha casa. Chamava para almoçar e não para jantar. Ele dormia cedo e acordava cedo. Quando muito, quando a gente chegava de fé-rias, ele ficava até mais tarde conversando com a gente. Não adiantava reclamar para ele ficar mais tempo. Ele dizia: ‘Tenho que trabalhar muito para vocês’. Isso era a resposta que eles sempre nos dava.
Estou satisfeito e agradeço pela entrevista. Têm algo mais a acrescentar?
Ló – Quero aproveitar para lembrar uma coisa: todo acreano vê e ouve nosso governador afirmar que a pistolagem no Acre acabou porque essa tem sido também uma luta dele para que haja paz em nosso Estado. Nós reconhecemos e esperamos que ele continue dando todo o apoio para que a polícia possa desvendar esse crime com a prisão, em outro estado, do executor do assassinato. Apelo para que ele não permita que algumas pessoas que vêm de fora semeiem a violência e se achem no direito de contratar pistoleiros profissionais para vir cometer crime contra qualquer pessoa, especialmente contra alguém que nasceu aqui e que só levava a vida a trabalhar. Isso não pode mais acontecer. Chega de violência! Precisamos dar um basta nisso. Finalmente, quero agradecer o trabalho da polícia, da justiça e da imprensa.