
Francisco Dandão *
Devo confessar, para início de conversa, que tenho relutado um pouco nos últimos tempos cada vez que me vejo instigado, por razões profissionais, a cumprir essa minha obrigação (é preciso ter prazer, sempre) de escrever o texto da semana. O labor me dá uma idéia de inutilidade.
Tudo ao meu redor, que podia ser definitivamente belo e luminoso (meio que parecido com Platão nesse ponto, mas vá lá que seja) se, simplesmente, crescesse e multiplicasse de acordo com as leis naturais, ao contrário, ganha tons sombrios pelo ar cada vez maior de desvario coletivo.
A velocidade da queda rumo ao abismo, a pupila dilatada, a explosão, o estilhaço da granada, o morro desabando, os canhões e os fuzis desfilando por entre passistas e batuqueiros (como alegorias saídas de um cérebro doentio), a marcação de um compasso ao ritmo de um coração acelerado...
Qualquer que seja o argumento, por melhor que se dê o encadeamento dos adjetivos e a fundamentação do verbo, a pirâmide das idéias sobrepostas remete-me, a cada parágrafo materializado na tela do computador, a um conjunto vazio, carente de sentido (sem tato, sem teto, sem tudo...).
As palavras não parecem mais suficientemente fortes para mudar o pensamento dos homens e os rumos do mundo (antes tão vasto que se dizia não poder atravessá-lo de uma ponta a outra se quem teimasse na empreitada não possuísse uma bota de sete léguas, como o gato da fábula).
Denotação e conotação como que se perdem entre as linhas cruzadas dos seus ângulos retos, sintagmáticos eixos interrompidos pela finitude das linhas para cima e para baixo, esquerda e direita, qualquer que seja a direção, tanto faz. Sólido e farelo, no ar nada mais se cria, tudo se desmancha.
Fala-se que fala-se, escreve-se que escreve-se, gesticula-se pateticamente até, e nada. Ninguém escuta os sinais (semáforos vermelhos ignorados pela massa enfurecida). Ou então, dono da sua própria e irremediável verdade absoluta, quem se digna a ouvir faz pouco caso.
O murmúrio oriundo da televisão ligada às minhas costas fala em ultimato. Se não obedeces, te mato! A criação é de Deus, mas a destruição é dos homens. O divino e o profano se completam. Quem sabe, para um recomeço movido a petróleo e sem a chatice da camada de ozônio.
A resposta é uma trincheira fundamentalista, protegida por Alah e uma promessa de mil virgens para cada idiota morto, num paraíso de luz, cheio de churrasco e vinho fresco. Cabaços para os falecidos... Pois sim! Vírus e bactérias no bico do foguete, isso sim, isso sim!
A contagem voa mais rápida que a luz para longe do coração. Dez, nove, oito, regressão a cada instante para o duelo (ou seria massacre) final. Sete, seis, cinco, mínimo por cento de chance para a paz. Quatro, três, dois, um, diplomacia é arma de fracos. Fogo (e ferro) neles, que são monstros.
Meu discurso escrito, antes a minha alma e uma possibilidade de redenção, arde por combustão espontânea. Começa de um ponto qualquer que nem ponto chega a ser, dado que mera abstração, e chega a lugar algum. Dá voltas sobre si mesmo para morder o próprio rabo.
No vácuo o meu discurso falado não se propaga. Bate nos lábios e volta para dentro de mim mesmo. Como no poema de Bertolt Brecht, me convenço de que eles levaram a minha voz (talvez porque eu não soube cuidar suficientemente bem do meu jardim, desde a primeira noite que o pisotearam).
A barbárie é cega e surda. E, assim, as palavras nada podem contra ela. Guerra iniciada, guerra perdida. No subsolo, camada alguns quilômetros abaixo da consciência, jaz o futuro. Negro e viscoso, vai emergir para afogar os átomos do cogumelo em forma da fumaça, decorrentes da loucura.