
Cenário mutante
A reunião do Copom que começou ontem está avaliando um cenário mutante. O preço do petróleo despencou nesta terça-feira e já havia caído na véspera. O petróleo Brent fechou em US$ 27 para abril; o WTI, em 31. O petróleo tem uma relação direta com a inflação e, portanto, com a taxa de juros. A maioria do mercado acha que os juros serão mantidos, mas há quem aposte em nova alta.
Os contratos de petróleo para vencimento futuro estão mostrando queda, o que significa que a aposta é por uma guerra curta que acabe com a incerteza e restabeleça a normalidade no suprimento. Se for assim, o Brasil é beneficiado mas não quer dizer que não haverá aumento de preço interno de combustível. Normalmente, a Petrobras espera a estabilização do preço antes de reajustar.
Mas o que espantou nos últimos dias foi o aumento da meta do acordo com o FMI para uma inflação de 17,5% no ano, mantendo aqui dentro uma meta de 8,5%. Os números são diferentes demais para que um determinado país tenha as duas metas para um mesmo ano.
Ocorre que o acordo com o FMI vai até setembro e, portanto, não se refere ao mesmo período de doze meses. Até setembro, a inflação deve realmente ficar alta porque carrega no cálculo de doze meses as altas do último trimestre do ano passado. Se a inflação for controlada durante este ano, o último trimestre terá uma taxa bem menor que a do mesmo período de 2002. Então, de setembro para dezembro, a inflação deve cair bastante no cálculo dos doze meses. Outro fato é que, nos últimos anos, o governo anterior havia mesmo iniciado a prática de projetar, no acordo com o FMI, um número bem maior, mas mantendo uma meta menor no compromisso interno do Banco Central.
De dezoito instituições financeiras que atuam no Brasil, sete acham que as taxas de juros podem subir meio ponto ou até um ponto percentual na reunião que termina hoje, mas a maioria continua apostando em manutenção das taxas. Os dados dão razão a ambas as apostas. Se o país estiver mesmo perseguindo uma meta de 8,5% de inflação no ano de 2003, o esforço anti-inflacionário tem que ser bem maior pois nos últimos doze meses terminados em fevereiro a alta anual ficou em 15,9% e todas as indicações são de que a taxa vai continuar subindo. Por outro lado, os índices recentes mostram que a a inflação está caindo e tem grande chance de ficar bem baixa no próximo trimestre. As chances aumentam se o petróleo continuar em queda, devolvendo todo o aumento nos últimos meses devido a perspectiva da guerra.
Se o conflito for longo, há vários outros desdobramentos ruins para a economia brasileira, que precisa aumentar o comércio internacional, um projeto mais fácil de realizar quando o mundo está crescendo.
De qualquer maneira, incerteza é o nome do jogo quando o mundo está às vésperas de um conflito entre o maior país do planeta e um país produtor de petróleo. Diante dos sinais contraditórios enviados pela conjuntura, o mais adequado para o Copom talvez seja mesmo o de deixar tudo como está, acompanhando a queda da inflação mensal que já está acontecendo, seguindo a evolução dos preços internacionais que nos afetam e a do dólar antes de tomar qualquer decisão.
Em outras áreas, o país já fez o que podia para se preparar para a guerra: aumentou o superávit primário, reduziu a vulnerabilidade externa, elevou os juros. O que resta agora é esperar a evolução do conflito para ver que cenário vai se confirmar: se o mais otimista, de uma guerra rápida, ou se os temores de eventos imprevistos vão produzir um quadro mais pessimista. A sempre temida possibilidade de destruição da infra-estrutura de petróleo do Iraque, se ocorresse, reverteria este bom momento no mercado internacional do produto. Guerra é guerra: um momento em que há poucas certezas.