

Elival Monteiro, no leme
do Lua Cheia durante a Expedição
à Foz do Breu, e no fundo os integrantes da expedição
Elival, comandante pra toda obra
Elson Martins
Quando não está no leme ele limpa o chão do barco ou faz reparo no toldo; ou arruma a carga; ou improvisa algo que melhore a vida dos passageiros. Mal o barco atraca num barranco, salta para catar troncos, galhos e torrões improvisando uma escadaria a partir da prancha estendida. É um trabalho que exige experiência, força e muita vontade de apagar dificuldades. Não importa que tenha de atolar até os joelhos e sofrer mergulhos inesperados. Em questão de minutos, com um sorriso convincente, se sacode num dos “degraus” para provar que está firme.
Ele também arma redes, descama peixes e carrega com destreza a bagagem de passageiros até o barranco: “Não esquenta não, doutor”, diz aos embarcados.
Na proa é um mestre. Faz o barco dançar sobre as águas enquanto lê na memória a profundidade do rio. Tem hora que a embarcação passa rente às imbaúbas, lambendo os galhos e o barranco, outra singra lampeiro pelo meio, enquanto o proeiro canta, acena e faz inocentes galhofas com os ribeirinhos. “Como vai, corno velho!” – grita, misturando o som da voz com a do motor provocando no outro lado um aceno carinhoso.
-Na volta eu vou apanhar um galo pra ele cantar as horas pra gente, comenta em voz baixa.
É assim Elival Pinheiro, 39, dono e comandante do barco que conduziu os integrantes da Expedição à Foz do Breu rio Juruá acima, no período de 15 a 25 de fevereiro. O barco, uma baleeira com capacidade para 18 toneladas e até 80 passageiros, nem nome tinha quando iniciamos viagem partindo de Cruzeiro do Sul no extremo oeste do Acre. Sugerimos “Lua Cheia” porque era noite de lua cheia, o que acatou satisfeito. Depois, ponderou, mudaria para “Bruna” que é o nome da filha mais nova.
Elival mede o percurso de Cruzeiro do Sul a Foz do Breu recorrendo a um sistema pouco usual, mas preciso: “São 378 praias e 11 estirões”. Ele transforma isso em horas e raramente falha, ainda que o tempo de uma praia ou estirão mude conforme a potência do barco e o nível das águas.
Membro de uma família de 14 irmãos (sete homens e sete mulheres), cresceu no seringal São João do Breu até os 13 anos de idade. Depois, foi para a localidade Boi da Lua onde permaneceu 18 anos. Ali, a família plantou um seringal de cultivo (16 mil pés de seringueira) com financiamento do Probor, numa área de 750 hectares comprada do seringalista Armando Geraldo. Como a maioria dos projetos do Probor na Amazônia, fracassou.
No começo dos anos noventa, a propriedade que está localizada no Parque do Divisor acabou sendo reivindicada pelo Ibama. A família saiu da terra deixando apenas um irmão cuidando de algum gado que restou. A propriedade será indenizada, mas já passaram 13 anos e nada.
Elival e os irmãos foram tentar a vida em Ipixuna, no baixo Juruá (Estado do Amazonas), com o arrendamento de um seringal. Fracassaram de novo, tendo que retornar para Cruzeiro do Sul. Há quatro anos, a família vive de fazer fretes transportando cargas e passageiros. Viaja para Thaumaturgo, Porto Walter, Ipixuna, “para onde o cliente quer que gente vá, a gente vai”, explica acrescentando: “O negócio do barco dá para ir comendo. A família é grande. Se tivesse ficado na terra já estaria com muito gado, muito melhor. Foi uma coisa muito ruim”.
Elival está descrente de que o Ibama (governo federal) vai pagar pelas terras desapropriadas. E parece conformado com a vida que leva com os irmãos e primos no barco Lua Cheia.
Entrevista
Você, que conhece todo mundo nesse rio, acha que o pessoal está melhorando de vida?
Depois da criação da reserva extrativista (Reserva Extrativista do Alto Juruá, com área de 506.186 hectares e que vai da boca do rio Amônia até a foz do Breu) o pessoal parou de ser explorado pelos patrões. Mas pelo outro lado também esse pessoal não tem nada porque a borracha acabou. Você viu aquelas folhinhas (folha fumada de látex)? Aquilo ali também não dá nada não. O pessoal vive mais de farinha, tabaco...
O que você transporta de produtos em seu barco?
Transporto feijão, tabaco e farinha para vender em Cruzeiro. Tem deles que nem paga o transporte porque não pode; é conhecido da gente, o cara trás 200 quilos de feijão e se for pagar as passagens não sobra dinheiro nenhum.
O que está faltando para esse pessoal
realmente melhorar de vida?
O governo podia entrar com barcos para fazer um recreio (transporte gratuito) até o Breu. Isso ajudaria muito. Muita gente deixa de vender seus 200, 300 quilos de feijão porque não compensa, com as despesas do transporte, vender na cidade. Acaba vendendo para o regatão por uma mixaria. O cara troca 5 quilos de feijão por um litro de álcool, é um absurdo.
Você transporta pessoas doentes?
De todo jeito. Estou canso de andar a noite todinha com um cara doente aí dentro da rede, para poder chegar mais rápido, né.
Quanto gasta numa viagem dessas?
Quatro dias e três noites, parando somente para pegar o pessoal e a carga, entre Thaumaturgo e Cruzeiro do Sul. Só passo de Thaumaturgo quando faço viagens para a Prefeitura. O prefeito (Itamar de Sá) ajuda: às vezes eu trago 30 aa 40 passageiros e o prefeito paga.
Qual é o preço da passagem?
De baixada dá 20 reais. A subida é 30 reais. A gente dá comida e todo mundo vai aí deitado, tranqüilo...
Se você recebesse sua indenização, o que faria aqui na região?
Eu ia comprar um barco maior, com mais conforto e continuar fazendo recreio pelo alto Juruá ajudando muita gente. Eu ia fazer alguma coisa que prestasse para ajudar as pessoas que precisam mais do que a gente.
Você foi sempre assim, amigo de todo mundo?
Sempre. Isso é um negócio muito bacana. Aonde a gente chega eles dão comida pra gente. Também quando eles chegam no nosso barco dizem: “Rapaz, a gente quer ir pra Cruzeiro mas não tem dinheiro”. E eu respondo: “Embarca que a gente leva”. Se tiver dinheiro ou não tiver, vai do mesmo jeito.
Tem filhos?
Sou casado e tenho quatro filhos: três meninas e um menino. Eu quero que eles sejam alguém que não fui. Que tenham oportunidade. Estou dando para os meus filhos o que não tive. Quero que um seja advogado, outro seja juiz. O menino quer ser administrador de empresa. Outra menina quer ser doutora (médica). Vou trabalhar pra isso.
Não gostaria que eles vivessem aqui?
Não. Não quero de jeito nenhum.
Não acha legal a vida aqui, não?
Eu acho bom, mas não quero isso pra eles não.
Você se sentiria melhor morando fora daqui?
Não, fora dessa mata não quero saber. Eu passei 12 dias em São Paulo e quase que eu morro. Com frio e sentindo aquela coisa ruim. Não tem condições não, Deus me livre.
Já ouviu falar em Governo da Floresta?
Já.
E em Florestania?
Não.
O que entende por Governo da Floresta?
Não entendo nada. Mas sei que é um bom governo. Já demonstrou isso em quatro anos do primeiro mandato.
Com a ajuda desse governo a borracha poderá ser reativada?
É difícil, não acredito não. Porque os caras que estão nascendo agora não são homens para cortar seringa. Os homens de coragem tão morrendo tudo.A tendência agora é todo mundo ir embora para a cidade. O cara estuda e quando está terminando o primeiro grau já vai embora.